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A Mulher que Chora

Classificado como 4 de 5

A Mulher que Chora

2026

75 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: George Walker Torres

O mito hispânico latino-americano imigrou para o Brasil

O mito da Llorona, a mulher que chora, já foi apropriado em produções latino-americanas, ou não, que exploraram esta figura de maneira frontal ou alegórica: de um lado, A Maldição da Chorona (2019), de Miguel Chaves, explorou o horror de modo puro; já A Chorona (2019), de Jayro Bustamante, associou o folclore à impunidade de décadas dos crimes cometidos durante o regime militar guatemalteco. De certo modo, estas obras reinscrevem a personagem que assombra enquanto chora a morte dos seus filhos em contextos históricos específicos e estimulantes, como é o caso de A Mulher que Chora. A personagem associada ao imaginário latino-americano de origem hispânica agora está inserida dentro do contexto brasileiro e serve de atravessamento ao drama de escolhas e amadurecimento do jovem Miguel.

A Mulher que Chora é uma presença difusa e impressa em todas as personagens do sexo feminino na narrativa. Uma presença espectral, inclusive, mas no sentido mais amplo do termo: menos uma entidade concreta e mais um eco que reverbera nas ausências e nos silêncios das personagens que lamentam: a secretaria doméstica e imigrante venezuelana Carmen, a mãe divorciada Elena, a avó Isabel. A narrativa escrita e dirigida pelo também imigrante venezuelano George Walker Torres desloca o eixo do sobrenatural para a experiência subjetiva e imaginativa, ancorando-se no olhar de Miguel (Zayan Medeiros), uma criança cuja percepção do mundo ainda não distingue plenamente o que pertence ao domínio do real e o que emerge do imaginário.

Miguel vive em uma casa isolada, proibido de deixá-la e explorar a vegetação densa ao redor. Está praticamente apartado do mundo, e se não está inteiramente é apenas porque frequenta a escola – embora esta não pareça ter um peso relevante dentro de suas experiências. A separação dos pais, a ausência paterna caracterizada pelo enquadramento pelas costas ou à distância, que mal permitem que nós vejamos o seu rosto, e a instabilidade afetiva da mãe, criam um ambiente de afeto rarefeito, senão pelo relacionamento com Carmen, que encontra em Miguel um eco do filho. O contexto até lembra o de Que Horas Ela Volta?, embora a ambição artística da narrativa seja outra.

Carmen e Miguel: personagens que substituem aqueles de que sentem falta.

Há, claro, uma discussão política sobre a imigração e o deslocamento forçado de Carmen de seu país para o Brasil, onde se sujeita a ser a empregada doméstica de uma família de classe média-alta – ao menos considerando a dimensão da propriedade onde estão. Interpretada por Samantha Castillo, Carmen não é somente a substituta materna, mas é ambígua, porque é quem encena a moral e conflito narrativo, e quem mais chora – sem chorar literalmente – a perda de seu país, de sua vida, de seu filho. De um lado, o amadurecimento infantil embora suspenso após o deslocamento (também forçado!) à propriedade da avó; do outro, a maternidade interrompida em razão da imigração. E o filme não aborda o tema migratório de forma simplista, mas o inscreve dentro da narrativa, ao lado das relações de classe ou de tensões políticas. A arma de fogo, ou opiniões da família ditas na mesa de almoço, apenas reforçam o posicionamento ideológico daquela família – que não precisa ser expositiva – mas que é perceptível.

É que a obra evita qualquer didatismo. Em vez de explicitar seus temas, prefere sugeri-los por meio de uma mise-en-scène rigorosa e até opaca. Um filme meticulosamente encenado, com planos estáticos em que cremos ver algo que talvez não esteja ali, com a profundidade de campo ampla o bastante para que o olhar passeie e devore a imagem, dentro de uma montagem contida que valoriza o estar ou viver. A atmosfera é construída para que o visível seja atravessado pelo invisível, alimentado pelo folclore contado por Carmen, e que é tão real quanto Miguel acreditar nele. Ao lado disto, a edição sonora desempenha um papel essencial de imersão dentro de um ambiente cercado por natureza virgem, ruídos indistintos ao lado de silêncios delongados.

O olhar é a forma de contato de Miguel com o mundo desconhecido.

Em tempos de narrativas cada vez mais TikTokers, A Mulher que Chora exige um tipo diferente de olhar do espectador, um engajamento que passa menos pela expectativa de acontecimentos e mais pela disposição em habitar aquele universo, em compartilhar da experiência de Miguel. E é aí que o filme se torna mais poderoso… ao não revelar para onde Elena vai todas as noites (embora possamos inferir), nem se aprofundar nos sentimentos de Carmen (embora também possamos inferir). A narrativa evita qualquer tentativa de análise psicológica e emocional mais imediata e deixa muito a nosso cargo. O que existe são apenas os personagens em trânsito, numa propriedade que mais parece parada no tempo, um entre-lugar diria.

Nesse sentido, a incursão na floresta, onde o real e o imaginário se confundem de maneira mais explícita, pode ser lida menos como um clímax narrativo e mais como um rito de passagem. Ao buscar a Llorona, Miguel não está somente confrontando um mito, mas tentando dar forma a suas próprias angústias, a seus medos e, sobretudo, a suas perdas. Eis que o horror não está na existência de assombrações, espíritos ou fantasmas, mas na realidade que os cria: o abandono, a desigualdade, o silenciamento, a violência que gera o deslocamento, elementos que ajudam a compreender o mundo, e mais especificamente, o Brasil de hoje.

A Mulher que Chora estreia nos cinemas brasileiros quinta-feira.

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