Crítica em português
Com Say Less, Michael Kellman faz sua estreia na direção de um longa repleto de maturidade na abordagem de feridas familiares, em comédia absurda, protagonizada por personagens densos, realistas e sem caricaturas.
As comédias adolescentes e coming of age, ao final dos anos setenta e início dos anos oitenta, se tornaram uma tradição do cinema norte-americano. De musicais como Grease, de Randal Kleiser, aos clássicos de John Hughes, com o passar dos anos fomentou-se uma espécie de “subgênero” bastante típico, e de muito sucesso no país. Hoje dotado de menos exemplares do que antigamente, é uma ótima sensação, sobretudo aos fãs de tais, como eu, encontrar uma comédia adolescente, com temática de amadurecimento, que muito flerta também com as comédias malucas, igualmente tradicionais ao cinema do país (as screwball comedies, assim chamadas) como Say Less, não só imersa em um cenário caótico milimetricamente estabelecido, mas também decidida a se aprofundar na exploração de seus personagens.
Assistindo ao filme sem qualquer conhecimento prévio, em um primeiro momento talvez possa se parecer como tantos outros. A narrativa se inicia em um contexto de clara rivalidade entre um casal de irmãos, que desejam “ficar” com a gigante residência apenas para si enquanto os pais viajam rumo a um casamento em outra cidade, onde passarão o final de semana. Apesar das claras orientações para não levarem convidados, é de praxe considerar o não cumprimento das regras, ainda mais enquanto adolescentes, quase adultos, “na flor da idade”, e com interesses em colegas de classe.
No entanto, Max, mais velho, realmente possui uma namorada, Sky, para levar à casa; e Cassie, de poucos amigos, inicialmente convida seu interesse romântico, mas na ausência de uma resposta, chama um colega, Oliver, o qual evidentemente demonstra certa paixão por ela. O pretexto é apenas arruinar a noite do irmão, em uma série de jogos de constrangimentos mútuos, enquanto bebem, fumam e ela o impede, a todo custo, de entrar e ficar a sós com Sky. Porém, na medida em que o tempo passa, as verdadeiras feridas começam a surgir.

Genevieve Thomas, Matt Linton, Manny Spero e Jenny Lange em cena de Say Less.
A partir do momento em que decidem contar histórias uns dos outros, o público assume, momentaneamente, a mesma posição dos acompanhantes: testemunhas de um ambiente familiar bem mais conturbado do que a grande casa, limpa e arrumada; as fotos sorridentes de família; ou o casal de pais felizes, que aparece no início do filme, sugerem. Toda aquela polidez inicial, e a relação de provocação entre irmãos, aparentemente algo comum, mostra-se na verdade um sintoma muito mais profundo, e pessoal, de um descompasso existente entre aquelas pessoas.
A brincadeira, então, se reveste com o manto da seriedade, e Say Less revela-se, a partir desse rompimento do clima de mera provocação, um filme de conflitos. Já próximo da metade de sua duração, os problemas estabelecidos encontram-se longe de uma solução. Na verdade, o roteiro, assinado pelo também diretor Michael Kellman, prefere, na contramão de buscar por uma solução consensual, naquele momento, baseada no diálogo – algo improvável e até inverossímil de acontecer, dado o contexto, idade e maturidade dos personagens, para além de artificialmente moralista –, opta por inserir ainda mais problemas, criando uma verdadeira bola de neve.
É então que se nota toda a construção dos pequenos detalhes não ter sido em vão. De uma mochila no chão, ao pé da escada, ao fato de Max ser lutador de wrestling – algo estampado em sua blusa, já no início do longa –, acabam surtindo alguma relevância para o desenrolar da narrativa.
Em um espaço cômico, e repleto de histórias e situações absurdas – as quais são preferíveis não comentar, para preservar as surpresas do longa, e garantir sua eficácia ao espectador –, Kellman, em seu primeiro longa-metragem, demonstra muita habilidade pelo cuidado tomado em não transformar seus personagens em caricaturas, ou tocar em temáticas sérias, como depressão e automutilação, em vão. Pelo contrário, existe uma preocupação genuína na construção desses personagens na esteira da verossimilhança, ainda que sob uma veia cômica. É por isso que os elementos judaicos da residência, por exemplo, oferecem maior credibilidade à existência dessas pessoas, de cultura própria, e com ótimas piadas envolvendo uma mezuzah, na porta da frente, ou mesmo com o shofar, que inclusive estampa o pôster do filme.
A decupagem valoriza, e compreende, os atributos característicos de cada um dos personagens, genuinamente imersos em um jogo de xadrez familiar, como até se menciona no fato de Oliver figurar como um peão, e posteriormente mostrar-se um jogo num telão, na sala, em um dos pontos de virada da obra; ao passo que a montagem, também assinada por Kellman, brinca e se exercita com os diversos estilos aos quais ocasionalmente referencia, entre a ação, em passagens de luta corpo-a-corpo, e pontualmente no terror, em momento único, sempre acompanhados pela comédia, frente às situações absurdas.
