O Cinema com Crítica entrevistou, na 76ª edição da Berlinale, a canadense Geneviève Dulude-de Celles, diretora de Nina Roza, filme que integra a seleção da principal competição do festival, e que está na disputa do Urso de Ouro com o brasileiro Karim Aïnouz. Na conversa, a diretora falou detalhadamente sobre a construção de Nina Roza, abordando o processo de escrita, a pesquisa no universo das artes visuais, a dimensão ética em torno de crianças prodígio e a relação do filme com temas como identidade, migração e pertencimento.
A cineasta também comentou o trabalho com as jovens atrizes, as escolhas estéticas que marcam uma mudança em relação aos seus filmes anteriores e a forma como buscou equilibrar diferentes camadas narrativas sem reduzir a história a um único ponto de vista.

Confira:
Você fala sobre duas coisas muito importantes que hoje em dia discutimos: imigração e voltar para casa. O que é casa? Ao mesmo tempo, você faz um retrato do mundo da arte, das galerias e tudo mais, e com crianças neste caso. Como foi equilibrar essas duas coisas?
Geneviève Dulude-de Celles: Muito, muito trabalho de escrita e reescrita. Desde o início eu não fui capaz de perder nenhuma dessas partes, porque quando estávamos desenvolvendo o projeto e encontrando produtores, às vezes me perguntavam por que não concentrar apenas no personagem principal e eliminar o mundo da arte ou o comentário sobre ele. Mas eu gosto de histórias com múltiplas camadas. E achei interessante ver esse personagem migrante não apenas pelo ângulo da migração, porque hoje ele está fora há 28 anos, tem um ótimo trabalho e está bem estabelecido na sua área. Isso também faz parte da identidade dele. E achei interessante desafiar essa parte da identidade: ele é um consultor de arte acostumado a trabalhar com artistas consagrados, que têm um discurso sobre o próprio trabalho, e de repente ele é confrontado com uma criança pintora e precisa falar por ela.
Muitos personagens projetam suas próprias expectativas sobre Nina. O filme é mais sobre a menina ou sobre os adultos que precisam que ela exista de determinada maneira?
Geneviève Dulude-de Celles: Acho que ambos existem e, para mim, isso era importante. Eu realmente tenho dificuldade em julgar qualquer um dos meus personagens. Sou muito empática com cada personagem, até mesmo com a galerista e a mãe. Para mim, todos eles têm seus argumentos e tudo vem de um bom lugar.
Mesmo a galerista, não acho que ela seja má ou queira explorar aquela menina. Acho que, às vezes, nos filmes tendemos a retratar vilões, mas na vida as pessoas muitas vezes tentam fazer o seu melhor. Elas têm boas intenções, mas talvez não estejam ouvindo o suficiente ou considerando todos os outros aspectos de um problema ou de uma situação.
Então depende, é uma pergunta muito difícil, e eu ainda não respondi completamente, porque acho que se eu fosse a mãe, seria difícil de perguntar. Mas o que achei interessante é que, do ponto de vista da Nina, as coisas são muito simples. Ela gosta de pintar, é simples. Está ali. Ela não se importa se está sendo exibido. Não é sobre ego. Ela está apenas no gesto puro e simples de criar.
E os adultos ao redor dela veem que ela tem talento, que tem algo especial. E a mãe é uma boa mãe. Ela pode estar lutando. Então eu posso entender porque ela quer ter mais possibilidades — o que significa mais dinheiro — para ter mais escolhas.
E a galerista pode sentir que este é um bom momento e que devem aproveitar ao máximo. Então são todas essas perspectivas diferentes que se confrontam. E eu digo que não tenho a resposta, e acho que Mihal também não tem a resposta e ainda está pensando sobre isso. É por isso que ele termina como termina.
Falando sobre esse homem que volta ao seu país, essa experiência — de onde você tirou isso? Você investigou esse sentimento de não pertencer totalmente a um lugar ou a outro?
Geneviève Dulude-de Celles: acho que é uma combinação de experiências diferentes. Acho que todos os meus filmes falam sobre identidade, de certa forma, sobre estar no meio de duas identidades. Quando eu era jovem, morava no interior do Quebec e meus pais eram um pouco excluídos, eles vinham da cidade grande. Então, na minha pequena comunidade, eu era vista como uma estranha. Mesmo sendo branca, falando a mesma língua, ainda era vista como esquisita. Então isso cria um sentimento estranho de que é de onde eu venho, mas tenho dificuldade de pertencer porque as pessoas olham para mim como se eu não pertencesse.
Essa dualidade eu entendi de dentro, porque vivi isso como criança e adolescente. Depois, quando eu tinha pouco mais de 20 anos, acabei indo para o Leste Europeu, morei lá por seis meses e trabalhei com romenos que estavam prestes a migrar para o Canadá. Fiquei mais sensível à jornada deles, aos sacrifícios que faziam, às esperanças. Quando decidem fazer isso, estão muito focados em “precisamos fazer isso” e não têm tempo de lidar com o que estão deixando para trás. Acho que isso vem depois. Desde então, fiquei mais interessada no que acontece depois da migração. No Canadá, tive muitos amigos migrantes de segunda geração.
