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Cinco Tipos de Medo

Classificado como 3 de 5

Cinco Tipos de Medo

2026

108 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Bruno Bini

A violência que devora os centros urbanos em um filme coral

O cinema denominado coral, por exemplo Babel ou Crash: No Limite, pretende organizar o caos da experiência humana numa estrutura narrativamente simétrica – em que os personagens desempenham papéis de mesma ordem dentro da trama – e tematicamente causal. O entrelaçamento de destinos é o elemento chave para a compreensão das experiências individuais e para a produção de sentido das vidas criadas pelos roteiristas. Nenhuma vida é individualmente considerada e nenhuma ação existe sem acarretar consequências em cadeia. E este Cinco Tipos de Medo – o grande vencedor do Festival de Gramado do ano passado – é o estudo sobre histórias cruzadas e marcadas pela perda, pela violência e pelo desejo de reparação, a fim de tentar compreender os efeitos do crime na sociedade.

Com o roteiro escrito e dirigido por Bruno Bini, que também assina a montagem, a narrativa apresenta cinco personagens: Murilo (João Vitor Silva, de O Agente Secreto), um músico em luto depois da perda da mãe para a Covid, envolve-se com Marlene (Bella Campos), sua enfermeira durante a pandemia. Marlene, porém, está num relacionamento abusivo com o chefe do crime organizado vivido por Xamã – uma força que atrai não somente aquelas vidas, mas ainda a da policial e mãe interpretada por Bárbara Colen e do advogado vivido por Rui Ricardo Diaz. A violência, ou o produto desta, é a linguagem que conecta todas estas vidas que, de outra forma, jamais se tocariam.

Até pela natureza do projeto, o roteiro é imediatamente engenhoso ao articular cinco personagens, cinco histórias e pontos de contato que, em um primeiro momento, sugerem um fatalismo inevitável. Contudo, este tipo de construção, quando orientada ao fim específico, carrega consigo um risco: ao priorizar os encaixes e os momentos em que as ações, reações e consequências promovem encontros e/ou desencontros, Bini sacrifica os personagens, limitando-os, e os acontecimentos, banalizando-os. Por exemplo, as decisões dramáticas de Murilo, para além de atreladas ao desenvolvimento emocional e psíquico do personagem, parecem as exigências das engrenagens desta narrativa que, caso contrário, não funcionaria adequadamente. É como se os personagens estivessem a serviço da estrutura e da ambição do diretor, em vez de ser o contrário.

Bella Campos interpreta uma mulher tentando fugir de um relacionamento abusivo.

Esse problema também se manifesta na maneira como o filme enfrenta os seus momentos de maior potencial dramático. As perdas ou os dilemas morais transformam-se em atalhos para que a narrativa siga adiante. Não sinto a progressão natural dos eventos, só o conceito e o desejo de que os elementos caminhem adiante até o inevitável desfecho. O resultado é um esvaziamento, pois enquanto eu até admiro a já mencionada engenhosidade, lamento que isto sacrifique a matéria prima humana e narrativa.

Ainda assim, seria injusto ignorar os méritos do filme. Há uma consistência e uniformidade no elenco bastante admirável, que sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro não oferece o mesmo nível de complexidade. Bárbara Colen, por exemplo, imprime à sua personagem uma humanidade simultaneamente contida e explosiva, enquanto Rui Ricardo Diaz constrói uma presença determinada em alcançar a sua vingança. Já Xamã, em um papel que poderia facilmente resvalar no estereótipo, foge deste em momentos de breve vulnerabilidade.

A montagem, também premiada no Festival de Gramado, desempenha um papel crucial na costura dessas múltiplas histórias. Além de criar um ritmo de thriller dentro de uma tapeçaria dramática, Bini alterna entre as linhas narrativas mantendo envolvido o público. E, em filmes iguais a este, é fácil perder a mão e tornar o contato com os personagens rarefeito, favorecendo este personagem em detrimento daquele ou apenas abandonando linhas narrativas quando exaurem a sua função (é o que acontece, de certo modo, com a personagem interpretada por Rejane Faria, que transita mas não integra o núcleo central da narrativa). Mas, igual ao roteiro, a montagem é uma faca de dois gumes, já que tão esmerada, parece reforçar a ideia de que estamos diante de um quebra-cabeças sendo organizado em tempo real. É tudo perfeitamente encaixado em um mundo que deveria ser imperfeito.

Bárbara Colen é uma policial cuja sede de vingança é justificada pela perda do filho.

Um mundo no qual a violência, especialmente aquela proveniente do crime urbano, não se limita aos seus agentes diretos, mas reverbera de maneira imprevisível, atingindo indivíduos que, em princípio, estariam à margem desse universo. É uma reflexão pertinente, sobretudo em um contexto brasileiro no qual as fronteiras entre o “dentro” e o “fora” da violência são cada vez mais difusas, em bairros incapazes de discernir onde começa e termina o território da facção. Nesse sentido, o filme acerta ao sugerir que ninguém está completamente isolado dessas dinâmicas, e que mesmo aqueles sem culpa no cartório podem ser arrastados por forças que não controlam ou somente porque as ondas do destino os arrastaram.

Ao final, Cinco Tipos de Medo se revela uma narrativa que oscila entre o interesse no tema sociológico e a frustração na execução coral. É, sem dúvida, um filme competente em sua construção. Competente até demais. Sustentado por um roteiro engenhosamente escrito e uma montagem meticulosamente feita para que todos estejam no ponto previsto no terceiro ato. E esta é a sua falha maior: ao privilegiar a sua arquitetura, o potencial dramático e emocional das histórias e dos personagens se dilui dentro da estrutura que termina se sobressaindo. Como mosaico, funciona. Como experiência, porém, deixa a sensação de que já vimos essa mesma imagem ser composta de maneira mais potente em outras ocasiões.

Cinco Tipos de Medo estreia quinta-feira, 09/04, nos cinemas brasileiros.

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1 comentário em “Cinco Tipos de Medo”

  1. Chauke Stephan Filho

    O tipo racial das personagens foi bem concebido. Antes da imigração haitiana, quase não se via negros em Cuiabá. Os nossos brancos são morenos, no entanto. Bini mostrou isso e acertou, pois, ao evitar africanizar o elenco, como normalmente faz aqueles obedientes ao padrão esquerdista politicamente correto.

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