A sátira do papagaio de pirata que deseja aparecer a todo custo na memória televisiva
Em tempos nos quais a celebrização instantânea deixou de depender exclusivamente da televisão e passou a se disseminar nas redes sociais, um filme como Papagaios pode até soar anacrônico. O papagaio de pirata, uma figura tipicamente brasileira que se insere na cobertura telejornalística e parasita a sua imagem para autopromoção, é mais do que uma figura de antigamente. Mais do que só um personagem do folclore popular. Este personagem é uma síntese da modernidade líquida e da compulsão por existir somente quando visto.
Douglas Soares, que escreve e dirige, transforma este personagem que habita o pano de fundo em protagonista de um thriller satírico. Tunico, vivido por Gero Camilo, não é somente um homem que busca aparecer nas reportagens. Ele é alguém que converteu a própria imagem num projeto de vida. Os seus ternos organizados, a devoção à televisão e a familiaridade com repórteres são sugestivos de um homem incapaz de se divorciar da performance. E habitar na performance torna-o simultaneamente superficial e profundo, já que é por brechas que revela o indivíduo.
Nesse sentido, Papagaios opera no campo fértil entre sátira social e estudo de personagem. Tunico representa uma vida contemporânea na qual aparecer substitui ser. Não importa o tema da matéria jornalística. Basta a inscrição visual (e eternização) em seu pano de fundo. Tragédias, velórios, acidentes ou dramas intimistas convertem-se em oportunidades para a fabricação de presença. Ao penetrar imagens que não lhe pertencem, Tunico apropria-se da dor ou história alheia para anexá-la ao seu arquivo narcísico de aparições televisivas – que, claro, é objeto de culto em um cômodo. O gesto é moralmente desconfortável, e Douglas não suaviza essa dimensão parasitária.

A vida de Tunico muda depois de conhecer Beto, interpretado por Ruan Aguiar, que adiciona uma energia sombria e imprevisível à sua vida. Desde a sua aparição inicial – quando é visto recarregando armas de brinquedo no parque de diversões e assistindo ao “acidente” fatal em um dos brinquedos -, o personagem carrega uma pulsão de violência, um fascínio pela tragédia e um modo inquietante de se relacionar com os eventos ao redor. E também uma carga erótica introduzida nos elementos fálicos e na encenação. Beto não somente deseja ser visto igual a Tunico, mas deseja intervir e criar a realidade (ou o espetáculo) que atrai o olhar do espectador.
A relação entre Tunico e Beto constitui o centro dramático mais interessante do longa, porque é inclassificável. Em um primeiro momento, trata-se de uma dinâmica mestre e aprendiz. Tunico ensina a coreografia e os códigos de papagaio profissional. Em um outro nível, tem-se uma relação forjada pai e filho, em que um homem mais velho parece transmitir o seu legado a um homem mais jovem sem raízes. E nisto há uma camada sugerida, em que há uma tensão erótica e uma disputa dos corpos por espaços – a cena em frente ao espelho é sugestiva.
Douglas Soares demonstra segurança ao administrar este relacionamento ambíguo, assim como os temas que disputam a centralidade da narrativa não explicitamente. A moeda voyeurismo e exibicionismo, que caminham juntos. A dinâmica do olhar, quem exerce poder sobre o quê. Estes temas existem sugeridos, não explicitados. A presença física de Ruan Aguiar é evocativa neste sentido: o silêncio do intérprete é ameaçado, enquanto o seu magnetismo visual é irresistível. Ruan incorpora a lógica do papagaio: capaz de atrair o nosso olhar sem falar nada.

Já Gero Camilo realiza um trabalho complexo. Um intérprete talentoso e tantas vezes relegado a personagens coadjuvantes no cinema brasileiro, Gero aqui preenche o centro da imagem com dominação, melancolia e até toques cômicos e ligeiramente ridículos. Há algo profundamente solitário em sua necessidade de ser reconhecido por desconhecidos. Quanto mais aparece, menos parece existir como indivíduo, e mais como um fragmento em um jornal, um VHS ou DVD. O personagem se apresenta à câmera como quem busca, talvez, uma prova de vida, uma certidão autenticidade pela imagem de que existe.
Papagaios percebe que a obsessão pela fama (ou pela imagem) não nasce da tecnologia, mas encontra nela apenas novos instrumentos. Antes do feed ou stories das redes sociais competirem por nossa atenção, já havia corpos disputando segundos de enquadramento nos telejornais. Antes dos influenciadores, já existiam pessoas organizando a vida em função da aparição pública. Existe um impulso humano, afinal, que retroalimenta o capitalismo da atenção. E mesmo que Douglas Soares tangencie alguns temas, mais do que os penetrar, a sua abordagem não é rarefeita e inspira reflexão. A ética da exposição, a exploração da dor e tragédia, até mesmo a sexualização do olhar – e aqui na condição do exibicionista – ou a carência afetiva e o desejo de existir. Papagaios não esgota as oportunidades, mas, igual faz com seus personagens, mantém o nosso olhar engajado diante de um roteiro bastante original e atualíssimo.
Papagaios está em exibição nos cinemas brasileiros.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



