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Sonhar com Leões

Classificado como 3.5 de 5

Sonhar com Leões

2025

87 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Paolo Marinou-Blanco

Não sei se encaro com leveza e uma boa risada o fato de escolher para assistir no dia do meu aniversário um filme que trata sobre eutanásia. Nascimento e morte podem ser convidados da mesma festa? Pelo menos, o filme protagonizado por Denise Fraga é uma tragicomédia, e talvez possa até servir positivamente a alguém como eu, que sempre sentiu um certo desconforto com o dia do próprio aniversário – motivo pelo qual me refugiei no meu templo sagrado: a sala de cinema.

A trama se passa em Portugal, país que combina um governo progressista com uma tradição profundamente católica. Nesse cenário, surge uma empresa especializada em facilitar o suicídio de seus clientes, atividade que já nasce cercada de contradições. É justamente essa tensão – entre a religiosidade enraizada e a institucionalização de uma prática proibida – que dá ao filme uma camada distópica, mas também irônica, posicionando-o em um espaço onde realidade e absurdo se confundem.

O humor é um recurso central aqui. Ao abordar o suicídio – tema tabu, pecado religioso e crime no Brasil –, o filme demonstra coragem. Mais ainda: consegue evitar as duas grandes armadilhas narrativas do assunto, nem romantiza o gesto nem o reduz a um melodrama exaustivo. A tragicomédia se revela então como um caminho possível para falar da morte sem afastar o espectador, mas também sem anestesiá-lo.

Grande parte desse equilíbrio vem da atuação de Denise Fraga. A atriz transita com maestria entre o cômico e o trágico, e sua presença como narradora reforça essa habilidade em conduzir o público por um território delicado. A dinâmica entre Gilda e Amadeu (João Nunes Monteiro) sustenta essa construção: ela, uma mulher decidida e firme em sua escolha; ele, um jovem introspectivo, cheio de hesitações, mas com uma estranheza encantadora. A relação dos dois traz organicidade e humanidade ao enredo, permitindo que o espectador veja a questão sob diferentes prismas.

Gilda e Amadeu (Imagem: Divulgação)

O filme, contudo, não se limita ao debate sobre liberdade individual diante da própria morte. Ele também lança luz sobre a capitalização em torno do fim da vida: seja no serviço respeitoso de uma funerária, seja no negócio duvidoso da empresa que facilita o suicídio. Em ambos os casos, a vida – ou a morte – se torna uma commodity, muitas vezes tão integrada às lógicas de mercado quanto os planos de saúde. Ao mesmo tempo, o roteiro evoca, de maneira sutil, a urgência dos cuidados paliativos e do direito a uma morte digna, ampliando o escopo da discussão para além do gesto extremo de interromper a existência.

Outro mérito está em não descartar os “sobreviventes”: familiares, amigos e cuidadores que acompanham aqueles próximos do fim. O filme reconhece suas angústias, evitando a simplificação de concentrar toda a narrativa apenas no indivíduo terminal. Nesse aspecto, a participação de Roberto Bomtempo acrescenta densidade e força emocional ao longa.

Gilda nos encara reinvindicando nossa empatia (Imagem: Divulgação)

Do ponto de vista formal, a quebra da quarta parede surge como recurso estilístico para aproximar o público da protagonista. Esse diálogo direto com a câmera, lembrando a série Fleabag, reforça a ironia e a humanidade de Gilda, mas sem se tornar mera imitação. Aqui, o recurso serve para reivindicar um olhar pleno sobre a terminalidade, mostrando dores, escolhas e contradições que muitas vezes o cinema prefere esconder atrás de camas hospitalares ou olhares lacrimosos.

No fim das contas, Sonhar com Leões é um filme que se ergue pela coragem. Em uma cultura ocidental que insiste em negar a morte como parte constitutiva da vida, falar de eutanásia e suicídio é sempre arriscado. Ao optar pelo humor e pela leveza possíveis, a obra provoca incômodo, mas também oferece reflexão. E talvez seja justamente nesse desconforto – entre rir e silenciar, entre viver e morrer – que esteja sua maior força.

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