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Blaise

Classificado como 3.5 de 5

Blaise

2026

82 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Dimitri Planchon, Jean-Paul Guigue

Das tirinhas ao cinema, a animação estranhamente atraente de Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue

Crítica em português

Há um elemento hereditário e geracional bastante interessante na animação Blaise. Dimitri Planchon e Jean-Paul Guigue não só sugerem que as disfunções comportamentais do adolescente de 16 anos e personagem-título são ecos involuntários dos pais, Carole e Jacques. A dupla de diretores também compreende a transmissão de inadequações como um legado social. E o que poderia ser só uma crítica ácida irreverente e descolada, dada a sua forma de animação inusual, aqui ganha o contorno de uma ironia cuja sofisticação está em apontar o que deveria ser óbvio. Se Blaise é incapaz de se integrar ao mundo, é porque o mundo adulto está desajustado, a começar por sua mãe e seu pai.

Essa percepção se materializa desde o início, quando o pai, uma figura que deveria encarnar algum grau de referencialidade, retorna ao aconselhamento psicológico do colégio em busca de uma orientação. É que Jacques ainda não se desvencilhou da figura materna, ainda buscando-a literal ou metaforicamente na esposa. Já Carole reforça este descompasso dentro do ambiente corporativo que (mal) chefia. Um em que, em vez de atenderem o insistente telefonema, os seus novos funcionários dançam e celebram a sua chegada. O que deveria ser cotidiano se torna uma espécie de teatro do absurdo, apropriado satisfatoriamente por esta animação, oriunda das tirinhas e, depois, de uma série de curtas-metragens.

Este absurdismo é melhor encarnado por Josephine, a filha do empresário e chefe de Carole, que se apropria do discurso revolucionário e anti-burguesia (e do apartamento da secretária doméstica do pai) para se aproximar de Blaise. Este é um microcosmo bastante simbólico do divórcio entre discurso e prática. Um pôster de Z, de Costa-Gavras, filme eminentemente político, encontra-se com um livro de Engels, além de um cartaz que ironiza a inadequação afetiva e sexual dos personagens. Enquanto Josephine desempenha a tentativa de pertencer ao imaginário coletivo e ao espírito do tempo (zeitgeist), revela-se apenas superficial em seu fim. Blaise satiriza o ideal revolucionário – não muito distante do que Paul Thomas Anderson realizou recentemente em Uma Batalha Após a Outra, mas com uma finalidade diferente.

É que o longa tem, na incomunicabilidade, o norte da narrativa. Seja no estacionamento, em que Carole mal consegue envelopar as suas intenções em suas palavras, seja na boate, em que o ruído conduz a uma incomunicabilidade absoluta ou pior a uma incompreensão que se torna o que o outro projeta no que é comunicado. As falhas de linguagem são o sintoma do mal-estar individual, afetivo, familiar e até político e revolucionário, e é particularmente engenhosa a utilização do espaço do escritório, em que mal sabemos quais divisórias são ou não à prova de som.

Essa lógica do mal-entendido encontra seu reflexo na estrutura cômica da narrativa, que se alimenta de situações em que a intenção ou ação jamais coincide com o efeito. O protesto que degenera em caos após o gesto impulsivo de uma personagem que atira uma cerveja para se afirmar é exemplar nesse sentido. Aliás, a granada que é empurrada de personagem para personagem é um objeto que reforça o bom-humor irônico da narrativa.

O humor de Blaise – de certo modo, apático, ou blasé – opera não apenas na superfície dos diálogos, mas na construção de um ritmo que privilegia o desconforto, o silêncio e o tempo morto como os elementos estruturantes da comicidade. O embaraço se prolonga, como na cena ambientada no restaurante, até o ponto de ruptura em que se torna cômico. A sequência inteira dentro do hospital, em que Jacques, um sujeito que evoca uma versão animada de Marc Maron, se perde enquanto lida com uma reação alérgica a um detergente de maçã, ilustra bem esse mecanismo. O humor nasce da insistência do filme em prolongar a humilhação até o limite do insuportável.

Ao mesmo tempo, o filme demonstra uma consciência formal ao preservar a estrutura minimalista de sua origem em tiras de quadrinhos. A decupagem minimalista privilegia planos estáticos e economiza diálogos, dialogando com o excesso de temáticas que os personagens, seus conflitos e dilemas tateiam. Do comportamento no ambiente corporativo às relações familiares de conveniência, e das mentiras que contamos para os outros e para nós mesmos ào amadurecimento de um adolescente, Blaise está no limiar entre o grotesco e o realista.

Uma animação cativante, apesar da sensação de estranhamento ou até mesmo por causa dela, em uma comédia irônica que escancara a artificialidade das interações sociais. É disto o que mais gostei no fim: como o que percebemos esteticamente é o que nos é apresentado pelo mundo, mas teimamos em ignorar. Quando Blaise cuida dos ferimentos de Josephine, a quantidade excessiva e as consequências do gesto esvaziam o seu caráter clichê, deixando só a sensação estranha de originaliudade. E até chego a flertar com o diálogo psicanalítico pelo fato de o ferimento em Josephine ser no mesmo local em que é manchado o vestido de Carole, mas deixo a dimensão simbólica do momento para o espectador criar o seu significado.

