Uma exploração cinematográfica dos efeitos do calor e capitalismo extremos
Crítica em português
Heat não tem apenas o interesse em denunciar o aquecimento global e o colapso climático. Na realidade, o documentário procura uma forma estética capaz de converter a temperatura extrema dos países do golfo pérsico em uma experiência sensorial. Isto não é inovador, já que o cinema tem recorrido a soluções de linguagem para retratar o calor (e os outros sentidos) deste sua gênese. Logo vem à minha mente os filtros amarelados com que os filmes hollywoodianos ilustram e exotizam as geografias pérsicas, africanas e latino-americanas, ou até as distorções e os efeitos de lente desde Lawrence da Arábia.
Mas os esforços da diretora Jacqueline Zünd vão para além desses caminhos, embora partam daí. Para além de retratar o calor extremo como fenômeno atmosférico ou geográfico, o documentário é ainda uma encenação cinematográfica de tempo ou existência suspensa. Um mundo já praticamente aleijado e insólito. Um território estranho (ou unheimlich, para Sigmund Freud), algo que parece a realidade, mas não o é necessariamente.
Há algo de inquietante na maneira como a obra transforma seus personagens em corpos presos dentro de um tempo perpétuo, quase imóveis, enquadrados e aprisionados no centro do quadro com desertos e desertos metafóricos ao seu redor. O calor do título é o que suspende o pensar racional e, portanto, o ser. Os espaços áridos e urbanos de aparência artificial, povoados por arranha-céus, somam a esta impressão de um limbo existencial ou alienígena. Desta forma, a diretora compreende perfeitamente bem que a mudança climática não será só marcada por eventos extremos – incêndios florestais, derretimento polar, furacões etc. – mas de transformações paisagísticas, sociais e humanas em uma espécie de anestesia coletiva.

Essa percepção se materializa nos personagens observados pela diretora. O meteorologista que já não encontra forças para convencer a população da gravidade da crise talvez seja a figura mais simbólica desse esgotamento, e enxergá-lo sob ar-condicionado. A impotência não decorre de ignorância, mas do colapso da linguagem pública ou da incapacidade de traduzir as informações em ações concretas. Ou o apocalipse está bem adiante e ninguém se importa, ou porque está bem acomodado termicamente, ou porque precisa trabalhar e nem tem tempo para lamentar a própria tragédia. São os trabalhadores imigrantes submetidos a jornadas brutais sob o calor extremo, aqueles que revelam outra camada da tragédia: enquanto alguns compram conforto climático, outros vendem o próprio corpo para sustentá-lo.
Nesse contraste o elo que associa a crise climática e o aquecimento extremo ao capitalismo. O direito ao clima se tornou um privilégio de classe, e não mais um direito humano. O calor, assim, é uma punição distribuída de maneira desigual. A imigrante queniana serve bebidas frias em um bar mantido em temperaturas negativas para clientes ricos é a síntese deste comentário irônico. Um mercado artificial, e que explora a tragédia humana e o desastre ambiental, para criar um serviço de luxo em um deserto.
Ainda mais eloquente é a figura do entregador que mantém o rosto oculto sob capacete e máscara. Sua ausência de identidade individual transforma-o em emblema universal da uberização da economia global. Ele é menos sujeito e mais a função que exerce no cotidiano das cidades, uma engrenagem substituível de uma economia baseada na exploração do ser humano e do meio no qual habita. O filme sugere, com inteligência, que este modelo econômico capitalista decrépito, baseado no petróleo e no crescimento das emissões de carbono e do aquecimento global, é o mesmo que provoca o deslocamento populacional, aprofunda as desigualdades socioeconômica e reorganiza o corpo humano em um regime migratório desgastante e punitivo. E que lugar melhor para encenar esta contradição do que o maior polo de exportação de petróleo e um dos que sofrem mais diretamente os efeitos do calor.
Quando surgem os animais semivivos (praticamente) espalhados pelas ruas ou uma mulher gentil que tenta salvar gatos com blocos de gelo improvisados, é quando a narrativa toca numa dimensão ainda mais ampla: a exploração como a destruição das chances de vida e existência no mundo inteiro. São imagens discretamente devastadoras, porque recusam o espetáculo e preferem o detalhe cotidiano do sofrimento.
