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Superman

Classificado como 4 de 5

Superman

2025

129 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: James Gunn

Vou começar este texto fazendo dele um confessionário: nunca fui muito fã do Superman. Os fundamentalistas de plantão podem me acusar de heresia à vontade. Sempre achei o personagem escoteiro demais — e olha que eu já fui escoteiro. Preferi os demais membros da Liga da Justiça, em especial os outsiders Batman e Caçador de Marte. Talvez o que mais me incomodasse fosse a construção messiânica de seu arquétipo — meu ateísmo provavelmente fala mais alto nessa hora.
Apesar desse mal-estar, consigo ter relações distintas com o personagem de acordo com suas adaptações audiovisuais.

O filme clássico protagonizado por Christopher Reeve não me agradava quando criança. Passei a dar-lhe o devido valor já adulto, observando a atuação de Reeve e Gene Hackman. Os filmes de Zack Snyder me agradaram, mas sempre os achei frios demais. E, apesar de gostar de Henry Cavill como Super, acho-o um péssimo Clark Kent. O longa com Brandon Routh considero esquecível.

Quando recordo as representações na TV, Smallville sempre terá um lugar afetivo na minha memória pelas reprises no SBT — Save Me é uma música que marcou. Nunca suportei Lois & Clark — Dean Cain é um péssimo ator, por sinal. Nunca assisti a Supergirl, então não posso falar sobre Tyler Hoechlin. A animação da Liga da Justiça foi uma das melhores da minha juventude, e a voz de Guilherme Briggs é a que ecoa na minha mente quando lembro do personagem.
Mas minha versão preferida do Homem de Aço é a de Entre a Foice e o Martelo — por que será, não é mesmo? (risos)

Mas este texto não é sobre o personagem em si, e sim sobre sua mais recente adaptação para o cinema sob a visão de James Gunn — cineasta que se consagrou com a trilogia Guardiões da Galáxia, ajudando a moldar a fórmula da Marvel, e que depois reinventou o Esquadrão Suicida com liberdade autoral, já na DC. Desde já, fico feliz em ver adaptações sendo conduzidas por autores familiarizados com o material original. Gunn sempre se declarou um grande fã de quadrinhos, o que lhe confere não só um vasto repertório de referências, mas também uma responsabilidade com os valores dos personagens que adapta.

Essa fidelidade aos valores do Superman está garantida aqui. Gunn enaltece a consciência do herói sobre sua origem alienígena e, para os extremistas de plantão, há um discurso igualmente consciente sobre xenofobia. O arco do personagem está em redescobrir sua humanidade. No longa, a confiança pública no Homem de Aço é abalada após Lex Luthor invadir a Fortaleza da Solidão e divulgar a mensagem deixada pelos pais de Kal-El, revelando os planos originais para seu filho na Terra.
Mas se o conteúdo da mensagem traz dúvidas, o ethos inabalável do herói transborda a tela com um sentimento genuíno de gentileza. E isso não significa, é claro, fazer dele um homem perfeito — nem enquanto Super, tampouco enquanto Clark.

O filme já começa expondo sua vulnerabilidade. Na primeira cena, vemos o herói caído, machucado e sangrando. A escolha de reapresentá-lo nesse estado o distancia da imagem inabalável à qual está associado — e o aproxima do homem, não do mito. Esse ponto de partida já indica a diretriz do filme. Se o Homem de Aço pode ser ferido, para além da exposição à kryptonita, ele também pode demonstrar outras fragilidades.

Ele sangra (Imagem: Divulgação)

É inteligente a forma como Gunn humaniza seu protagonista, ao trazê-lo mais perto do alcance do nosso olhar. Quando confrontado por Lois durante uma entrevista, Clark demonstra descontrole e até certa imaturidade. Ele pode ser bem-intencionado, mas ainda assim comete deslizes. Afinal, errar é humano, não é mesmo?

Essa cena é potente porque rompe com a idealização do herói perfeito. Ela revela as inseguranças de Clark diante da opinião pública e expõe sua manipulação da imprensa — o que também serve para valorizar as personagens femininas do filme. Lois se destaca como jornalista ao manter uma postura crítica e incisiva, sem se reduzir ao papel de interesse amoroso. Rachel Brosnahan injeta humor inteligente e um leve deboche no olhar da personagem. Lois não é frágil — pelo contrário.

