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AQUI NÃO ENTRA LUZ

Classificado como 5 de 5

Aqui Não Entra Luz

2025

Classificado como 5 de 5

Diretor: Karol Maia

O trabalho doméstico no Brasil é um ofício que carrega consigo marcas profundas da escravidão. É uma profissão que, embora essencial para o funcionamento cotidiano de milhões de lares, ainda habita o lugar da invisibilidade e da subalternidade. A geografia das construções menos recentes revela essa herança com clareza: o famigerado “quartinho de empregada” – um cômodo de, em média, três metros quadrados, com uma pequena janela (quando existe), colado à cozinha ou à chamada “área de serviço”. Essa disposição espacial não é apenas uma questão arquitetônica, mas o reflexo de uma estrutura social que atualiza, em moldes modernos, a lógica da “Casa-Grande e Senzala”. É o mapa físico de uma dinâmica escravocrata, um dispositivo de controle que limita a circulação, o descanso e até o olhar de quem trabalha.

A arqitetura dos espaços que diretora escancara para ilustrar sua obra (Imagem: Divulgação)

Em Aqui Não Entra Luz, Karol Maia se debruça sobre esse espaço e sobre as mulheres que o habitaram — literal e simbolicamente — com uma perspicácia que atravessa o sensível e o político. Filha de uma empregada doméstica, a diretora faz de seu documentário uma busca por sua própria história e um gesto de reconstrução da história de sua mãe, que, por relutância ou dor, evita revisitar suas memórias. Diante desse silêncio materno, Karol encontra em outras trabalhadoras domésticas o eco das vivências que compõem o retrato coletivo de uma categoria que sustentou o país, quase sempre à sombra.

A genealogia desse ofício, quando contada a partir da perspectiva das mulheres negras, evidencia o retorno inevitável à estrutura escravocrata. Os depoimentos recolhidos por Maia escancaram o absurdo naturalizado de um país que demorou séculos para reconhecer o trabalho doméstico como profissão com direitos assegurados. A fala de Rosarinha é talvez uma das mais duras nesse sentido: ela relembra as investidas sexuais dos filhos de seus patrões, que justificavam os abusos com a ideia de que, por sua condição social e racial, ela não teria acesso ao amor — e que aquelas seriam “oportunidades de conhecer o prazer”.

É impossível não pensar no dito popular que sintetiza a perversidade dessa hierarquia de gênero, classe e cor: “branca para casar, ‘mulata’ para trepar, preta para trabalhar.” Essa frase, que atravessa gerações, é o espelho cru de um imaginário social que define o valor e o destino de uma mulher conforme o tom de sua pele. Também é inevitável lembrar da romantização que a televisão brasileira perpetuou durante décadas. Na novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, o personagem de Daniel Zettel observava, pela fechadura, a intimidade da personagem de Roberta Rodrigues, uma empregada doméstica, e realizava incursões sexuais que eram tratadas com condescendência, como se fossem travessuras adolescentes. O abuso era transformado em “descoberta do desejo”, relativizando, mais uma vez, a violência histórica imposta sobre corpos negros e pobres.

O documentário de Karol Maia, ao revisitar a própria infância e as memórias de sua mãe, nos confronta com o fato de que o trabalho doméstico é muitas vezes uma herança passada de mãe para filha. Um destino que a diretora conseguiu romper com sua formatura — um dos momentos mais emocionantes do filme e também um dos mais felizes da vida de sua mãe. Essa conquista pessoal carrega o peso simbólico de uma emancipação coletiva, ainda que parcial, de todas aquelas que foram destinadas a servir.

Os depoimentos colhidos revelam como o consentimento diante da barbárie nasce da cultura escravagista, que naturaliza a posse sobre o outro, alimentada pela desinformação e pela ausência de políticas públicas eficazes. O Estado, ao negligenciar essas mulheres, ajuda a perpetuar o status quo, mantendo a desigualdade estrutural viva e funcional.

Nesse ponto, a diretora opta por um realismo que dispensa adornos. Não há filtros, trilhas sonoras que atenuem a dor ou recursos estéticos que suavizem o impacto dos testemunhos. A crueza é a essência da obra, e também sua forma de manifesto. Ao dar voz às trabalhadoras em seus próprios espaços — muitas vezes modestos, mas repletos de dignidade —, Karol constrói uma narrativa que respeita sem romantizar, que escuta sem interferir. Há coragem em expor, com clareza, absurdos como o sequestro de filhos por parte de patrões, casos em que mulheres foram privadas da convivência com suas próprias crianças.

Um elemento comum aos relatos é a recusa, por parte dos patrões, em reconhecer o trabalho como algo que mereça remuneração. Sob a lógica paternalista e escravocrata, apresentam-se como “salvadores” por fornecer comida e abrigo — e é nessa chantagem emocional que nasce o velho discurso do “praticamente da família”. Um eufemismo cruel que mascara a exploração e tenta apagar o limite entre afeto e subordinação.

Esse ponto, em especial, ressoa de maneira íntima para mim. Meus bisavós, imigrantes portugueses semi-analfabetos, viveram situação semelhante: passaram boa parte da vida na casa de uma patroa sem receber salário, apenas com alimentação e o “direito” de morar no quarto de serviço — os três juntos: meus bisavós e minha tia-avó. Minha avó, batizada pela patroa, era tratada como uma boneca, impedida de circular pela cozinha ou participar das atividades da mãe. Uma criança-objeto, exibida como símbolo de caridade e poder. Reconheço, claro, o abismo que separa essa experiência daquelas narradas por mulheres negras — o abismo racial que estrutura o país —, mas há ecos que atravessam gerações e revelam o mesmo mecanismo de opressão.

Aqui Não Entra Luz é, assim, um filme sobre memória, herança e resistência. Um retrato que ilumina as frestas do que a arquitetura, a história e o costume insistem em manter às escuras.

Aqui Não Entra Luz foi exibido na Mostra Vertentes do 19º CineBH, O Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.

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