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ENTREVISTA | Christian Malheiros no 19º CineOP

Ator fala conta sobre sua cumplicidade com o personagem e sobre fazer um filme de um assalto que aconteceu no Brasil.

“Eu acho que o primeiro personagem é a esperança e a fé. Elas circundam o filme e chegam até o público, que torce para que tudo dê certo.” – Christian Malheiros

O ator durante a coletiva de imprensa no 19º CineBH (Imagem: Léo Fontes / Universo Produção)

O ator Christian Malheiros, protagonista de Assalto à Brasileira, conversa com o Cinema com Crítica sobre o filme, a construção de seu personagem e os elementos históricos e culturais que tornam a narrativa única.


Alvaro Goulart – Christian, muitos atores negros enfrentam o dilema de interpretar personagens sempre marginalizados ou ligados ao crime. No seu caso, como foi assumir esse papel em que o personagem comete um crime, mas o filme busca humanizá-lo? Quais foram suas referências para trazer essa dualidade e complexidade, e como você se posiciona diante dessa temática?

Christian Malheiros – Eu acho essa pergunta maravilhosa. Por quê? Porque eu acho que realmente existe essa coisa. O cinema nacional enxerga o artista preto, o ator preto, sempre nesses personagens marginalizados. O audiovisual, no geral. E não é que a gente não possa fazer. A gente pode fazer. E a gente também quer fazer. Mas a gente também quer fazer outras coisas. Não somente isso.

Mas tem uma peculiaridade desse filme. Por que eu aceitei fazer? Porque você acaba entendendo que ali é um grito de desespero, você acaba entendendo que ali fala de um contexto histórico do país, pós-ditadura, onde tudo ainda está meio incerto, a inflação é 400%, você tem um contexto histórico para além do personagem, para além do que está sendo feito, que é muito importante, então eu me vi necessário nesse filme, eu me vi necessário contando essa história, e além do mais, quando você lê, esses caras não são bandidos, não foi uma quadrilha que se articulou para ir fazer esse assalto. São pessoas de bem, pessoas que trabalhavam, que foram tirar seu dinheiro no banco, não conseguiam e falaram, meu, já que eu não consigo tirar o meu dinheiro do meu trabalho, eu vou lá e vou assaltar e vou pegar o que é meu.

Então existe uma coisa meio que de justiça também, de um país que estava saindo dessa ditadura militar, de um país que estava numa recessão danada, que as pessoas não tinham certeza de nada. Então eu acho que eu não consigo enxergar como esses caras. Não, formou-se uma quadrilha e fez esse assalto improvável. Mas é um filme que fala sobre como que o brasileiro, como que a gente vem de um lugar de muita pressão, de um lugar de muito desespero, de um lugar de muitas incertezas desse país. Não é muito diferente do que a gente está vivendo hoje, mas naquela época era não saber o que vai acontecer amanhã. Então eu acho que é uma história muito necessária. Então eu sou muito feliz porque nesse lugar eu pude humanizar esse personagem, pude trazê-lo dentro de um contexto histórico, tudo que a gente estava passando naquele momento.


Alvaro Goulart – E enquanto ator, como você se relaciona com o personagem para transmitir essa verdade na tela? Até que ponto você precisa se tornar cúmplice das ações dele para levá-lo ao público?

Christian Malheiros – Eu acho isso fundamental. Acho que a gente tem que trazer essas histórias para a gente, principalmente. Porque, primeiro, a gente está emprestando o nosso corpo, a nossa voz, não deixa de ser eu. Não é, mas é eu em outra frequência, é eu em outro estado, é eu em outra situação, é eu contando uma história. Então praticamente já tem coisas minhas, a casca é minha, né? Vai ter essa casca aqui. Então isso já é um ponto, um primeiro ponto de que esse personagem está passando por mim e também já tem um pedaço meu.

