Existem filmes que funcionam como portais. Não necessariamente para um cânone respeitável, mas para algo talvez mais duradouro: o amor pelo cinema enquanto experiência. Anaconda (1997) foi um desses portais para mim. Um filme que, à época de seu lançamento, foi recebido com desdém pela crítica, acusado de exagerado, tosco, tecnicamente irregular — adjetivos que, ironicamente, hoje ajudam a explicar por que ele se tornou um clássico cult. Rever Anaconda hoje é menos sobre a qualidade do filme e mais sobre o que ele representou para uma geração que descobriu o cinema através da televisão aberta, das sessões da tarde tardias e dos VHS gastos.
Quando criança, eu assistia a Anaconda fascinado e aterrorizado. A Amazônia ali apresentada era uma fantasia grotesca, quase colonial, muito distante da realidade brasileira — assim como a própria sucuri, transformada em um monstro mitológico de proporções fálicas. Ainda assim, havia algo de absolutamente hipnótico. A cena em que o personagem de John Voight é devorado inteiro pela cobra e, mais tarde, regurgitado como um cadáver viscoso permanece gravada na minha memória como um rito de passagem cinematográfico. Era o cinema me ensinando, cedo, que imagens podem ser excessivas, ridículas, perturbadoras — e, justamente por isso, inesquecíveis.
Hoje, Anaconda ocupa outro lugar na minha relação com o cinema. Tornou-se uma preciosidade de colecionador. Faço parte, com orgulho, da reduzida comunidade de aficionados por Blu-ray que disputam cópias da primeira leva de títulos lançados no formato, os chamados “lombada azul”. Existem poucas unidades circulando em grupos de troca e revenda, e Anaconda é uma dessas joias improváveis. Um fetiche material que conversa diretamente com o fetiche imagético do próprio filme.
Não por acaso, as piadas em torno da cobra gigante sempre circularam — e ainda circulam — nos ambientes masculinos. O subtexto fálico nunca foi exatamente um subtexto. Foi a partir disso que surgiu a pergunta que fiz a Selton Mello durante o tapete vermelho da pré-estreia de Anaconda (2025), no Cine Odeon, no dia 17 de dezembro. A sessão, aliás, contou com uma homenagem curiosa: o aniversário do pai do ator, celebrado com um bolo em formato de cobra. Difícil ignorar o simbolismo.
Perguntei a Selton se a cobra gigante e o fato de os protagonistas serem homens em crise de meia-idade transformavam Anaconda em uma aventura que usa a comédia para discutir amadurecimento tardio e certa masculinidade tóxica — hoje claramente fora de moda. A reação foi honesta: surpresa, seguida de uma pausa. Ele admitiu que era uma leitura possível, ainda que o filme se assumisse, antes de tudo, como uma grande farofa divertida. E talvez seja justamente aí que Anaconda acerta.
O filme nos apresenta Griff (Jack Black), um cineasta frustrado que vê seu talento diluído em filmagens genéricas de casamentos, e Doug (Paul Rudd), um ator sem prestígio que vive da glória passada de uma participação em SWAT. Unidos pela paixão juvenil por fazer cinema, os dois partem para a Amazônia com o objetivo de realizar uma “sequência espiritual” do Anaconda dos anos 90 — uma tentativa desesperada de reencontrar o prazer criativo que tinham ao filmar terror caseiro nos tempos de colégio.

Essa jornada é, na verdade, sobre emasculação. E não apenas no sentido literal de enfrentar uma cobra maior do que a deles. O filme brinca o tempo todo com o orgulho masculino ferido: a distância entre sonhos de infância e a vida adulta, a inadequação frente ao arquétipo do herói, a dificuldade de urinar em público — gag recorrente e hilária com o personagem de Steve Zahn — e a constante sensação de não corresponder a um ideal de masculinidade que já não faz sentido.
Nesse aspecto, Anaconda surpreende ao subverter também o papel feminino. A personagem de Daniela Melchior vai além da função de simples catalisadora do conflito. Ela se recusa a ser apenas um McGuffin narrativo e carrega consigo uma camada de crítica social que falta, infelizmente, à Claire de Thandie Newton, reduzida ao arquétipo da amiga de infância e do amor não resolvido.
A metalinguagem conduz tudo isso com leveza. A ideia de que a paixão pelo cinema pode levar alguém a lugares inimagináveis — inclusive ao interior de uma cobra gigante — funciona tanto como piada quanto como declaração de amor. Os bastidores do filme independente que o grupo tenta realizar rendem alguns dos momentos mais engraçados da obra, especialmente para quem já tentou fazer cinema com pouco ou nenhum recurso.

Selton Mello surge como uma adição certeira. Seu Santiago, treinador de cobras, mistura a excentricidade de O Cheiro do Ralo com o carisma de Chicó, de O Auto da Compadecida. Sua dinâmica com o personagem de Paul Rudd é especialmente afiada, marcada pela disputa silenciosa pelo posto de macho alfa — dois homens profundamente solitários, tentando afirmar controle em um ambiente que os reduz constantemente. A castração simbólica, aqui, aparece inclusive de forma literal: ter a cobra fatiada vira piada, metáfora e comentário social ao mesmo tempo.

A mise en abyme se completa quando o filme incorpora outra produção de Anaconda sendo rodada pela Sony e resgata elementos do longa original para essa nova expedição amazônica. Não por acaso, o filme remete a Trovão Tropical, especialmente pelo uso do humor para comentar o próprio ato de filmar. Mas, se ali a sátira mirava a indústria, aqui o alvo é mais afetivo: Anaconda é, antes de tudo, uma ode ao prazer de fazer cinema.
Como os vídeos caseiros que Selton Mello costuma compartilhar em suas redes, o filme termina deixando uma mensagem simples e contagiante: apesar de tudo, apesar dos fracassos, das piadas fáceis e das cobras gigantes, fazer cinema ainda pode ser profundamente divertido.
Anaconda estreou dia 25 de dezembro de 2025 nos cinemas.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


