por Natália Bocanera
A Academia Campinense de Letras, instituição defensora do patrimônio cultural especialmente no interior de São Paulo, fundada em 1956, transformou-se em tribunal, espaço de julgamento da mãe Andrea, que interrompeu o tratamento para câncer terminal de sua filha, Júlia, para permitir que a jovem de 15 anos pudesse viver com plenitude o seu remanescente tempo de vida. A razão da transformação do espaço: o cinema.
Sob a direção e olhar artístico de Walther Neto, a histórica arquitetura tornou-se palco para a gravação do longa-metragem “Deixe-me Viver”, que conta, justamente, a história fictícia de Andrea (Mônica Carvalho) e Júlia (Cat Dantas), mãe e filha que atravessam a tragédia da doença e a iminência da morte precoce através do ponto de vista da exaltação da vida e da recuperação do tempo perdido. O Cinema com Crítica, por sua representante Natália Bocanera, participou do primeiro dia de gravação do filme, e teve acesso ao set e toda equipe de filmagens para conhecer um pouco dessa jornada que convida, nas palavras de Mônica Carvalho, que também é roteirista e coprodutora, a rir, chorar, refletir e emocionar.
Carvalho revelou ao Cinema com Crítica que “Deixe-me Viver” é uma ficção, mas traz uma história universal e que faz parte da realidade de tantas famílias ao redor do mundo. Em sua preparação para o projeto, ela conta que conversou com muitas mães que vivenciaram experiências semelhantes: “A pergunta era sempre a mesma: qual é esse olhar que você tem para sua filha quando você sabe que está chegando, que vai embora? Porque não é normal, não é a lei da vida. E o que uma das mães falou pra mim é que a dor, a tristeza e o pensamento é vinte e quatro horas por dia, não sai da sua cabeça. Até quando você está feliz, você está triste. Então é como se fossem duas pessoas vivendo aquele momento. Andrea foi um grande desafio para mim.”
Mônica Carvalho produz o filme juntamente com sua sócia, Jennifer Setti, segunda parceria da dupla no audiovisual. Jennifer, assim como Mônica, integra o elenco de “Deixe-me Viver”, interpretando Carla, a “segunda mãe” da jovem Júlia. Durante nosso bate-papo, ela contou que a visão inicial a respeito do projeto hoje está três vezes maior: “Eu sou uma mulher que faço muitas coisas ao mesmo tempo e eu me coloquei nesse lugar da personagem dela (Carvalho), de estar sempre se cobrando. Você não consegue ser um polvo e abraçar todas as demandas, de ser mãe, ser mulher, ser uma boa profissional, dar atenção pro papai e pra mamãe. A gente se pergunta: será que vai conseguir dar conta de tudo isso e ser feliz ao mesmo tempo?”
Muito embora trate-se de uma história dramática e invariavelmente trágica, há da produção uma preocupação com a introdução de doses de humor: “Eu vou colocar vários cacos de comédia no filme, porque apesar de ser um drama tem um momento de descontração. Tanto que o filme fala sobre essa doença, mas em nenhum momento a gente toca nessa tecla da doença, a gente toca no que que a gente pode ver de aprendizagem.”, acrescenta Setti.
“Deixe-me Viver” começou a ser rodado em Campinas, mas ainda terá locações em Presidente Prudente, também interior de São Paulo, e Trancoso, ponto turístico popular da Bahia. O diretor Walther Neto explica a diversidade de locais: “Vamos para Presidente Prudente, onde a gente vai fazer a parte do hospital, utilizando a Unoeste, que tem um hospital escola. Poder entrar num hospital e parar um hospital é muito difícil, então eles nos cederam a parte escolar. Depois nós vamos para Trancoso, que é onde o filme basicamente tem uma grande parte do desenvolvimento.”
O longa-metragem contará com nomes importantes e populares do audiovisual brasileiro: Mônica Carvalho, Humberto Martins, Daniela Albuquerque, Luciana Vendramini, Oscar Magrini, Fernanda Arraes, são alguns dos representantes da equipe de interpretação. O ator Humberto Martins contou ao Cinema com Crítica sobre o desafio do ator ao trabalhar em projetos de temáticas densas, como a suscitada em “Deixe-me Viver”: “Vou te falar que na verdade quando eu leio uma coisa assim me instiga menos (risos). Eu falo, poxa, isso será muito forte, muito difícil, é muito duro. Mas essa é a nossa profissão, nós temos que ser o outro. Ator: essa palavra significa o outro em grego, e nós temos que ser o outro. Mas é também gratificante estar junto com os colegas.”
“Deixe-me Viver” tem previsão para estrear nos cinemas brasileiros em 2026.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