Lois dando uma aula de jornalismo a Clark (Imagem: Divulgação)

Na verdade, tanto Lois quanto Eve são personagens marcadas pela astúcia, não pela beleza. No caso de Eve, Gunn subverte o estereótipo da mulher-troféu ao apresentá-la como mais inteligente que Lex Luthor. Se Eve tem uma dependência afetiva de algum Adão — seja ele quem for — aqui ela é a ruína da serpente. Lois e Eve são responsáveis, cada uma à sua maneira, pela salvação e queda de seus pares.

Mesmo a Mulher-Gavião, com pouco tempo de tela, tem uma ação decisiva, que deixa claro: nenhuma mulher deve ser subestimada. O sexo feminino está longe de ser frágil.

A incorporação de outros heróis abre muitas possibilidades e ajuda a expandir o universo DC. O filme introduz o Salão da Justiça e deixa claro que o Superman não pode enfrentar todas as ameaças sozinho. O Sr. Incrível rivaliza com Lex em inteligência e levanta dilemas éticos sobre o uso da tecnologia — com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (sim, eu sei, universo errado).

Guy Gardner como Lanterna Verde traz o humor irreverente típico de Gunn, e Nathan Fillion está excelente como o herói arrogante e insuportável (risos). Adorei o Lanterna Verde usando seus poderes para fazer sinais. Mas o grande destaque é mesmo Krypto, o supercão — a melhor coisa do filme! Krypto se comporta como um cão de verdade, e isso rende momentos hilários e tocantes. Ele literalmente carrega o protagonista — e em certos momentos, o próprio filme — nas costas. Como eu disse, a cena inicial é definitiva para o que viria a seguir.

Um aceno à Liga da Justiça (Imagem: Divulgação)

A leitura dos Kent também é essencial. Martha e Jonathan ajudam a moldar Clark muito além de sua origem alienígena. A cena em que voltamos à casa de infância, com luz solar entrando pela janela e o quarto ainda intacto, é de uma ternura desarmante. Parece coisa de Hallmark Channel — e eu digo isso com carinho. Entendemos que Clark é o que é por conta do lar que teve.

E é aí que Gunn acena criticamente à política migratória de Trump. Clark é um imigrante, mas criado de forma que representa o melhor dos valores americanos — não aquele nacionalismo bélico, mas o espírito solidário e humanista. O discurso final do herói reforça essa identificação cultural, mesmo ao reconhecer seus erros. Me lembrou uma cena do episódio final de 9-1-1: Lone Star, quando um personagem mexicano defende sua cidadania americana em um tribunal de imigração.

É inevitável não traçar paralelos entre essa trama e o genocídio promovido por Israel na Palestina. A invasão de Jarhanpur pela Borávia remete a um território do Oriente Médio sendo ocupado por uma potência bélica. Ainda mais com uma população vulnerável que reage com pedras e enxadas. James Gunn declarou que escreveu o roteiro antes da escalada mais recente da guerra, mas essa tensão não é nova. E, sinceramente, não acredito que um autor tão atento estivesse alheio aos desdobramentos históricos da questão.

Lex Luthor, como um gênio corporativista, é quase um Elon Musk com roteiro. Tem acesso ao alto escalão do governo, manipula a opinião pública com fake news, escraviza macacos (!), e ainda se acha um self-made man. Nicholas Hoult entrega uma performance que oscila com maestria entre o calculismo e o narcisismo explosivo. O antagonismo dele com Superman é uma disputa filosófica: o mérito individual contra a responsabilidade coletiva. Locke contra Durkheim. Liberalismo contra solidariedade.

Luthor: entre o calculismo e o narcisismo (Imagem: Divulgação)

Para além de política e filosofia, Superman é também um banquete de referências para os fãs: Krypto. Guy Gardner. Mulher-Gavião. Sr. Incrível. Metamorfo com relação à kryptonita. O Salão da Justiça. O retorno da cueca vermelha por cima da calça — acharam que eu ia esquecer? E a recriação de uma capa clássica da Liga da Justiça da América, com Starro do lado de fora da janela. Jimmy Olsen não é escanteado. Gunn é fã — e sabe agradar os seus iguais.

O maior acerto do Superman de James Gunn é nos fazer sair do cinema com a sensação de abraço. É um filme solar. Que remete à infância. Que lembra a animação da Liga da Justiça. Conseguimos nos conectar com esse Superman por sua empatia. Sua humanidade. Ainda que a trama o posicione como alienígena, é seu lado humano que se sobressai. Ele é muito mais Homem do que Super. E talvez por isso, pela primeira vez, eu tenha realmente gostado dele.

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