O Último Azul, de Gabriel Mascaro, é mais uma prova da efervescência e do reconhecimento que o cinema brasileiro vem conquistando internacionalmente. Após a vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, o longa recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim, distinção concedida a obras de impacto artístico, inovação estética ou relevância social. Esse reconhecimento não se dá apenas pela forma, mas também pelos temas que Mascaro aborda com precisão.
Enquanto o filme de Salles se volta ao passado, O Último Azul projeta um futuro distópico para erguer sua crítica social. Expõe o etarismo e questiona a forma como o capitalismo trata o envelhecimento, lembrando produções como o documentário Quantos Dias. Quantas Noites, de Cacau Rhoden, que evidencia as consequências da desigualdade na vida dos longevos. Pessoalmente, refleti sobre essas questões ao lembrar da perda recente de minha avó materna para o Alzheimer e do cuidado compartilhado com minha avó paterna, de 88 anos, que enfrenta múltiplas comorbidades e perda de autonomia.
No centro de O Último Azul está Tereza (Denise Weinberg), que aos 77 anos se vê desligada do emprego e notificada a se transferir para uma colônia de idosos, sob supervisão temporária da filha Joana (Clarissa Pinheiro), que representa a tensão entre autonomia familiar e controle social. Diferente das minhas avós, Tereza é física e intelectualmente ativa e decide realizar seu sonho de andar de avião — frustrado por uma burocracia que limita direitos civis básicos. Mascaro já nos primeiros minutos nos ambienta em um cenário de hostilidade: enquanto ativa, Tereza trabalha em um matadouro de jacarés, cujo ambiente industrial escuro e metálico contrasta com o verde exuberante da Amazônia. A fauna não é devorada para saciar a fome, mas pelo capital, e pequenas violências se revelam nos contrastes entre o árduo trabalho dos industriais e suas residências humildes. A intervenção na fachada da casa e a medalha de honra ao mérito marcam os indivíduos que se tornam “inimigos da produtividade”.
Essa distopia se aprofunda na atuação da Polícia Cidadã, que persegue os longevos como fiscais de mercado em busca de produtos vencidos. O símbolo máximo dessa violência é o “Cata-Velho”, veículo que funciona menos como caminhonete e mais como uma gaiola para os idosos. A sociedade, embora não controle diretamente, acaba se tornando cúmplice dessa política estatal — e, inevitavelmente, também pode se tornar vítima dela. Ainda assim, Mascaro revela a liberdade de Tereza, dançando ao som caótico da indústria e encontrando felicidade na diversidade, provando que o sonhar não pode ser encarcerado pelo sistema.

A busca pelo sonho ceifado leva Tereza à fuga inevitável. O desejo de voar se torna também uma ânsia por liberdade, reforçada pela imagem dos pássaros cortando o céu em meio à natureza. Essa trajetória se realiza por afluentes do rio Amazonas e se revela uma poderosa metáfora da vida. Filmado de cima, o rio parece congelar o tempo, permitindo à narrativa adentrar o realismo mágico como forma de escapismo diante do cenário hostil da distopia. Se a realidade industrial confina e a recompensa é outro cerceamento — agora esteticamente higienizado, mas ainda um campo de concentração —, o retorno à natureza, ainda que primitiva e ardilosa, oferece um respiro e a esperança de dias melhores.
Outro aspecto fascinante de O Último Azul são os personagens que auxiliam Tereza em sua fuga: Cadu (Rodrigo Santoro), motorista de barco, e Ludemir (Adanilo), mecânico de ultraleve. Eles funcionam como duplos, homens reféns do sistema capitalista e em fuga de suas próprias realidades — seja pelo trabalho, vícios ou substâncias entorpecentes. Curiosamente, cada um também é salvo por Tereza, ainda que de formas distintas, reforçando o entrelaçamento entre liberdade e cuidado.
O realismo mágico permeia toda a narrativa, emergindo tanto do cenário quanto da natureza. O molusco azul, responsável pela “revelação”, assim como o peixe da vitória escolhem a protagonista, funcionando como elementos mágicos da sorte. Essa mágica, na narrativa, rivaliza com o trabalho, que se vende como força motriz da mudança. Nesse contexto, é a natureza que salva, reacendendo de forma sutil uma discussão ambientalista. Mascaro recorre também ao popular — como o jogo do bicho, explorado de maneira quase explícita por Ludemir — e a simbologias menores, como a batalha de peixes betas, onde o peixe branco se sobressai, remetendo aos cabelos brancos dos idosos.
O realismo mágico também se manifesta na fotografia e nos cenários: quando Tereza se refugia em um parque de diversões abandonado, o espaço onírico funciona como um refúgio do capitalismo, ainda que decadente. O último refúgio, porém, é o amor e a sororidade: Tereza encontra saída junto a Roberta (Miriam Socarrás – a nacionalidade cubana da atriz traz mais um elemento crítico ao subtexto), uma mulher negra, pseudo-freira que vende bíblias digitais – a fé, se é um veículo de escape ou aprisionamento, eu deixo para vocês decidirem. A relação afetiva das duas se mostra mais velada, como uma amizade solidária, reforçando o caráter contido do filme no que diz respeito ao amor, delegando ao público a responsabilidade de interpretar o discurso.


Em síntese, O Último Azul reafirma a força do cinema brasileiro contemporâneo em criar distopias que exploram criticamente o capitalismo, o etarismo e a burocracia estatal. Mascaro opta por uma sutileza estratégica: poderia ser mais combativo, mas escolhe deixar a interpretação e a responsabilização para o público com uma abordagem poética. O filme também acaba parecendo redundante no desenvolvimento da personagem. Principalmente diante de seus pares masculinos.
No mais, mesmo diante do reconhecimento internacional — o Urso de Prata em Berlim —, o distanciamento em relação à realidade brasileira e o deslumbramento com cenários esteticamente impactantes podem criar uma sensação de afastamento, inclusive para espectadores não familiarizados com o contexto amazônico. Ainda assim, o longa reafirma que o cinema nacional tem múltiplas maneiras de denunciar desigualdades e injustiças, combinando poesia, realismo mágico e crítica social, mesmo quando opta pela contenção e pela sutileza na exposição de seu discurso.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


