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Toque Familiar

Classificado como 3 de 5

Familiar Touch

2024

90 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Sarah Friedland

Por Natália Bocanera

A memória humana se cria e se compõe da absorção das experiências e informações externas através dos sentidos. O que é apreendido pelas regiões sensoriais é processado, interpretado e registrado em nosso cérebro como memória. Quanto maior o impacto sensorial, mais facilmente a experiência se tornará memória, perene por frações de segundo ou por toda uma vida. Quando estimulada por emoções ou por práticas repetitivas, possuem maiores chances de tornarem-se duradouras. 

O tato, qual seja, o sentido proporcionado pelas terminações nervosas contidas na pele, forma memória por meio da percepção de texturas, temperaturas, pressão, sensações diretamente relacionadas ao contato físico. Quando o envelhecimento implica a destruição da memória, está implicando, invariavelmente, a perda do acúmulo de experiências de vida que nos tornam quem somos. A sensação do toque, entretanto, em que pese a perda do “eu”, é como um lapso momentâneo de sanidade, é o afeto e a emoção sentidos na pele. O tato mostra-se, portanto, um sentido quase permanente, aquele que insiste em não se perder e que persiste formando memórias – o corpo humano não se esquece do afeto por ele proporcionado.

Toque Familiar, primeiro longa-metragem da estadunidense Sarah Friedland, estreante no Festival de Veneza, onde recebeu o prêmio Leão do Futuro, vai registrar o processo de aceitação da demência e as mudanças de vida causadas pela perda da memória da protagonista Ruth (Kathleen Chalfant), coreografando, com sua câmera, o sentido do tato e suas sensações como aquele que ainda é passível de reluzir vida em meio a tantas perdas.

Se a mais proeminente característica da demência é a perda da memória recente, o quão desafiador deve ser o processo de mudança espacial de pacientes que, como Ruth, precisam deixar seus lares para alocarem-se em hospitais e casas de repouso. O quão árduo parece ser criar conexões com pessoas que não fizeram parte do círculo familiar e seguro de convivência. Kathleen Chalfant faz transparecer o enorme esforço de sua protagonista para manter-se altiva e elegante, ocultando sua confusão interior com uma capacidade extraordinária. Sua demência é invisível ao sentido da visão imediata, e a atriz é cirúrgica em sua firmeza e polidez mesmo nos momentos onde a lucidez claramente se faz ausente.

Sarah Friedland trabalha cuidadosamente os movimentos de sua personagem e o posicionamento dos objetos de seu entorno, dando-nos dicas do estado senil de Ruth com sensibilidade e uma doçura acolhedoras bem proporcionadas pelo trabalho de iluminação e fotografia. Toque Familiar inicia-se silencioso, pacífico e paciente, colocando-nos como observadores da mulher idosa que, visivelmente feliz e em expectativa, passa por todas as roupas de seu armário até fazer sua escolha: um vestido azul escuro longo minimalista e sofisticado. Ela parece estar finalizando um prato para duas pessoas, dando retoques finais caprichosos no empratamento. Muito à vontade em sua cozinha iluminada, arejada, o verde da natureza perceptível tanto em vasinhos com temperos naturais e plantas quanto no belo jardim visível de sua janela, ela coloca uma torrada pronta no escorredor de louça. Notamos, portanto, nessa sequência inicial serena e precisa, a uma, que Ruth está à espera de alguém, e a duas, que algo está manifestamente fora do lugar, o que soa até um contrassenso naquele contexto de paz.

Aquele que ela espera é um homem, que quando chega, demonstra claro desconforto. Por sua expressão flertante, para ela, claramente trata-se de um primeiro encontro com alguém que ela está conhecendo melhor. Os sinais expressivos dele demonstram, por outro lado, a desolação e o cansaço de quem parece estar cumprindo um protocolo comportamental já repetido noutras oportunidades. Nesse teatro encenado, o filho de Ruth, Steve (H. Jon Benjamin), a conduz ao carro para levá-la até a casa de repouso que ela mesma escolheu para permanecer pelo resto de sua vida, quando não mais fosse capaz de gerir a si própria.

A ideia do toque permeia o longa por meio de um detalhamento meticuloso da diretora e dá calor a uma trama que já carrega um peso dramático natural. O reforço desse aconchego melancólico proporcionado pelo sentido é pontuado em momentos cuja atmosfera torna-se um tanto reflexiva. O sol toca a pele da protagonista, que com seus dedos, prepara o prato de forma minuciosa. A textura das camisas elegantes que Ruth escolhe para passar cada dia na (luxuosa) casa de repouso parece leve sobre seu corpo e permite que a altivez da personagem se sustente mesmo na doença. O ato do médico Brian (Andy McQueen), que suavemente segura o pulso de sua paciente para medição de seus batimentos cardíacos, é meditativo, um contato que ela absorve com profundidade. A troca de Ruth com sua cuidadora Vanessa (Carolyn Michelle) é maternal ao ponto da inversão de papéis, a idosa fazendo questão de cuidar da enfermeira através do afeto pela comida.

Se o contexto de mudança proporciona não só uma inevitável piora do quadro de demência, em razão da inabilidade cerebral em recordar e armazenar novas memórias, representar o avanço da doença é caminho orgânico do longa. Entretanto, muito embora seja sutil e equilibrada a introdução desses sinais pela diretora, numa ênfase de sua gentileza na condução do tema, há uma repentina e brusca mudança de comportamento da protagonista que altera a calmaria de Toque Familiar, ecoando mais como uma justificativa para entrar no ato final do longa do que como algo inerente, necessariamente, da condição da idosa. A amabilidade perde-se, não pela dureza e impiedade da doença que aflora e vai se tornando irreversível, mas pelo atropelo de acontecimentos mais dramáticos que a diretora parece agregar apenas em prol da representação do agravamento gradativo de sua protagonista.

Cada plano é uma memória criada e que rapidamente dissipa. Cada toque é uma eternidade momentânea que Ruth anseia por extrair o máximo. Tal qual quando traz um longo plano de flutuação na piscina, as águas acariciando a pele adoecida com carinho suficiente para o reavivamento de memórias infantis, a câmera de Sarah Friedland é uma poesia esmerada, que imprime um olhar afetivo não só a respeito do envelhecimento, mas sobre a (im)permanência da identidade humana e sua existência. 

Toque Familiar recebeu o prêmio do júri de Melhor Filme na 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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1 comentário em “Toque Familiar”

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