Talvez Heat se revela melhor como um documentário ou um ensaio audiovisual sobre a fadiga civilizatória. A profecia dos dias finais da existência humana sobre a Terra. O seu êxito está em entender que o aquecimento global não produz somente aumento de temperatura, mas altera humores, relações de trabalho, percepções temporais e a própria capacidade humana de reagir a estas transformações – que já me parecem irreversíveis. Ora, com esta epidemia de calor extremo, como iremos agir correndo o risco de aumentá-lo a patamares ainda maiores? O calor, em Heat, é como uma lente de aumento cinematográfica, ou um filtro que habitualmente o cinema usou para retratar diferentemente povos iguais, empregada para denunciar.
O documentário teve lançamento no festival Vision du Réel.
English Review
Heat is not interested merely in denouncing global warming and climate collapse. In fact, the documentary seeks an aesthetic form capable of transforming the extreme temperatures of the Persian Gulf countries into a sensory experience. This is not entirely new, since cinema has relied on stylistic solutions to portray heat (and the other senses) since its very origins. What immediately comes to mind are the yellowish filters with which Hollywood films illustrate and exoticize Persian, African, and Latin American geographies, or even the lens distortions and visual effects dating back to Lawrence of Arabia.
But the efforts of director Jacqueline Zünd go beyond those paths, even if they begin there. More than portraying extreme heat as an atmospheric or geographical phenomenon, the documentary becomes a cinematic staging of suspended time and suspended existence. A world already crippled and uncanny. A strange territory – or unheimlich, to Sigmund Freud – something that resembles reality, but is not necessarily reality itself.
There is something unsettling in the way the film transforms its characters into bodies trapped within perpetual time, nearly motionless, framed and imprisoned at the center of the image with literal deserts and metaphorical deserts surrounding them. The heat of the title is what suspends rational thought and, therefore, being itself. The arid urban spaces of artificial appearance, populated by skyscrapers, reinforce the impression of an existential or alien limbo. In this sense, the director understands perfectly well that climate change will not be marked only by extreme events – wildfires, polar melting, hurricanes, and so on – but by landscape, social, and human transformations under a kind of collective anesthesia.

This perception materializes in the characters observed by the filmmaker. The meteorologist who no longer finds the strength to convince the population of the gravity of the crisis is perhaps the most symbolic figure of this exhaustion. His impotence does not stem from ignorance, but from the collapse of public language and the inability to translate information into concrete action. Either the apocalypse still seems far away and no one cares, or people are too thermally comfortable, or they are too busy working even to mourn their own tragedy. It is the immigrant workers subjected to brutal shifts under extreme heat who reveal another layer of the disaster: while some purchase climatic comfort, others sell their own bodies to sustain it.
Within this contrast lies the link connecting the climate crisis and extreme heat to capitalism. The right to climate has become a class privilege rather than a human right. Heat, then, is a punishment distributed unequally. The Kenyan immigrant serving cold drinks in a bar kept at subzero temperatures for wealthy customers is the synthesis of this ironic commentary. An artificial market exploits human tragedy and environmental disaster in order to create a luxury service in the desert.
Even more eloquent is the figure of the delivery worker who keeps his face hidden beneath a helmet and mask. His lack of individual identity transforms him into a universal emblem of the gig economy. He is less a subject than the function he performs in urban daily life, a replaceable cog in an economy based on the exploitation of human beings and the environment they inhabit. The film intelligently suggests that this decrepit capitalist model – built on oil, rising carbon emissions, and global warming – is the same one that causes population displacement, deepens socioeconomic inequalities, and reorganizes the human body into a punishing and exhausting migratory regime. And what better place to stage this contradiction than the world’s largest oil-exporting hub, and one of the regions suffering most directly from extreme heat?
When semilifeless animals appear scattered through the streets, or when a gentle woman tries to save cats with improvised blocks of ice, the narrative reaches an even broader dimension: exploitation as the destruction of life’s very chances and possibilities across the planet. These are discreetly devastating images, because they reject spectacle and instead embrace the everyday detail of suffering.
Perhaps Heat reveals itself best as a documentary or audiovisual essay on civilizational fatigue. A prophecy of the final days of human existence on Earth. Its achievement lies in understanding that global warming does not merely raise temperatures; it alters moods, labor relations, temporal perceptions, and humanity’s very capacity to respond to these transformations – which already seem irreversible to me. Faced with this epidemic of extreme heat, how will we act without risking intensifying it even further? In Heat, warmth becomes a cinematic magnifying glass, or a filter once habitually used by cinema to depict equal peoples as different, now repurposed as an instrument of denunciation.
Heat was was selected for International Feature Film Competition at Vision du Réel.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


