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ENTREVISTA | José Eduardo Belmonte no 19º CineOP

Cineasta fala sobre “Assalto à Brasileira”, filme exibido na Mostra Vertentes do festival

“É real, mas meio surreal. É esse absurdo que a gente vive — às vezes normalizado — que faz o filme ser ‘à brasileira’.” – José Eduardo Belmonte

O cineasta durante a coletiva de imprensa (Imagem: Léo Fontes / Universo Produção)

O diretor José Eduardo Belmonte participa da 19ª Edição do CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto com Assalto à Brasileira, filme que revisita um caso real e traz para o gênero do crime um olhar abrasileirado, marcado pela improvisação e pelo humor em meio à tensão. O Cinema com Crítica conversou com o cineasta durante o festival.


Alvaro Goulart: Queria te perguntar sobre o filme Assalto à Brasileira. O tema do assalto é recorrente no cinema e atrai o público — há o Eurocrime, Hollywood explora bastante… Mas no seu caso, para além da questão política, o que diferencia o filme na linguagem cinematográfica dentro da filmografia brasileira e dos filmes de assalto no mundo?

José Eduardo Belmonte – É interessante a pergunta. Acho que o que torna o filme particular é justamente o aspecto brasileiro: a vivência dos personagens e a relação entre eles. Não é um crime pensado como em vários filmes de crime. Assisti a muitos, todos têm planejamento, hierarquia clara. Aqui não. Foi um ato real, um improviso. Não tenho prova disso, mas algumas pessoas falaram que, quando viram a situação, lembraram: “Nossa, Um Dia de Cão passou duas semanas antes no Supercine, na Globo, sábado à noite”. Era um filme que nunca tinha passado na TV aberta por causa da censura da ditadura. Passou pela primeira vez ali. Não sei se isso inspirou alguém. Mas é esse absurdo que a gente vive — às vezes normalizado — que faz o filme ser “à brasileira”. É real, mas meio surreal. E a gente ri para sobreviver, ri de situações tensas porque é o jeito de seguir adiante.


Alvaro Goulart – O Christian Malheiros comentou sobre um “personagem extra” no filme: essa fé em acreditar que vai dar certo, mesmo sendo improvisado, mambembe, não planejado.

José Eduardo Belmonte – Sim! É o jeitinho brasileiro. Às vezes é positivo. Filmei nos Estados Unidos e ouvi muito: “Como você consegue ser tão flexível?”. Porque o jeitinho também tem um lado bom. Não vamos demonizar: ele salva muito! Tanto que, sem dar spoiler, vocês vão ver como isso aparece no filme.


Alvaro Goulart – Pensando nessa esperança de que “vai dar certo”: fora do contexto político brasileiro, como você acha que o filme pode ser lido lá fora? O público internacional vai se apegar mais ao olhar humano dos personagens ou à ação típica do gênero?

José Eduardo Belmonte É muito interessante colocar questões do Brasil para o mundo. As pessoas se abrem com curiosidade. O cinema brasileiro faz isso muito bem — em várias vertentes — mostra e instiga o Brasil. Não define, mas provoca. Se aqui a gente pergunta “que país é esse?”, eles lá vão perguntar “mas que país é esse?”. Acho que isso vai acontecer. O filme é de gênero, tem uma tradução da realidade para uma experiência cinematográfica de uma hora e quarenta, mas fala muito sobre o Brasil e sobre a relação do brasileiro com o Brasil. E essa relação é sempre complexa, um pouco em crise. Acho que isso vai instigar bastante os estrangeiros.


Alvaro Goulart – Ainda não consegui assistir — vou ver amanhã na estreia do festival. Sobre as convenções do gênero: você as abraça ou subverte? Como brinca com isso?

José Eduardo Belmonte – As convenções e os códigos estão todos lá — inclusive os do jornalismo, muito presentes no cinema. Mas tem esse dado do cinema marginal, que abrasileira as coisas. O marginal fazia isso também. Então os códigos estão lá, mas abrasileirados: pela própria realidade e um pouco pela direção também.


Alvaro Goulart – É um filme que fala do passado, mas reverbera no presente. O cinema é ponte. Hoje, com polarização política, extrema-direita atacando o cinema e esse discurso de “bandido bom é bandido morto”, você acha que o filme, por ser de gênero comercial e ter esse apego histórico, consegue romper barreiras, atrair público e gerar discussão?

José Eduardo Belmonte Essa pretensão é muito grande para um artista. Acho que nosso papel é organizar perguntas e instigar as pessoas. O cinema é capaz de trabalhar no imaginário, construir cenários. As pessoas podem entrar ou não, concordar ou discordar. Mas ele ajuda na preparação do espírito. Não quero entregar tudo pronto nem tirar o lugar da sociologia, da antropologia ou de tantos campos importantes para entender o país hoje. Quero instigar. E acho que o filme instiga mesmo, porque fala de um Brasil que se encontra — de muitas diferenças que acabam convergindo. Mostra questões culturais e sociais que se aproximam do que se imagina. Começa com estranhamentos, mas vai convergindo. Vocês têm que ver o filme senão dou spoiler.


Alvaro Goulart – Então convida o público para assistir.

José Eduardo Belmonte – Por favor! Assalto à Brasileira, vejam! É um filme baseado em fatos surreais, uma história de acontecimentos extraordinários. É tenso, mas também tem muita ironia — a ironia que nasce do absurdo, do contexto da época. Fala muito dessa relação do brasileiro com o Brasil. Para ter futuro, a gente precisa olhar para o passado, entender o hoje e repensar o que vamos ser. É um filme que instiga, diverte e faz refletir sobre nós mesmos.

Alvaro Goulart – Perfeito!

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