Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Anaconda

Classificado como 3.5 de 5

Anaconda

2025

99 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Tom Gormican

Existem filmes que funcionam como portais. Não necessariamente para um cânone respeitável, mas para algo talvez mais duradouro: o amor pelo cinema enquanto experiência. Anaconda (1997) foi um desses portais para mim. Um filme que, à época de seu lançamento, foi recebido com desdém pela crítica, acusado de exagerado, tosco, tecnicamente irregular — adjetivos que, ironicamente, hoje ajudam a explicar por que ele se tornou um clássico cult. Rever Anaconda hoje é menos sobre a qualidade do filme e mais sobre o que ele representou para uma geração que descobriu o cinema através da televisão aberta, das sessões da tarde tardias e dos VHS gastos.

Quando criança, eu assistia a Anaconda fascinado e aterrorizado. A Amazônia ali apresentada era uma fantasia grotesca, quase colonial, muito distante da realidade brasileira — assim como a própria sucuri, transformada em um monstro mitológico de proporções fálicas. Ainda assim, havia algo de absolutamente hipnótico. A cena em que o personagem de John Voight é devorado inteiro pela cobra e, mais tarde, regurgitado como um cadáver viscoso permanece gravada na minha memória como um rito de passagem cinematográfico. Era o cinema me ensinando, cedo, que imagens podem ser excessivas, ridículas, perturbadoras — e, justamente por isso, inesquecíveis.

Hoje, Anaconda ocupa outro lugar na minha relação com o cinema. Tornou-se uma preciosidade de colecionador. Faço parte, com orgulho, da reduzida comunidade de aficionados por Blu-ray que disputam cópias da primeira leva de títulos lançados no formato, os chamados “lombada azul”. Existem poucas unidades circulando em grupos de troca e revenda, e Anaconda é uma dessas joias improváveis. Um fetiche material que conversa diretamente com o fetiche imagético do próprio filme.

Não por acaso, as piadas em torno da cobra gigante sempre circularam — e ainda circulam — nos ambientes masculinos. O subtexto fálico nunca foi exatamente um subtexto. Foi a partir disso que surgiu a pergunta que fiz a Selton Mello durante o tapete vermelho da pré-estreia de Anaconda (2025), no Cine Odeon, no dia 17 de dezembro. A sessão, aliás, contou com uma homenagem curiosa: o aniversário do pai do ator, celebrado com um bolo em formato de cobra. Difícil ignorar o simbolismo.

Perguntei a Selton se a cobra gigante e o fato de os protagonistas serem homens em crise de meia-idade transformavam Anaconda em uma aventura que usa a comédia para discutir amadurecimento tardio e certa masculinidade tóxica — hoje claramente fora de moda. A reação foi honesta: surpresa, seguida de uma pausa. Ele admitiu que era uma leitura possível, ainda que o filme se assumisse, antes de tudo, como uma grande farofa divertida. E talvez seja justamente aí que Anaconda acerta.

O filme nos apresenta Griff (Jack Black), um cineasta frustrado que vê seu talento diluído em filmagens genéricas de casamentos, e Doug (Paul Rudd), um ator sem prestígio que vive da glória passada de uma participação em SWAT. Unidos pela paixão juvenil por fazer cinema, os dois partem para a Amazônia com o objetivo de realizar uma “sequência espiritual” do Anaconda dos anos 90 — uma tentativa desesperada de reencontrar o prazer criativo que tinham ao filmar terror caseiro nos tempos de colégio.

Essa jornada é, na verdade, sobre emasculação. E não apenas no sentido literal de enfrentar uma cobra maior do que a deles. O filme brinca o tempo todo com o orgulho masculino ferido: a distância entre sonhos de infância e a vida adulta, a inadequação frente ao arquétipo do herói, a dificuldade de urinar em público — gag recorrente e hilária com o personagem de Steve Zahn — e a constante sensação de não corresponder a um ideal de masculinidade que já não faz sentido.

Nesse aspecto, Anaconda surpreende ao subverter também o papel feminino. A personagem de Daniela Melchior vai além da função de simples catalisadora do conflito. Ela se recusa a ser apenas um McGuffin narrativo e carrega consigo uma camada de crítica social que falta, infelizmente, à Claire de Thandie Newton, reduzida ao arquétipo da amiga de infância e do amor não resolvido.

A metalinguagem conduz tudo isso com leveza. A ideia de que a paixão pelo cinema pode levar alguém a lugares inimagináveis — inclusive ao interior de uma cobra gigante — funciona tanto como piada quanto como declaração de amor. Os bastidores do filme independente que o grupo tenta realizar rendem alguns dos momentos mais engraçados da obra, especialmente para quem já tentou fazer cinema com pouco ou nenhum recurso.

Um filme dentro do filme – Imagem: Divulgação

Selton Mello surge como uma adição certeira. Seu Santiago, treinador de cobras, mistura a excentricidade de O Cheiro do Ralo com o carisma de Chicó, de O Auto da Compadecida. Sua dinâmica com o personagem de Paul Rudd é especialmente afiada, marcada pela disputa silenciosa pelo posto de macho alfa — dois homens profundamente solitários, tentando afirmar controle em um ambiente que os reduz constantemente. A castração simbólica, aqui, aparece inclusive de forma literal: ter a cobra fatiada vira piada, metáfora e comentário social ao mesmo tempo.

A mise en abyme se completa quando o filme incorpora outra produção de Anaconda sendo rodada pela Sony e resgata elementos do longa original para essa nova expedição amazônica. Não por acaso, o filme remete a Trovão Tropical, especialmente pelo uso do humor para comentar o próprio ato de filmar. Mas, se ali a sátira mirava a indústria, aqui o alvo é mais afetivo: Anaconda é, antes de tudo, uma ode ao prazer de fazer cinema.

Como os vídeos caseiros que Selton Mello costuma compartilhar em suas redes, o filme termina deixando uma mensagem simples e contagiante: apesar de tudo, apesar dos fracassos, das piadas fáceis e das cobras gigantes, fazer cinema ainda pode ser profundamente divertido.

Anaconda estreou dia 25 de dezembro de 2025 nos cinemas.

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