Uma amiga próxima, cujo pai é imigrante do Uruguai nunca voltou ao país de origem e deixou lá a irmã e a mãe. Eu fiquei intrigada com isso. É engraçado porque eu fui ao Uruguai e trouxe o jornal El País para ele. Comecei a pensar em como a negação às vezes ajuda a lidar com coisas frágeis, com feridas. Talvez fosse mais fácil para ele não voltar do que enfrentar o que deixou para trás. Então comecei a imaginar o que aconteceria se ele fosse obrigado a voltar. Esse foi o início da história e da minha relação com a migração, embora eu mesma não seja migrante. Fiz muita pesquisa, conversei muito com migrantes de primeira e segunda geração em Montreal, no Canadá, vindos do Leste Europeu. Tentei ser o mais precisa possível.
Sobre o mundo das artes, você o estudou? Conversou com galerias? Porque existem muitos filmes também sobre isso. Você teve referências?
Geneviève Dulude-de Celles: Sim, fiz muita pesquisa. Primeiro sobre casos de crianças prodígio, houve vários nos últimos 30 anos. Li muito sobre o que aconteceu nesses casos. Sempre é preciso um consultor para garantir que se trata de um artista real. Não é como uma criança tocando piano — você pode dizer que é muito bem feito — mas é preciso entender se há realmente uma intenção artística por trás.
Então o consultor de arte precisa passar tempo com a família para observar a dinâmica. Eles se tornam quase detetives. Achei interessante ter um consultor de arte que de repente se torna detetive. É como o Vaticano quando investigam um milagre.
Sobre o cenário da arte contemporânea, conversei com dois consultores de arte que fazem o trabalho do Mihal, para entender como funciona, para quem trabalham. Tudo o que aparece no filme é bem próximo da realidade. O escritório de Kristoff, por exemplo, é uma galeria real com coleção de mulheres. Os colecionadores também são realmente apaixonados. Faz sentido alguém dizer: “Eu quero o quadro dela.”
Como você vê a dimensão ética de descobrir e promover prodígios como Nina?
Geneviève Dulude-de Celles: Acho que o filme aborda essa questão ética. Pela lei, a criança não pode tomar decisões por si antes dos 18 anos no Canadá. Entendo o sentimento de injustiça. Quando eu era jovem, meus pais se divorciaram e eu tive que mudar de casa. Foi uma decisão deles, não minha, e me senti desenraizada. Entendo essa raiva de querer decidir por si mesma e não poder.
Mas também entendo que uma criança pode não compreender a luta de uma mãe solteira. Talvez, se encontrássemos essa personagem daqui a 10 ou 15 anos, ela estivesse feliz por ter se mudado para a Itália. É difícil dizer.
Com as redes sociais vemos cada vez mais crianças prodígio sendo expostas. Você acha que veremos mais histórias como essa?
Geneviève Dulude-de Celles: Vivemos numa época de redes sociais e notícias instantâneas. Buscamos o extraordinário. Mas prodígios sempre existiram. Ainda falamos de Jesus. Harry Potter é o escolhido. Como consumidores de histórias, somos atraídos pelo extraordinário, pelo mágico.
Como foi trabalhar com as atrizes mirins?
Geneviève Dulude-de Celles: São gêmeas. Foi ótimo. Eu queria encontrar Nina em Montreal ou Quebec, que falasse francês, porque gosto de trabalhar de perto com atores, especialmente crianças. Fomos ajudados pelo Centro Comunitário Búlgaro e vimos muitas crianças. Encontramos Sophia e Ekaterina, e sentimos que havia algo especial nelas. Uma era mais confortável com raiva e expressividade; a outra, com vulnerabilidade sutil. Decidimos combinar essas qualidades para criar as duas faces de Nina. Foi uma grande aventura. Elas viajaram conosco para a Bulgária, caminharam no tapete vermelho. Espero que essa experiência permaneça com elas na vida adulta e que encontrem uma forma de se expressar como artistas.
Sobre a estética do filme — normalmente histórias de migração usam realismo. Mas aqui também há o mundo da arte. Como foi sua visão ao escrever?
Geneviève Dulude-de Celles: Meus filmes anteriores eram hiper-realistas. Mas neste eu quis algo diferente, porque a jornada de Mihal é cheia de emoção, memória, melancolia. Não é apenas realidade objetiva, mas um ponto de vista subjetivo. Pensei muito nos meus primeiros amores no cinema, como Fellini e “O Conformista” de Bertolucci, com simbolismo forte. Encontramos locações na Bulgária que simbolizavam o que não era dito nos diálogos — edifícios industriais abandonados com traços do comunismo, roupas tradicionais búlgaras. A arquitetura, a paisagem, tudo conta a história do país. Foi divertido trabalhar isso com o diretor de fotografia, que é um artista incrível.
É bonito como você permite que Nina tome uma decisão na narrativa. Você poderia comentar sobre a construção dessa cena, que é tão comovente?
Geneviève Dulude-de Celles: Ao longo da história, ela sente que perde o controle. Pintar é um gesto simples e puro para ela. Ela retoma o controle. É um gesto de rebeldia contra os adultos. Isso também desafia o consultor de arte, porque para ele as obras têm valor. Mas ele prefere ouvir Nina.
Seus filmes sempre falam de identidade. Isso continua?
Geneviève Dulude-de Celles: Talvez sim. Pessoas muito seguras de si não me interessam tanto. Acho mais interessantes aquelas que se questionam. Meu próximo projeto será co-dirigido e co-escrito, será bem diferente, com elementos de gênero, ambientado no Caribe, mais próximo do Brasil. Estou animada com essa nova colaboração.
Nota: Entrevista realizada em roundtable


Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



