O ser humano é moldado conforme seus relacionamentos – com outros e consigo. A solidão é formadora de personalidades, da mesma forma como as pessoas com as quais convivemos deixam marcas que podem ser definitivas em nosso modo de viver, para o bem ou para o mal. Uma paixão de infância pode reverberar nos amores de toda uma vida. Uma amizade tóxica pode trazer consequências psicológicas graves e anos de terapia. Um desafeto familiar é capaz de gerar arrependimentos amargos, que se tornam dores silenciosas e íntimas. Toda relação interfere no “eu” e na busca da felicidade. Twinless – Um Gêmeo a Menos, dirigido e escrito por James Sweeney, exibido no 33º Festival Mix, e que recebeu o Prêmio do Público no Festival de Sundance, parte da perspectiva de opostos para expressar a interdependência dos afetos como meio de sobrevivência, bem como a saúde e a nocividade dessas conexões naquilo que elas agregam ou destroçam nossos seres.
Com humor ácido, James Sweeney inicia esse estudo humano na vivência do luto sofrido por um irmão gêmeo em razão da morte precoce do outro. Se é na ausência que valorizamos quem está ao nosso lado, o distanciamento definitivo entre pessoas que estiveram biológica e fisicamente vinculadas desde o útero pode representar uma perda quase que física daquele que permanece. Roman (Dylan O’Brien) é o gêmeo que fica após a morte de Rocky (O’Brien), jovem, a vida toda pela frente. Buscando compreender e seguir após a tragédia, o sobrevivente frequenta um grupo de apoio de pessoas que também perderam seus duplos uterinos, ali conhecendo Dennis (interpretado pelo próprio diretor), com quem ele desenvolve uma aproximação que gradualmente se transforma em uma espécie de substituição mútua do ente querido que se foi.
Enquanto Roman é um típico jovem brutamontes, doce, de músculos em excesso e cérebro em falta, Dennis é mirrado, culto, irônico e inteligente. Ao passo que o primeiro faz o perfil padrão de homem branco e heterossexual, o segundo é um homem asiático e homossexual. Figuras que, notadamente, não se conectariam em outras circunstâncias, mas aqui configuram os opostos que se unem em razão da carência afetiva. O bromance que se forma entre eles é conduzido por James Sweeney num formato que oscila entre o drama naturalmente decorrido da tragédia pessoal e o tom comicamente irônico das situações geradas por essa nova e improvável relação. Os personagens começam a dividir, além de desabafos, tarefas banais da rotina, como idas ao supermercado, à academia e refeições, onde o pesar se manifesta mais fortemente no famoso “cair a ficha”.

Além da partilha do sofrimento, a homossexualidade será, outrossim, elo de conexão entre eles. Isto porque Rocky era gay e por muito tempo incompreendido pelo gêmeo heterossexual. Roman busca em Dennis aquilo que não foi capaz de oferecer ao Rocky em vida: remediar sua homofobia passada e lutar pela orientação sexual do irmão já falecido. Ao longo de Twinless – Um Gêmeo a Menos percebemos que as motivações do estreitamento por parte de Dennis ocultam uma necessidade de superar máculas causadas pela morte, mas também e principalmente pela culpa pela sua ocorrência, culpa essa que leva a omissões que vão tornando-se cada vez mais insustentáveis. Veja-se que laços são firmados por uma conveniência emocional que se torna sincera – embora ameaçada por verdades iminentes que demonstram uma relação construída de forma um tanto abusiva.
Até que verdades sejam ditas, o bromance e a tentativa de permuta de um irmão pelo outro como forma de superação é representado divertidamente por James Sweeney, insistente na ideia de duplos que remete ao estado psicológico dos personagens, que enxergam gêmeos em todos os cantos, que completam as frases um do outro e antecipam pensamentos. O diretor faz uso pontual da split screen, técnica que divide a tela para mostrar ações paralelas, a fim de evidenciar o grau de dependência entre eles e como isso muda no decorrer do tempo e conforme outras pessoas se inserem no relacionamento.
Em que pese a presença do humor ácido tornar o filme mais charmoso, concedendo-lhe um otimismo relacionado à própria vontade de prosseguir dos personagens, o exagero emocional nas reações decorrentes do sofrimento do pesar sentido por eles torna a comédia inconveniente em muitos momentos, e James Sweeney não consegue equilibrar os dois tons, que oscilam indiscriminadamente. A trilha sonora, ora clássica, ora eletrônica, acompanha essa irregularidade tonal.
De mais a mais, Twinless – Um Gêmeo a Menos parece suavizar convivências abusivas sob a justificativa do luto. Roman é violento, Dennis é manipulador, e isso traz consequências graves que são apaziguadas por um pretenso afeto (ou dependência) que supera os problemas. Muito embora comportamentos tóxicos possam, sim, decorrer de tragédias e situações dolorosas mal resolvidas (afinal, seres humanos se afligem e a dor se manifesta de muitas formas), e ainda que se considere a complexidade inerente de cada ser, o longa apazigua a dependência não sadia entre pessoas sob o disfarce do bom humor.
Em que pese perca-se no tom, Twinless – Um Gêmeo a Menos torna a tragédia mais aprazível e extrai o riso, ainda que nervoso, de onde não há cura definitiva, exaltando a capacidade de adaptação e superação do ser humano diante da perda. Mostra-se, assim, uma graciosa expressão de que há honestidade e estima mesmo nos vínculos mais tortuosamente construídos.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