Então tem uma parada que é muito louca, que é a gente tem que aproximar as histórias da gente no sentido de que a gente não pode olhar para aquilo e falar bem assim, olha, aquele personagem faz, mas eu não faço. Tá, mas se eu sou colocado em condição extrema, será que eu não faço aquilo ali? Então a gente tem que trazer o personagem para a gente e humanizá-lo dentro de um lugar que a gente também, de uma certa forma, colocado naquela pressão, naquele lugar, seja qual for a história, a gente também execute aquilo, a gente também faça aquilo. E não é no lugar que a gente realmente mate ou realmente roube, mas é no lugar de entender que eu colocado em determinada situação também posso chegar a este ponto. Sabe? Então acho que o trabalho do ator é julgar com o personagem, não é julgar o personagem. Julgar, ele já vai ser julgado. Vai pro público e cada um vai ter a sua opinião sobre o que é aquele personagem, se vai gostar ou se não vai gostar. Se nós como atores começamos a julgar, a gente não vai fazer. A gente vai fazer o serviço de colocar esses personagens mais uma vez numa caixinha. Olha, esse aqui é o bandido mau, esse aqui é o mocinho bom, esse aqui é o vilão, esse aqui é… tem isso, sabe? A gente como ser humano no dia a dia, a gente pode ser vilão e mocinho no mesmo dia, sabe? Por que o personagem tem que ser só vilão e só mocinho? Então a gente tem que humanizar, e esse lugar humano vem do ator, esse lugar humano vem no fazer, vem nesse lugar artesanal que a gente vai construindo camada por camada.


Alvaro Goulart – E o Moreno, seu personagem: ele é um líder, articulado, carismático. Pode contar mais sobre ele para o público?

Christian Malheiros – Moreno é líder nato, é um cara que fala muito bem, é um cara que tem um charme, é um cara que consegue convencer todo mundo a fazer aquele assalto. Mais ainda, o jornalista a ser o negociador, é um cara que sabe jogar. É um cara que, no desespero, ele lida com o que ele tem de melhor, que são as qualidades dele. Então, assim, o Moreno é esse cara que, acho que, como todo brasileiro, ativa o modo preciso me salvar e vai nessa, assim, sabe?


Alvaro Goulart – O gênero de crime é muito popular no cinema. Como é trazer esse gênero para o cinema brasileiro? Onde aparece a brasilidade no fazer cinema e como Assalto à Brasileira se diferencia de outros filmes de assalto?

Christian Malheiros – Olha, eu vou te falar que fazer cinema no Brasil, a gente tem que fazer um cinema que tenha cheiro. Um cinema que tem gosto. Um cinema que você tem que olhar e falar, eu me reconheço naquilo. Você tem que olhar para aquela paisagem e falar, eu já passei por ali. Você tem que se reconhecer nesse lugar. Você tem que se enxergar dentro dessa situação. Então eu acho que a gente tem esse lugar também de trazer esse DNA que é nosso, esse gingado que é nosso, esse calor que é nosso, que faz com que a gente consiga se ver nessas histórias. Então é muito importante. Porque até nessas histórias de crime tem uma peculiaridade: uma coisa que nem é tão fria e nem é tão quente que é brasileiro, que é essa coisa do gingado de pular pro lugar mais frio e depois ir pulando de galho em galho pra conseguir de uma certa forma se salvar, então tem um senso de sobrevivência que é muito nosso, é um senso de existência de querer existir que é muito nosso, não sei lá fora, mas aqui a gente consegue colocar isso porque só a gente vive isso no dia a dia. Então tem um desafio, é um desafio, nossa é que eu vi as outras vezes, mas agora foi difícil. É um desafio, mas é um lugar que só a gente consegue contar. Às vezes que tentaram contar, a nossa história não rolou muito bem. Então, é isso. Fazer cinema brasileiro. E é esse desafio, cara. É esse desafio que é grande.


Alvaro Goulart – Quando o filme for exibido no exterior, como você acha que será recebido? Ele vai ser visto só como filme de assalto ou as nuances brasileiras e o contexto histórico serão percebidos?

