A Operação Condor foi o nome dado à aliança entre as ditaduras militares instaladas nos países sul-americanos, com o apoio dos Estados Unidos, para o monitoramento e a repressão via sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento de opositores políticos dos regimes de exceção. Alguns historiadores ou teóricos da conspiração especulam que tenha sido essa aliança, construída no Chile durante o regime de Pinochet, que tenha sido responsável por assassinar disfarçadamente os ex-presidentes exilados Juscelino Kubitschek e João Goulart – que supostamente teriam engolido as diferenças ideológicas e individuais e, juntos por Carlos Lacerda, defenderiam a retomada democrática no país. Ao menos, é nisto que acredita a jornalista Silvana (Mel Lisboa), quando esbarra em fatos e circunstâncias impossíveis de ignorar neste A Conspiração Condor.
Dirigido e coescrito por André Sturm, que faz uma ponta no filme como o crítico cultural que explica à Silvana o que significa a anotação o candidato da Manchúria, A Conspiração Condor é didática – dentro da linha investigativa que percorre – e cinematograficamente correto, e isto constitui seus maiores trunfo e defeito. Ambientada em 1976, o ano da estreia do clássico filme de jornalismo Todos os Homens do Presidente – que detalha a investigação dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein que resultaram na renúncia do Presidente Richard Nixon -, a narrativa apresenta Silvana, já cansada do trabalho de cobertura da coluna social, à procura de desafios maiores, iguais à colega de redação Marcela (Maria Manoella). Certo dia, Silvana encontra provas de que a causa da morte de Juscelino pode ter sido forjada e, daí, com a ajuda do amigo Juan (Dan Stulbach), começa a desenrolar o novelo que pode revelar uma conspiração no alto escalão responsável por assassinar os líderes políticos brasileiros.

A narrativa é certinha. Isto já começa com a escalação de Mel Lisboa, uma atriz hábil em reproduzir a transformação de Silvana, apesar de manter até o instante final a ingenuidade e ausência de malícia de quem abriria a porta sorrindo para o seu algoz entrar. Responsável por uma editoria considerada fútil, Silvana deixa de ser encarada como alienada ou inofensiva pelo regime opressor para despertar a atenção e preocupação à medida que realiza as perguntas certas para as pessoas certas e olha para os fatos que os outros convenientemente, ou não, ignoram. Silvana é a catalisadora dos eventos que colocam o poder contra a parede, em uma construção envolvente, porque a cada descoberta, surge uma avenida de possibilidades diante dela. Mas essa mesma construção também é cômoda, e até preguiçosa, levando Silvana – e depois Marcela – a encontros que revelam mais coisas, que revelam mais coisas, até o clímax em que tudo parece estar sobre a mesa.
Essa fórmula já conhecida da narrativa termina por diluir, em vez de explorar, a boa reconstrução da redação do jornal na década de 70, feito pela diretora de arte Ana Rita Bueno, inclusive com acessórios curiosos como o caderno de anotações em cuja capa está o desenho da atriz Louise Brooks – dos primórdios de Hollywood – , ou os figurinos de Isis Cecchi, que, combinados com a fotografia lavada de tons marrons e amarelos, aludem ao passado e reproduzem o estilo da época, enquanto dialogam com a personalidade dos personagens. Por falar na fotografia, o trabalho de Andradina Azevedo é igualmente didático: o pano de fundo desestabiliza-se após cada descoberta, e os planos se tornam mais apertados à medida em que a investigação aprofunda-se.

Ironicamente, essa linguagem visual prejudica a narrativa, porque também a sufoca. Ora por preciosismo, por exemplo quando Sturm (no papel de ator e diretor) explica a menção feita ao filme Sob o Domínio do Medo – o título brasileiro do filme The Machurian Candidate -, e logo na sequência uma personagem é enquadrada em primeiríssimo plano, encarando a câmera, da mesma forma que os personagens foram na refilmagem dirigida por Jonathan Demme. Ora por uma forma de didatismo visual, tão comprometedor quanto é o didatismo e exposição contidos no roteiro. O que é decepcionante, já que o filme funciona muito bem quando fica à vontade, quando pode respirar e ser tão espontâneo quanto é Silvana, e não com os quadros bem marcadinhos, como se estivéssemos em uma produção formalmente de televisão. Isto também pode ser percebido na montagem, sobretudo quando o corte é no momento exato da fala de uma personagem.
E um bom momento de enxergamos o didatismo é quando Sturm apresenta uma versão brasileira do experimento de Milgram, no qual o cientista estava interessado em entender como pessoas consideradas comuns ou médias podiam ser influenciadas por figuras autoritárias a cometer atrocidades. O contexto de Milgram é do pós-Segunda Guerra Mundial, embora possa ser aplicado em contexto de regimes de exceção, como a Ditadura Militar. Durante a cena na qual um professor universitário apresenta o experimento à Silvana, somos como ela: alunos tomados pela mão até que possamos compreender alguma informação que nos falta. Isto funciona dentro do contexto de sala de aula, ou dentro da situação na qual Silvana está. É menos eficaz na arte, ainda que explique a atitude de homens e mulheres que vigiam, censuram e banem ou, pior, que sequestram, torturam e matam até mesmo colegas de trabalho, amigos e familiares durante regimes de exceção.
A Conspiração Condor até poderia ser a obra de ficção baseada em especulações mais ou menos factuais que faltava ao cinema brasileiro de jornalismo, ou a análise de um elemento conjectural menos debatido da Ditadura Militar, mas é só a sombra do bom filme que poderia ter sido.
O filme estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira, 09/04.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