No fim das contas, Blaise se afirma como uma comédia de humor ácido que, sob a aparência do grotesco animado, articula uma crítica à incapacidade contemporânea de estabelecer relações honestas. Ao ironizar tanto os gestos individuais quanto os discursos coletivos, aqui aqueles que se pretendem revolucionários, o filme sugere que a crise não está restrita às estruturas sociais, mas à linguagem que usamos para nos conectar.

Blaise está selecionado para a Mostra ACID do Festival de Cannes 2026.

English review

There is a rather interesting hereditary and generational element in the animated film Blaise. Dimitri Planchon and Jean-Paul Guigue not only suggest that the behavioral dysfunctions of the 16-year-old protagonist are involuntary echoes of his parents, Carole and Jacques; the directing duo also frames the transmission of inadequacies as a kind of social legacy. What could have been merely a sharp, irreverent critique, given its unusual animation style, here takes on the contours of an irony whose sophistication lies in pointing out what should already be obvious. If Blaise is incapable of integrating into the world, it is because the adult world itself is fundamentally misaligned, beginning with his own mother and father.

This perception materializes from the outset, when the father—who should embody some degree of guidance—returns to the school’s psychological counseling in search of direction. Jacques, after all, has not fully detached himself from the maternal figure, still seeking it, literally or metaphorically, in his wife. Carole, in turn, reinforces this same sense of dissonance within the corporate environment she (barely) manages—one in which, instead of answering an insistent phone call, her new employees dance and celebrate her arrival. What should be routine becomes a kind of theater of the absurd, a register that the film embraces effectively, drawing from its origins in comic strips and later short films.

This absurdism is best embodied by Josephine, the daughter of Carole’s boss, who appropriates revolutionary and anti-bourgeois discourse (as well as her father’s domestic employee’s apartment) to get closer to Blaise. This becomes a symbolic microcosm of the divorce between discourse and practice. A poster of Z, by Costa-Gavras—a profoundly political film—shares space with a book by Engels, as well as a poster that ironizes the characters’ emotional and sexual inadequacy. While Josephine performs a desire to belong to a collective imaginary and to the spirit of the time (zeitgeist), her gestures ultimately reveal themselves as superficial. Blaise satirizes the revolutionary ideal—not entirely unlike what Paul Thomas Anderson recently explored in One Battle After Another, though toward a different end.

At its core, however, the film is guided by incomunicability. Whether in the parking lot, where Carole struggles to articulate her intentions, or in the nightclub, where noise leads to absolute breakdown—or worse, to a distortion in which meaning becomes whatever the listener projects—the failure of language emerges as a symptom of broader personal, emotional, familial, and even political malaise. Particularly ingenious is the use of office space, where it is unclear which partitions are soundproof and which are not, reinforcing the instability of communication.

This logic of misunderstanding is mirrored in the film’s comedic structure, which feeds on situations in which intention or action never aligns with outcome. The protest that spirals into chaos after a character impulsively throws a beer to assert herself exemplifies this dynamic. Likewise, the grenade passed from one character to another becomes an object that reinforces the film’s ironic sense of humor.

The humor of Blaise—somewhat apathetic, or blasé—operates not only through dialogue, but through a rhythm that privileges discomfort, silence, and dead time as the structural elements of its comedy. Embarrassment is prolonged, as in the restaurant scene, until it reaches a breaking point where it becomes comic. The entire hospital sequence, in which Jacques—resembling an animated version of Marc Maron—wanders while dealing with an allergic reaction to an apple-scented detergent, perfectly illustrates this mechanism. The humor arises from the film’s insistence on extending humiliation to the edge of the unbearable.

At the same time, the film demonstrates formal awareness by preserving the minimalist structure of its origins in comic strips. Its restrained découpage favors static shots and economical dialogue, standing in contrast to the thematic excess that the characters’ conflicts and dilemmas tentatively explore. From corporate behavior to performative family relationships, and from the lies we tell others and ourselves to the coming-of-age of an adolescent, Blaise exists on the threshold between the grotesque and the realistic.

It is an engaging animation—perhaps because of, rather than despite, its sense of estrangement—a comedy that exposes the artificiality of social interactions. This, ultimately, is what resonates most: how what we perceive aesthetically is precisely what the world presents to us, yet we stubbornly choose to ignore it. When Blaise tends to Josephine’s wounds, the exaggerated number and consequences of these injuries strip the scene of its cliché, leaving only a strange sense of originality. One might even flirt with a psychoanalytic reading, given that Josephine’s wound appears in the same place where Carole’s dress is stained with wine—but the symbolic dimension is best left for the spectator to interpret.

In the end, Blaise establishes itself as an acidly comic work that, beneath the surface of its animated grotesque, articulates a critique of the contemporary inability to form honest relationships. By ironizing both individual gestures and collective discourses—particularly those that claim a revolutionary stance—the film suggests that the crisis is not confined to social structures, but extends to the very language we use to connect with one another.

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