Dessa maneira, o longa sabe, e conhece, os defeitos de seus protagonistas – os irmãos Max e Cassie, vividos, respectivamente, por Matt Linton e Jenny Lange, não apenas em ótimas atuações, mas também convincentes na formação dessa relação fraternal –, e sabe tratar-se de pessoas problemáticas. Levados, então, ao limite por essa bola de neve de problemas que precisam enfrentar, Say Less oferece, através do caos, uma inesperada oportunidade de diálogo e reconciliação, talvez inviável em outras circunstâncias. Forçados a serem honestos um com outro, podem começar a superar as próprias dores, enquanto na companhia e com apoio de pessoas que com eles se preocupam, e até contando um com o outro. Como uma produção independente, de baixíssimo orçamento – na casa dos cem mil dólares –, e pelas mãos de um jovem cineasta, é um filme que surpreende não só pelo bom humor, mas também pela maturidade com a qual lida com um ambiente denso, cujo peso da abordagem acertadamente se dilui por meio da comédia para trabalhar uma necessária reconciliação, sem exagerar na veia dramática, e tampouco caricaturar seus protagonistas, ou abusar na sátira proposta.
Say Less está disponível para aluguel nas plataformas digitais norte-americanas. No Brasil, ainda não há previsão de lançamento.
English Review
In Say Less, Michael Kellman makes his feature directorial debut with a film that displays remarkable maturity in its approach to family wounds, blending absurd comedy with dense, realistic and non-caricatured characters.
Teen comedies and coming-of-age films, by the late 1970s and early 1980s, had become a tradition within North-American cinema. From musicals like Grease, directed by Randal Kleiser, to the classics of John Hughes, this period fostered a kind of highly recognizable and widely successful “subgenre” in the United States. Today, with fewer examples than in the past, it is especially rewarding – particularly for fans like myself – to come across a teen comedy with coming-of-age themes that also flirts with the zany tradition of screwball comedies, as is the case with Say Less. The film is not only immersed in a meticulously constructed chaotic scenario, but also clearly committed to exploring its characters in depth.
Watching the film without any prior knowledge, it may at first seem like many others. The narrative begins with a clear rivalry between a pair of siblings, who want to keep their large house to themselves while their parents travel out of town for a wedding over the weekend. Despite explicit instructions not to invite anyone over, it is almost expected that such rules will be broken – especially by teenagers on the cusp of adulthood, “in the prime of youth,” with romantic interests in their classmates.
However, Max, the older brother, does in fact have a girlfriend, Sky, to bring home; and Cassie, who has few friends, initially invites her romantic interest, but, receiving no response, ends up calling Oliver – a classmate who is clearly infatuated with her. The pretext is simply to ruin her brother’s night, through a series of mutual embarrassments, as they drink, smoke, and she does everything in her power to prevent him from being alone with Sky. Yet, as time goes on, deeper wounds begin to surface.

Matt Linton and Jenny Lange in Say Less scene.
Once they decide to tell stories about one another, the audience momentarily assumes the same position as the guests: witnesses to a far more troubled family environment than the large, clean house, the smiling family photos, or the seemingly happy parents shown at the beginning of the film might suggest. That initial politeness, and the sibling banter that appears harmless, reveals itself instead as a symptom of something much deeper – a personal and emotional disconnect among them.
From that moment on, the game takes on a more serious tone, and Say Less reveals itself, through this rupture, as a film about conflict. By the midpoint, the problems that have been introduced are far from any resolution. In fact, the screenplay – also written by Kellman – chooses not to pursue an immediate, dialogue-based solution at that stage (which would likely feel improbable and even artificial given the characters’ age and emotional maturity), but instead escalates the situation further, creating a true snowball effect.
It is then that one begins to notice how the careful construction of small details is far from incidental. From a backpack left at the foot of the stairs to the fact that Max is a wrestler – something already signaled by his clothing early on – these elements later prove relevant to the unfolding of the narrative.
Within a comedic space filled with absurd situations – best left unspoiled to preserve the film’s impact – Kellman demonstrates, in his first feature, a strong sense of control by refusing to turn his characters into caricatures or treat serious themes such as depression and self-harm superficially. On the contrary, there is a genuine concern with grounding these characters in verisimilitude, even within a comedic framework. This is why details such as the Jewish elements of the household add credibility to these people, with their own culture and identity, as well as providing genuinely funny moments involving a mezuzah on the front door or even a shofar, which is prominently featured on the film’s poster.
The mise-en-scène understands and highlights each character’s defining traits, placing them within what resembles a familial chess game – something explicitly referenced when Oliver is described as a pawn, later echoed visually on a large screen during one of the film’s turning points. Meanwhile, the editing – also handled by Kellman – playfully engages with the various stylistic registers the film occasionally references, shifting between action (in its physical confrontations) and even a brief moment of horror, always anchored by comedy in response to the absurdity of the situations.
In this way, the film is fully aware of the flaws of its protagonists – Max and Cassie, portrayed by Matt Linton and Jenny Lange, respectively, who not only deliver strong performances but also convincingly embody this sibling dynamic – and treats them as genuinely troubled individuals. Pushed to their limits by this accumulation of conflicts, Say Less ultimately offers, through chaos, an unexpected opportunity for dialogue and reconciliation – one that might not arise under any other circumstances.
Forced into honesty, they begin to confront and process their own pain, supported by those who care about them – and, ultimately, by each other. As a low-budget independent production – reportedly made for around one hundred thousand dollars – and in the hands of a young filmmaker, it is a film that surprises not only through its humor, but also through the maturity with which it handles a dense emotional landscape. Its weight is skillfully diffused through comedy, allowing for a necessary reconciliation without leaning too heavily into melodrama, nor reducing its characters to caricature or overindulging in satire.
Say Less is available in VOD on U.S. digital platforms.
Crítico de cinema desde 2019. Formado em crítica de cinema pela Academia Internacional de Cinema (2020), e aluno do Clube do Crítico desde 2021, é criador do Cineolhar e colaborador do Cinema com Crítica.

