Descobri Downton Abbey em plena pandemia, por indicação de uma amiga. Em meio às incertezas e ao isolamento, mergulhar no universo aristocrático e ao mesmo tempo doméstico da família Crawley e de seus empregados trouxe conforto e fascínio. A série, ao longo de suas seis temporadas, construiu uma narrativa que nunca se limitou a pintar patrões como heróis ou vilões: ela equilibrava os dramas da nobreza com as lutas silenciosas dos criados, mostrando como a vida de todos estava interligada. Curiosamente, ao acompanhar cada dilema e cada transformação, acabei desenvolvendo um afeto pelos patrões, não porque fossem idealizados, mas porque eram mostrados em sua complexidade, como figuras atravessadas pelas tensões de uma época. Essa habilidade de evitar o maniqueísmo talvez explique o sucesso da série e o carinho que tantos espectadores guardaram por ela.
Agora, com Downton Abbey – O Grande Final, chegamos à terceira incursão da história no cinema. O filme se passa no início da década de 1930 e encontra a família em meio a novos desafios: os reflexos da crise de 1929 nos Estados Unidos, que afetam diretamente sua fortuna, e o recente divórcio de Lady Mary, que a coloca no centro de um julgamento social implacável. O roteiro não perde tempo em situar o espectador, trazendo de volta o clima que fez da série um fenômeno televisivo. Contudo, ao mesmo tempo em que retoma velhos temas, busca também abrir espaço para novas tensões.
Entre os novos personagens, vale destacar o Tio Harold (Paul Giamatti), que perdeu parte da fortuna da irmã com o colapso de Wall Street. Sua presença funciona como lembrete de que o esplendor aristocrático dependia, em grande medida, da estabilidade financeira internacional. Outro acréscimo é Gus Sambrock (Alessandro Nivola), que a princípio surge como interesse romântico de Lady Mary, mas logo se revela o vilão do longa. Esses novos rostos, entretanto, convivem com aparições mais discretas de personagens já queridos pelo público, como Carson, os Bates e a senhora Phyllis. Se suas participações são modestas, há também espaço para alguns destaques: o cômico Moseley, agora roteirista, que rouba a cena em momentos de humor, e Daisy Parker, promovida a cozinheira principal com a aposentadoria da icônica senhora Patmore. Esses pequenos arcos reforçam como Downton Abbey sempre soube usar seus coadjuvantes para ilustrar mudanças sociais silenciosas.

A passagem do tempo, aliás, segue como motor narrativo central. Não apenas no sentido das transformações de cargos entre os empregados, mas na forma como os costumes da época se alteram diante dos olhos da plateia. Thomas Barrow, antigo mordomo, agora circula nas dependências como convidado, graças ao seu envolvimento com o ator Guy Dexter (Dominic West). Ainda que sugerido com sutileza, seu relacionamento representa uma vitória simbólica: a aceitação de sua sexualidade, que antes precisava ser ocultada. Esse arco se insere na tradição da série de discutir mudanças culturais e sociais de maneira delicada, mas significativa.
No entanto, o coração da trama está em Lady Mary, interpretada com firmeza por Michelle Dockery. Sempre apresentada como símbolo da modernidade e da independência feminina, Mary se vê pela primeira vez em posição vulnerável. O divórcio a transforma em alvo do julgamento da sociedade e, além disso, a personagem precisa lidar com a chantagem de um vigarista, que ameaça expor segredos e manchar ainda mais sua imagem. O longa, assim, se organiza em torno dessa questão: como manter a dignidade e a influência quando o que sustenta a respeitabilidade feminina – o casamento – deixa de existir? Lady Mary, que tantas vezes foi agente de mudanças em Downton Abbey, enfrenta agora uma transformação que a atinge de forma mais direta e dolorosa.

Se há um fio condutor que atravessa toda a franquia, é a vulnerabilidade do status quo da aristocracia. O esplendor de Highclere Castle (a casa que dá vida a Downton Abbey) permanece deslumbrante, mas as rachaduras são cada vez mais evidentes. Ao longo da série e dos filmes, os Crawley se viram desafiados por guerras, pandemias, mudanças políticas e transformações sociais. Neste filme, o perigo não vem de uma tragédia coletiva de grandes proporções, mas das pequenas fissuras cotidianas: o desgaste das finanças, a desvalorização do sobrenome, o poder reduzido diante da modernidade. O problema é que, em vez de encarar essa decadência de frente, O Grande Final prefere maquiar a realidade com soluções convenientes e um verniz estético artificial.
A fotografia, marcada por uma luz estourada, e o uso excessivo de CGI comprometem a naturalidade que sempre distinguiu a série. Os conflitos parecem se resolver rápido demais, como se um jantar elegante ou um sarau ao piano bastassem para dissipar tensões que deveriam ser profundas. Essa escolha deixa a impressão de que o filme não quer confrontar o esgotamento daquele estilo de vida, mas sim prolongá-lo indefinidamente, embalado em nostalgia.
Ainda assim, é impossível negar que Downton Abbey – O Grande Final cumpre sua função como reencontro. Para os fãs, rever personagens queridos, mesmo que em aparições breves, é uma experiência afetuosa. O filme funciona como despedida, mesmo que não tão ousada ou contundente quanto poderia ser. O maior acerto está, sem dúvida, na homenagem prestada a Maggie Smith, falecida recentemente. Sua personagem, a Dama Violet Crawley, foi ao longo da série o retrato da sagacidade e da tradição, e aqui recebe um tributo respeitoso, que também serve como lembrete da presença insubstituível da atriz.
No fim, Downton Abbey – O Grande Final é um epílogo que prefere o conforto da familiaridade à coragem da inovação. Pode frustrar quem espera um retrato mais fiel da decadência aristocrática, mas certamente aquece o coração de quem acompanhou essa família por tantos anos. Entre simplificações e homenagens, permanece a sensação de que a série foi, acima de tudo, um retrato afetuoso de um mundo em transformação – um mundo que, com este filme, finalmente se despede.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.

