Lembro com nitidez da primeira vez em que assisti a Avatar, em 2009, e do deslumbramento quase físico diante daquele mundo e daquele novo nível de imersão proporcionado pelo 3D. Havia algo de verdadeiramente hipnótico ali — não apenas no aparato tecnológico, mas na sensação de pertencimento que James Cameron conseguia fabricar. A cena da Árvore das Almas não era apenas bonita: ela nos puxava para dentro de Pandora, nos fazia sentir parte daquele organismo vivo junto aos Na’vi. Naquele momento, Avatar me pareceu um divisor de águas, um marco tecnológico comparável ao impacto que Matrix, das irmãs Wachowski, havia causado anos antes. Um filme que prometia não só contar uma história, mas redefinir a própria experiência cinematográfica.
Esse impacto, de fato, existiu. Cameron estabeleceu um padrão quase inalcançável para o 3D, tanto nas salas de cinema quanto no consumo doméstico. Vieram as sessões inflacionadas, as conversões apressadas, as smart TVs 3D vendidas como fetiche — quase sempre tendo Avatar como vitrine. E, como todo frenesi, ele passou. Não porque o filme tenha envelhecido mal, mas porque a revolução teve um auge curto, intenso e irrepetível. Guardo até hoje minha edição 3D de Avatar e a TV que a acompanha como quem guarda um fóssil recente: vestígio de um momento em que o espetáculo parecia capaz de reinventar o cinema sozinho.
Mais de uma década depois, Avatar: O Caminho da Água surge como expansão desse universo — não apenas territorial, mas simbólica. Cameron desloca Pandora para os mares e apresenta o povo Metkayina, com sua cultura inspirada nos povos polinésios, especialmente os maori. A fauna aquática, os rituais, a relação com o oceano ampliam o mundo e reativam, ainda que de forma menos explosiva, aquele desbunde visual. Mas algo muda: o épico passa a se organizar em torno da família. Jake Sully e Neytiri já não são apenas guerreiros; são pais. Há filhos, heranças emocionais, perdas possíveis. O conflito deixa de ser apenas externo e passa a se instalar dentro da casa.
É justamente essa expectativa de ampliação — de mundo, de conflito, de radicalidade — que Avatar: Fogo e Cinzas promete intensificar. O título evoca calor, guerra, devastação, cinzas ainda quentes. Mas o que o filme entrega é um épico que esfria. Um filme que promete combustão e oferece brasas mornas. O conflito anunciado como total se revela íntimo, reiterativo, quase doméstico. O fogo vira ornamento.
A exploração do território vulcânico, suposto lar do Povo das Cinzas, é limitada. Falta tempo de tela, falta fauna própria, falta experiência sensorial. O espectador não sente o calor, não respira a cinza, não compreende a relação daquela tribo com a devastação que os cerca. Diferente da floresta do primeiro filme ou dos oceanos do segundo, o fogo aqui não vira ecossistema — vira conceito. E sem experiência, não há empatia. Sem calor, o épico esfria.
Essa limitação estética compromete diretamente a construção do Povo das Cinzas, liderado por Varang. Introduzidos como uma ruptura moral dentro do universo de Pandora — Na’vi que rejeitam Eywa, que vivem marcados pela violência da natureza —, eles rapidamente se tornam figuras unidimensionais. Visualmente, há referências claras a povos originários da América do Sul, inclusive do Brasil. Cameron, que já se mostrou publicamente aberto a críticas sobre apropriação cultural e afirmou que não basta se inspirar, é preciso respeitar, parece aqui cair numa armadilha sutil: a dor desses personagens não é dramatizada, é resumida.
Varang é uma presença corporal forte, mas uma personagem pouco elaborada. Sua dor não é verbalizada, sua história não é encenada. O conflito direto entre ela e Neytiri — que poderia funcionar como espelho trágico entre duas mulheres marcadas pela perda — nunca se aprofunda. Falta passado, falta memória, falta densidade. O resultado é um povo que se torna coadjuvante da própria história, reduzido a uma massa raivosa, vingativa, quase bestializada.

