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Assalto à Brasileira

Classificado como 3 de 5

Assalto à Brasileira

2025

98 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: José Eduardo Belmonte

O subgênero dos filmes de assalto – os heist movies – sempre teve apelo comercial, especialmente em Hollywood. Foi muito explorado na Nova Hollywood, de onde vem um dos meus favoritos, Um Dia de Cão, com Al Pacino. Ao receber a notícia de Assalto à Brasileira, de Marcos Jorge Belmonte, baseado em um assalto verídico, imaginei que o filme seguiria pela via do realismo, do planejamento meticuloso e da tensão típica do gênero. Mas o próprio diretor sublinha desde o início que seu foco é outro: o absurdo. “Pense no absurdo: ele já aconteceu no Brasil” é a frase que abre o filme – e funciona como chave de leitura.

Ao contrário de Assalto ao Banco Central (2011), que enfatizava planejamento e execução, Assalto à Brasileira aposta numa comédia de erros para refletir um Brasil em crise, com alta inflação e desemprego. O longa busca humanizar os assaltantes – em especial Moreno (Christian Mariano), líder da gangue – e mostrar o despreparo da polícia. Ao mesmo tempo, joga luz no olhar popular sobre esses criminosos, que ganham contornos de Robin Hood: filhos desesperados, não violentos, que viam nos bancos vilões maiores do que eles próprios.

O problema é que o heist movie obedece a convenções que o espectador já espera. Uma das principais é justamente o planejamento. Belmonte suprime esse elemento para enfatizar a improvisação. O próprio Moreno, no final, ecoa o verdadeiro assaltante ao afirmar que, se houvesse planejamento, teria dado certo. Mas esse gesto narrativo, ao mesmo tempo em que amplia o tom de farsa, enfraquece a tensão dramática e reduz a potência dos personagens.

O filme se constrói a partir do ponto de vista do jornalista Paulo (Murilo Benício). Apresentado logo no início sendo demitido da redação e tomando um remédio cardíaco, ele é o primeiro a perceber que o assalto vai acontecer. Seu olhar treinado pelo jornalismo é descrito como um faro quase instintivo, mas a permanência dele dentro da narrativa não reflete qualquer preocupação real com os reféns ou com os próprios assaltantes. Há lampejos disso no final, mas a impressão predominante é a de um personagem movido por narcisismo: ele parece mais interessado na “grande matéria” que recuperaria seu brilho perdido do que em salvar vidas.

Murilo Benício e Christian Malheiros dividem o protagonismo no assalto (Imagem: Divulgação)

O roteiro reforça essa centralidade. Mesmo quando o filme recorre à figura da esposa grávida do jornalista – que seria um motivo suficiente para fazê-lo sair de lá de dentro –, tudo acaba diluído em cenas mais cômicas. Paulo sempre retorna ao banco, e sua moralidade fica em suspenso: estaria ali para fazer história? Para aparecer como herói? Para reconquistar seu espaço no jornal? Até para os próprios assaltantes, ele vira uma espécie de aliado, engrandecido pelos canais de TV.

Dentro do banco, vemos Moreno hesitar diante de qualquer violência. Ele se preocupa com a comida, distribui dinheiro de acordo com as histórias individuais dos reféns, repete que “não é bandido” e chega a clamar que está fazendo uma revolução. Ao lado dele está Barba (Robson Nunes), mais ansioso, violento – um contraponto que mostra duas faces do mesmo dilema ético diante da crise. Mas o filme não explica como Barba tenta atravessar Moreno ou dividir a liderança, nem como Moreno convenceu os demais a participar. As motivações do bando são silenciadas ou infantilizadas, o que dificulta a criação de empatia real com esses personagens.

O mesmo acontece com os reféns. Apesar de, no final, o filme exibir entrevistas com os verdadeiros trabalhadores do banco, dentro da narrativa a maior parte deles existe apenas para servir de suporte a esquetes cômicas. Há microgags espalhadas ao longo da trama que em alguns momentos funcionam, mas acabam diluindo a tensão. O espectador sabe que, no imaginário coletivo, assaltantes podem se tornar violentos a qualquer momento, que a vida dos reféns está em risco – mas essa ameaça é constantemente esvaziada pela comicidade.

Essa indecisão tonal torna o filme irregular. A primeira meia hora, com um alívio cômico bem pontuado, encontra o tom certo. Mas, ao se concentrar cada vez mais no espetáculo do jornalista-negociador, Assalto à Brasileira perde tensão e ritmo, recuperando-se apenas no final, quando entra em cena o secretário interpretado por Augusto Madeira com novas diretrizes para a polícia. A trilha sonora acentua essa irregularidade: ora transmite confusão, ora tensão, ora leveza – sem costura fina entre os tons. No fim, não fica claro se o filme quer ser uma comédia de erros à la Fargo, com humor ácido multiplicado pelo absurdo, ou um drama tenso sobre um sequestro. Ele tenta ser híbrido, mas não consegue se estruturar nem se assumir como um ou outro.

Faltou também um trabalho mais subjetivo na construção dos personagens. Não há no filme frases que ecoem como “Ática! Ática!” de Um Dia de Cão, nem o equilíbrio entre inocência e intensidade do parceiro de Al Pacino (John Cazale) no clássico de Sidney Lumet. A inocência dos assaltantes brasileiros é sublinhada demais, quase caricata, e o resultado é um conjunto irregular, que alterna momentos de humor, crítica social e tensão sem encontrar uma síntese.

Ainda assim, Assalto à Brasileira chama atenção por inverter a perspectiva do gênero. Ele substitui o suspense do planejamento pela ironia do improviso e insere a crítica social como motor. Há humor, mas também há desespero. E, acima de tudo, há a sensação de que o absurdo, no Brasil, é sempre plausível. Se não alcança toda a densidade dramática que promete, o longa de Belmonte ao menos expõe as fissuras de um país onde a fronteira entre crime e sobrevivência é tênue – e onde até um assalto pode parecer um ato de esperança.

Assalto à Brasileira foi exibido na Mostra Vertentes do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.

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