O cinema de ação brasileiro que não despreza o panorama social ou a temática política
O cinema brasileiro, historicamente mais inclinado à comédia, ao drama e ao documentário, com ênfase social e política, raramente flertou com o gênero de ação, e não faltam motivos estruturais e criativos para isto. Mesmo obras paradigmáticas como Tropa de Elite utilizam a ação mais como uma extensão orgânica e contextual da profissão do Capitão Nascimento, do que um imperativo estético de uma cultura imediatamente associada ao cinema hollywoodiano. Neste sentido, Rio de Sangue, dirigido por Gustavo Bonafé (de Legalize Já, Chocante e O Doutrinador), desponta como o raro exemplar nacional que não só incorpora a ação como pano de fundo narrativo, mas o coloca em primeiro plano.
Ambientado no Pará, em territórios indígenas e florestais invadidos pelo garimpo ilegal, o longa articula algumas camadas dramáticas sem permitir que estas desacelerem a ação, ou que este gênero sufoque o elemento humano no central da história. E que consiste no encontro entre a policial Patrícia (Giovanna Antonelli), afastada da corporação após uma ação desastrosa contra um quadrilha do tráfico de drogas, e a sua filha, a médica Luiza (Alice Wegmann), que presta serviços a tribos indígenas no interior da floresta amazônica. Embora ainda haja amor e afeto, esses sentimentos parecem estar enterrados mais profundamente do que pepitas de ouro, e depois de um breve, mas ácido encontro, Luiza parte para o interior da floresta e Patrícia fica para trás. Os eventos que sucedem resultam no sequestro de Luiza, para que trate os ferimentos do filho de Polaco (Antônio Calloni), e na busca… implacável de Patrícia para resgatar a filha.
O que é interessante é a forma como o filme equilibra os impulsos imediatos. A ação, aqui, não anula o drama; tampouco o drama frustra o fluxo da ação. Há uma consciência de ritmo que permite que sequências fisicamente intensas coexistam com momentos de elaboração emocional, sem que haja uma negativa do que faz a ação ser ação, nem uma ruptura do elemento humano para que nos importemos ou nos envolvamos com a narrativa. Trata-se de um cinema de corpos em movimento, corpos sujos, feridos e exauridos que correm, lutam e sobrevivem, e que também são corpos atravessados por vínculos afetivos e traumas que precisam ser elaborados.

Nesse contexto, uma das decisões mais instigantes da narrativa reside na escolha de seu ponto de vista: a narração conduzida por Fidélis Baniwa, que interpreta Mário, um personagem indígena deslocado de sua própria comunidade. Exilado como flecha que perdeu o rumo, isolado senão pela companhia do álcool e cujas ações são ambíguas e catalisadoras de conflitos, Mário ocupa uma zona liminar de quem não é parte do meio e não vive as tradições de seu povo, e que jamais seria integrado dentro da lógica do mundo branco, ainda que seja contaminado por ele.
Mário é, simultaneamente, agente e testemunha. Ação e olhar. Diferentemente dos demais personagens, intrusos, de alguma forma, num espaço que não lhes pertence, ele é o único que não está de passagem – igual Patrícia ou Luiza -, o único cuja trajetória está associada à jornada espiritual até de restabelecimento de sua conexão com aquele território. É nesse ponto que Rio de Sangue revela uma ambição para além da ação: a tentativa de articular um cinema de gênero com uma reflexão e preocupação sobre a exploração e recolonização de terras indígenas em frente e também atrás das câmeras. Embora a presença de personagens indígenas e, mais importante, de consultores indígenas no processo de produção vá impedir que o filme se reduza a um olhar externo – colonialista portanto -, mesmo que não elimine completamente as tensões típicas dessa representação.
Do lado antagonista, o filme adota uma estratégia dupla. Enquanto parte dos vilões é construída de maneira mais unidimensional, quase como corpos descartáveis a serviço da ação, e não há nada de errado nisto, o Polaco de Antônio Calloni se destaca como uma figura mais complexa. Movido por uma obsessão quase patológica pelo ouro que idolatra, ele encarna não só a ganância, porém a lógica exploratória que transcende o personagem. E Calloni, com sua experiência, imprime ao personagem uma postura ameaçadora, que dispensa os gestos ameaçadores de seu sobrinho vivido por Felipe Simas, mas investe estrategicamente no tom de voz e nos maneirismos do personagem.

Ainda assim, o roteiro por vezes recorre a soluções expositivas que revelam certa pressa em conduzir a narrativa a seus pontos de virada, e o melhor exemplo disto é o momento em que o personagem de Vinícius de Oliveira revela onde está sendo mantida Luiza a Patrícia. E um roteiro escrito a tantas mãos deveria zelar para que estas informações fossem mais orgânicas, e menos como etapas necessárias para que a ação prossiga. Há também uma tendência à simplificação de alguns conflitos secundários, o que resulta em personagens que orbitam a trama sem adquirir uma dimensão dramática para além da utilidade imediata, e logo me vem ao caso a presença de um policial corrupto.
De todo modo, Rio de Sangue é, antes de tudo, um exercício de eficiência. Um filme que realiza escolhas e entende suas prioridades, e as executa com convicção. A direção de Bonafé demonstra domínio do gênero, explorando locações naturais com inteligência e construindo uma encenação que privilegia a ação a partir de sua consequências imediatas, e não meramente de sua pirotecnia frontal. A fotografia, em particular, contribui para essa experiência ao capturar a densidade da floresta não apenas como um cenário, mas como entidade hostil; e, aliado a isto, trazendo consigo a sensação de desgaste físico e também emocional, o impacto direto da ação e do esforço sobre corpos e a adrenalina decorrente do gênero.
Ao apostar na ação como a linguagem central, sem abrir mão de um comentário social relevante, a narrativa amplia as possibilidades de nossa produção audiovisual. E, ao fazê-lo, a direção sugere que talvez o verdadeiro desafio não esteja entre escolher o entretenimento ou a reflexão, mas quem sabe encontrar formas de fazer com que ambos coexistam. Um filme bastante eficiente.
Rio de Sangue estreia nos cinemas brasileiros quinta-feira, 16/04.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


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