Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Bate-papo com Vinícius Oliveira, o eterno Josué de Central do Brasil

Figura emblemática no cinema brasileiro, Vinícius é um dos destaques do 2º Festival de Cinema de Xerém.

Além de juri em uma das mostras, Vinícius de Oliveira também ministrou a Oficina de Atuação para Câmera. (Imagem: Alvaro Goulart)

O ator teve sua vida transformada através do cinema quando Walter Salles o convidou a dar vida ao pequeno Josué, de Central do Brasil. Quase três décadas depois e com diversos filmes em seu currículo, Vinícius participa do 2º Festival de Cinema de Xerém ministrando a Oficina de Atuação e sendo jurado da Mostra Competitiva Nacional de Curtas. Na noite de premiações, Vinícius conversou com o Cinema com Crítica sobre trabalhar com cinema e as produções independentes:

A.G.: Vinícius, você começou tendo a sua vida modificada através do cinema. E você também é um agente de mudança, treinando, dando oficina, que nem você deu hoje, lá na EBAV para esses novos jovens, para esses novos talentos. Eu queria que você discutisse um pouco sobre a responsabilidade de trabalhar também nessa frente, onde você não só leva a magia do cinema para os espectadores, mas também leva um outro tipo de magia, aquela que muda a vida das pessoas dentro da sua realidade através da arte.

V.O.: Cara, eu acho que é uma obrigação nossa como fazedores de cultura. Não só a gente desenvolver trabalhos, convidado ali para fazer um filme ou uma peça… ou uma série. Mas também passar conhecimento tendo contato direto com pessoas, dando cursos, abrindo oportunidades, trocando ideias, participando de rodas. Eu acho que é fundamental esse tipo de conhecimento. Claro, você tem escolas, de uma forma mais acadêmica, e tem agentes profissionais, que a gente faz. A gente está sempre ali com a mão na massa. Então é diferente esse tipo de conhecimento quando a gente vai passar para outras pessoas. Então eu acho muito importante estar nesse lugar também de compartilhar o que a gente sabe, o que a gente aprende no dia a dia dos sets de filmagens. Principalmente eu, que faço cinema e séries. E eu vejo que a gente tem escolas de cinema, mas não é escolas de interpretação para cinema, para câmera. Tem escolas de teatro que você tem ali a coisa da interpretação e tudo mais. Mas não tem, infelizmente, interpretação para câmera, para cinema. Então é nesse modo que eu consigo passar um pouco desse aprendizado para as pessoas, dando cursos…e outros profissionais também. Então eu acho fundamental estar nesse lugar também.

A.G.: Você está muito envolvido com cinema independente, né? A gente trata muito desse cinema de guerrilha, onde todos exercem quase todas as funções dentro do set. Como é que é essa dinâmica? O que é que tem de diferente do cinema que tem um maior orçamento, que tem uma produção mais robusta, para esse cinema mais enxuto que… enfim, que tudo é muito planejado? E a realização também… Como resultado, a questão da realização, do brilho que traz no olhar a pessoa que está tendo o sonho realizado de ver seu filme, o seu projeto, germinando pequenininho e ver ele na tela grande… esse resultado final? Esse filme potente que é mudar a vida dos outros através da sua história?

V.O.: Cara, é isso, são realidades tão distintas, né. Quando você está numa superprodução, cada setor é muito certinho, muito bem dividido, tem os profissionais, a quantidade certinha de profissionais. Agora, quando você faz um filme mais independente, mais BO, como a gente fala, sem grana, é isso: você tem que compartilhar das outras funções também. Eu acho fundamental. Eu acho um aprendizado, uma escola. Porque um set de filmagem, por mais que você saiba exatamente a sua função, é fundamental você saber as outras funções, você ter um entendimento do que está acontecendo. Porque o set é uma máquina que funciona muito perfeitamente. E o filme só dá certo se funcionar dessa forma. Então, quando você começa a fazer um filme pequeno, que você tem que acumular outras funções, necessariamente você vai estar aprendendo as outras profissões e vai estar respeitando o tempo de cada um, o que cada um faz. Então eu acho isso muito proveitoso quando você está nessa situação, apesar de não ser a melhor. E depois, que aí o filme fica pronto, você lança. Você manda para festivais. Você vê ali o que deu certo, o que funcionou. É muito bonito estar nesse lugar também.