Christian Malheiros – É difícil projetar como que vai ser a recepção desse filme lá fora, mas eu acho que é muito difícil ele cair pra essa coisa do assalto… desses filmes de assalto, porque é um assalto mambembe. Não é um puta assalto. Se você for olhar, os caras estavam de chinelo. Eu acho que, entendeu? É isso que eu estou falando, que é uma parada brasileira. Os caras estão de chinelo, camisa com o botão aberto. Entendeu? Os caras estão de… camisa, eles botaram na cara pra tampar o rosto. Sabe? É uma coisa improvisada. Então, acho que esse improviso é o que vai pegar. Essa coisa dessa criatividade de “ó, tem que ser feito isso, a gente vai fazer”. Agora, como ninguém sabe, né? Tem uma frase maravilhosa, que é do Moreno, o meu personagem, que ele fala assim: “a gente não tinha um plano, mas se tivesse um plano, tinha dado certo”. E isso é maravilhoso, porque, assim, é improvável. Mesmo assim, existe uma fé de “ó, só não aconteceu porque a gente não tinha um plano”. Olha que loucura, era um assalto, sabe? Então acho que isso que pega, esse lugar do “Vai dar um jeito, vai dar certo”. Essa fé louca que a gente tem na vida e nas coisas, que é surreal. Eu espero que esse seja o que fique lá fora, quando o filme sair.


Alvaro Goulart – E essa fé, esperança tão brasileira, você vê como um personagem extra do filme?

Christian Malheiros – Nossa, eu acho que o primeiro personagem é a esperança e a fé. Eu acho que são as duas coisas. Começa aquele assalto e não tem muita coisa. É isso. E eu acho que isso circunda muito o filme, assim, sabe? Tanto que as pessoas começam… Quando você está assistindo, as pessoas começam a ter fé para que aquilo dê certo, que os caras não morram, que os assaltantes não morram. Então você tem ali uma coisa que vai contaminando até o próprio público, que foi o que aconteceu na época. Quando aconteceu o assalto e foi noticiado, e começou a fazer uma aglomeração na frente do banco, as pessoas estavam ali querendo invadir o banco para ficar do lado dos assaltantes, as pessoas estavam querendo, tinha gente que queria entrar num ônibus para fugir com eles, tinham pessoas que queriam, estavam torcendo para eles lá fora, gritando, gritando positivamente para eles. Então essa fé acabou generalizando até para quem estava fora do banco acompanhando aquilo ao vivo e até para o público que está assistindo o filme e está falando: “Cara, eu não quero que nada aconteça com esses meninos, porque são meninos, né?” Então eu acho que isso é um personagem muito forte, se não o personagem mais forte desse filme, a fé.


Alvaro Goulart – O Brasil hoje vive polarização intensa e discursos do tipo “bandido bom é bandido morto”. Como você acha que o público vai receber o filme?

Christian Malheiros – Cara, eu acho que assim, a gente sempre tem essa preocupação e a gente sempre entende que o cinema por si só já é alvo da extrema direita, né? O cinema sempre foi atacado, a Lei Rouanet sempre foi atacada. Pessoas que não sabem nem o que estão falando começam a dizer sobre o nosso ofício de uma forma muito pejorativa. Mas eu acho que o nosso filme, ele tem um viés muito histórico, assim, sabe? Eu acho que muitas daquelas pessoas também que hoje estão do lado contrário, elas acabaram vivendo aquilo também. Que foi um momento de recessão muito forte no Brasil. Que foi um momento onde as pessoas não tinham dinheiro, muitas vezes não tinham que comer. É o momento que você ia comprar coisa no mercado de manhã à noite e já tinha aumentado o preço. Então, assim, quem era pequeno tem essa lembrança dos pais e quem que… Hoje tem uma assertividade também, lembra daquilo com muita certeza, porque estava vivendo naquele momento latente do Brasil. Então acho que o filme tem muito esse lugar histórico, esse contexto da época, que eu acho que pega muito até essa galera. Então é um filme para a gente olhar e refletir, para a gente olhar e entender o que foi o Brasil um dia, sabe? E nem faz tanto tempo assim. Então eu acho que o nosso filme tem esse lugar também de unir um pouco esse pessoal que também passou por isso. Acho que é perfeito.


Alvaro Goulart – Agora convida o público para assistir ao filme.

Christian Malheiros – Bom, pessoal, eu queria convidar vocês pra assistirem Assalto à Brasileira nos cinemas. A gente ainda não sabe quando vai estrear, talvez primeiro trimestre de 2026. Mas é um filme que tá lindo, tá incrível, tá gostoso. É um filme que fala sobre muito, sobre o nosso DNA, o DNA do Brasil. Então, acho que é um filme que vocês vão adorar. Então, vem pro cinema. Vem assistir cinema nacional!

Confira aqui a entrevista com o diretor, José Eduardo Belmonte

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