Aqui emerge um incômodo político inevitável. Ainda que não intencional, o filme resgata um olhar colonial clássico: o “outro” como ameaça genérica, como força primitiva, como obstáculo narrativo. Mal comparando, o Povo das Cinzas se aproxima mais dos orcs de O Senhor dos Anéis do que de um grupo com complexidade simbólica própria. São belos à sua maneira, mas esvaziados de humanidade. A dor é pasteurizada. A raiva, generalizada. Uma imagem desconfortavelmente próxima da forma como povos indígenas reais tantas vezes são retratados: como um bloco homogêneo de sofrimento e violência, sem protagonismo, sem voz.
Esse esvaziamento contrasta com o tratamento dado a Jake e Neytiri, personagens que carregam uma trajetória longa, acumulada, cheia de perdas e escolhas. O mesmo vale, curiosamente, para o coronel Quaritch. Ressuscitado como Avatar-nave, ele ganha em Fogo e Cinza uma dimensão menos maniqueísta e mais trágica. Quaritch não é apenas um vilão recorrente; é um homem incapaz de mudar. Ele vive como sombra de sua vida humana, reverberando valores e uma ética conservadora que já não encontram lugar naquele corpo e naquele mundo. Em um universo regido por Eywa — onde tudo flui, tudo se transforma — essa rigidez é uma sentença. Sua morte soa menos como punição e mais como recusa: morrer em vez de se transformar.
Esse conflito se radicaliza quando atravessado pela figura de Spider. Filho biológico de Quaritch, adotado por Jake e Neytiri, Spider é um corpo em contradição. Humano em Pandora, ele depende de uma máscara de oxigênio para sobreviver. É sufocado pela própria natureza. O ar que sustenta a vida dos Na’vi é, para ele, tóxico. Há algo de profundamente simbólico nesse deslocamento: Spider nasce inadequado ao mundo que ama.
O filme constrói, com alguma delicadeza, sua evolução. Spider aprende a respirar. Ele consegue sobreviver naquele ambiente antes hostil. Não é apenas uma mudança fisiológica, mas filosófica. Eywa não exige pureza de origem, mas capacidade de adaptação. A natureza não premia a rigidez; favorece o movimento. Onde o pai endurece, o filho respira. Onde Quaritch insiste em repetir o passado, Spider aceita a mutação.
Essa relação paterna evoca uma leitura teológica potente. O filme reencena, de forma sutil, um dilema abrahâmico: a possibilidade do sacrifício do filho. Ainda que não literal, a tensão está posta. Aqui, o contraste é claro. O Deus abraâmico exige sacrifícios, sangue, morte como prova de fé. Eywa, ao contrário, é uma divindade materna, imanente, que não exige a oferta do filho, mas o cuidado com ele. Não pede submissão; pede vínculo. Ao invés de morte, exige preservação.

É nesse ponto que Avatar: Fogo e Cinzas revela sua melhor ideia — ainda que não a desenvolva plenamente. A oposição entre conservadorismo e movimento, tradição rígida e adaptação, atravessa o filme, mas se repete mais do que avança. O luto, as tensões familiares, a culpa se tornam redundantes. Diferente dos filmes anteriores, cuja longa duração se dissolvia na descoberta, aqui o tempo pesa. O épico se arrasta. O fogo prometido vira calor requentado.
Ainda assim, Fogo e Cinza não é um fracasso absoluto. Ele funciona na sala escura, impressiona em momentos pontuais, sustenta discussões ambientais e políticas relevantes. Mas depende demais do aparato e de menos do cinema. Fora da tela grande, a experiência se banaliza. O roteiro, já simples desde o primeiro filme — como José Wilker apontava ainda em 2009 na cerimônia do Oscar —, aqui expõe suas fragilidades.
Com o quarto e o quinto filmes já anunciados, a pergunta que fica não é para onde Pandora pode ir, mas se Cameron conseguirá reacender um fogo que já não arde com a mesma intensidade. Avatar revolucionou o cinema, mas essa revolução teve prazo. O frenesi passou. O impacto não volta — e talvez nem precise voltar. Mas, para seguir vivo, o épico precisa queimar de verdade.
Avatar: Fogo e Cinzas está em exibição nos cinemas.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.