Mas, ao mesmo tempo, eu acredito que cinema tem que ser feito com grana, porque é uma fonte de subsistência nossa. A gente precisa sobreviver, a gente precisa pagar nossas contas. E é um trabalho. Então, eu acho que o cinema… a gente não pode romantizar o cinema sem dinheiro. Apesar de incentivar, porque eu acho que é de onde a gente tem que começar, porque senão a gente também não começa de lugar nenhum…, mas cinema, de fato, eu acho que tem que ser feito com grana e todo mundo ganhar bem. Xerém está fazendo isso, essa divulgação, mostrando para essa galera que é possível viver de cinema e mostrando isso para a galera que é periférica.

A.G.: Eu digo que eu vi no Festival do Rio do ano passado, um filme que você participou, que foi o Ana, que traz uma narrativa da Pavuna. Sim. Que é já no limite do município, do subúrbio carioca. E é possível ganhar dinheiro, se sustentar com a arte. Agora eu queria que você pudesse rebobinar essa fita para o fim dos anos 90. O que você teria a dizer para o Vinícius de Oliveira ali, que tá começando do lado daquele titã chamado Fernanda Montenegro?

V.O.: Rapaz, cara, acho que não teria muito o que dizer, não, você falar, cara, parabéns, que sorte que você tá tendo, tá, de estar trabalhando, de estar começando no cinema, numa arte tão incrível, tão mágica, e tá ao lado de Fernanda Montenegro, Walter Salles, aí tem mais Marília Pera, Matheus Nachtergaele, Othon Bastos, uma galera incrível, assim. Parabéns e faz direitinho. Eu acho que é isso, cara. porque, né… do jeito que eu comecei, enfim… é claro, é raro, é difícil, mas foi uma oportunidade incrível que, enfim, eu soube aproveitar e tô aqui até hoje, né, correndo atrás.

A.G.: Enquanto crítico, eu escrevo num site de crítica (Cinema com Crítica).  eu queria que você falasse a respeito da importância da crítica e do jornalismo também olharem para essas produções independentes, com o mesmo carinho e com a mesma atenção, com o que geralmente é oferecido para as grandes produções, para os blockbusters.

V.O.: Perfeito! Eu acho fundamental o papel de vocês da crítica e do jornalismo. Porque é dessa forma que as pessoas acabam olhando mais para os trabalhos. E, é claro, necessita de um olhar generoso, principalmente nessas produções que estão começando, e muitas das vezes com poucos recursos. Se a gente vai ver uma história nesse lugar, eu acho fundamental o entendimento da mensagem que está sendo passada principalmente para o público.

Eu sempre digo que o cinema a gente não faz para a gente mesmo nem para os críticos. Eu falo, cara, eu não faço cinema para mim, para a minha turma. Eu gosto de fazer cinema para a população. Quero dialogar com essa população. E também não faço cinema para os críticos, não. Apesar de, quero que eles vejam, deem suas opiniões. Mas, para mim, a arte, sobretudo, precisa dialogar com uma população muito maior. E não só para o nicho. Então, acho fundamental esse olhar generoso da crítica, principalmente para esses trabalhos menores, que não são tão pretenciosos. Claro, quando é uma coisa grande, envolve um monte de gente, gente grande, grana, aí tudo bem. Aí dá para dar uma canetada maior. Mas é nesse lugar de pequenininho, independente, que eu acho que a generosidade faz parte. E eu queria mandar um abraço pro Cinema com crítica e pro Cria de Locadora!

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