O mito hispânico latino-americano imigrou para o Brasil
O mito da Llorona, a mulher que chora, já foi apropriado em produções latino-americanas, ou não, que exploraram esta figura de maneira frontal ou alegórica: de um lado, A Maldição da Chorona (2019), de Miguel Chaves, explorou o horror de modo puro; já A Chorona (2019), de Jayro Bustamante, associou o folclore à impunidade de décadas dos crimes cometidos durante o regime militar guatemalteco. De certo modo, estas obras reinscrevem a personagem que assombra enquanto chora a morte dos seus filhos em contextos históricos específicos e estimulantes, como é o caso de A Mulher que Chora. A personagem associada ao imaginário latino-americano de origem hispânica agora está inserida dentro do contexto brasileiro e serve de atravessamento ao drama de escolhas e amadurecimento do jovem Miguel.
A Mulher que Chora é uma presença difusa e impressa em todas as personagens do sexo feminino na narrativa. Uma presença espectral, inclusive, mas no sentido mais amplo do termo: menos uma entidade concreta e mais um eco que reverbera nas ausências e nos silêncios das personagens que lamentam: a secretaria doméstica e imigrante venezuelana Carmen, a mãe divorciada Elena, a avó Isabel. A narrativa escrita e dirigida pelo também imigrante venezuelano George Walker Torres desloca o eixo do sobrenatural para a experiência subjetiva e imaginativa, ancorando-se no olhar de Miguel (Zayan Medeiros), uma criança cuja percepção do mundo ainda não distingue plenamente o que pertence ao domínio do real e o que emerge do imaginário.
Miguel vive em uma casa isolada, proibido de deixá-la e explorar a vegetação densa ao redor. Está praticamente apartado do mundo, e se não está inteiramente é apenas porque frequenta a escola – embora esta não pareça ter um peso relevante dentro de suas experiências. A separação dos pais, a ausência paterna caracterizada pelo enquadramento pelas costas ou à distância, que mal permitem que nós vejamos o seu rosto, e a instabilidade afetiva da mãe, criam um ambiente de afeto rarefeito, senão pelo relacionamento com Carmen, que encontra em Miguel um eco do filho. O contexto até lembra o de Que Horas Ela Volta?, embora a ambição artística da narrativa seja outra.

Há, claro, uma discussão política sobre a imigração e o deslocamento forçado de Carmen de seu país para o Brasil, onde se sujeita a ser a empregada doméstica de uma família de classe média-alta – ao menos considerando a dimensão da propriedade onde estão. Interpretada por Samantha Castillo, Carmen não é somente a substituta materna, mas é ambígua, porque é quem encena a moral e conflito narrativo, e quem mais chora – sem chorar literalmente – a perda de seu país, de sua vida, de seu filho. De um lado, o amadurecimento infantil embora suspenso após o deslocamento (também forçado!) à propriedade da avó; do outro, a maternidade interrompida em razão da imigração. E o filme não aborda o tema migratório de forma simplista, mas o inscreve dentro da narrativa, ao lado das relações de classe ou de tensões políticas. A arma de fogo, ou opiniões da família ditas na mesa de almoço, apenas reforçam o posicionamento ideológico daquela família – que não precisa ser expositiva – mas que é perceptível.
É que a obra evita qualquer didatismo. Em vez de explicitar seus temas, prefere sugeri-los por meio de uma mise-en-scène rigorosa e até opaca. Um filme meticulosamente encenado, com planos estáticos em que cremos ver algo que talvez não esteja ali, com a profundidade de campo ampla o bastante para que o olhar passeie e devore a imagem, dentro de uma montagem contida que valoriza o estar ou viver. A atmosfera é construída para que o visível seja atravessado pelo invisível, alimentado pelo folclore contado por Carmen, e que é tão real quanto Miguel acreditar nele. Ao lado disto, a edição sonora desempenha um papel essencial de imersão dentro de um ambiente cercado por natureza virgem, ruídos indistintos ao lado de silêncios delongados.

Em tempos de narrativas cada vez mais TikTokers, A Mulher que Chora exige um tipo diferente de olhar do espectador, um engajamento que passa menos pela expectativa de acontecimentos e mais pela disposição em habitar aquele universo, em compartilhar da experiência de Miguel. E é aí que o filme se torna mais poderoso… ao não revelar para onde Elena vai todas as noites (embora possamos inferir), nem se aprofundar nos sentimentos de Carmen (embora também possamos inferir). A narrativa evita qualquer tentativa de análise psicológica e emocional mais imediata e deixa muito a nosso cargo. O que existe são apenas os personagens em trânsito, numa propriedade que mais parece parada no tempo, um entre-lugar diria.
Nesse sentido, a incursão na floresta, onde o real e o imaginário se confundem de maneira mais explícita, pode ser lida menos como um clímax narrativo e mais como um rito de passagem. Ao buscar a Llorona, Miguel não está somente confrontando um mito, mas tentando dar forma a suas próprias angústias, a seus medos e, sobretudo, a suas perdas. Eis que o horror não está na existência de assombrações, espíritos ou fantasmas, mas na realidade que os cria: o abandono, a desigualdade, o silenciamento, a violência que gera o deslocamento, elementos que ajudam a compreender o mundo, e mais especificamente, o Brasil de hoje.
A Mulher que Chora estreia nos cinemas brasileiros quinta-feira.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



