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The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa

Classificado como 4 de 5

The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa

2026

89 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Oscar Rodrigues Alves

Paulinho da Costa, o percussionista que conquistou o mundo

Apesar de todos serem artísticos, alguns ofícios da arte parecem condenados à invisibilidade. A maioria de vocês responderia, sem sequer titubear, quem dirigiu E. T. O Extraterrestre e O Poderoso Chefão, ou Interestelar e Duna. Alguns, inclusive, responderiam quem escreveu os roteiros de cada um destes filmes. Mas quantos de vocês recordam quais foram os montadores, os profissionais que, no escuro da sala de montagem, organizam os fragmentos fílmicos e o tempo, ritmo, emoção e sentido desses filmes?

Algo semelhante acontece com a figura do percussionista quando pensamos na música. Em geral, ao fundo do palco, distante do espaço que é ocupado por cantores, guitarristas, baixistas e saxofonistas. A sua presença raramente domina as capas dos discos e as manchetes, mas se tirássemos a percussão do samba, jazz, blues ou rock ‘n roll, o que restaria? A percussão é o coração da música, sublinhou Quincy Jones. Eu considero a sua espinha dorsal. E é sobre um percussionista brasileiro, um arquiteto da batida (ou o groove) de alguns clássicos da música mundial que se debruça Oscar Rodrigues Alves em The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa ou só TGUTG doravante.

Como o título afirma, o documentário propõe-se a investigar o que há sob o audível, ou sob o visível, em termos de cinema: os sons de Paulinho da Costa. Por mais de cinco décadas, o artista carioca emprestou o seu ouvido e talento para milhares de gravações, colaborou com centenas de artistas e deixou sua impressão digital em obras premiadas e que atravessam gerações. De Michael Jackson à Madonna, de Dizzy Gillespie à Miles Davis, uma carreira que é tão impressionante quanto é sua trajetória das favelas cariocas até estabelecer-se em Los Angeles.

Nesse aspecto, o documentário opta por uma estrutura narrativa convencional. Oscar registra, cronologicamente, a infância de Paulinho do Irajá, o contato com o samba e a percussão de improviso, o início da carreira profissional nos palcos cariocas, a mudança aos Estados Unidos acompanhado do músico Sérgio Mendes e, finalmente, a consolidação em Los Angeles como um músico requisitado da indústria fonográfica. Em vez de elaborações formais ou experimentações radicais – no máximo, a utilização da inteligência artificial (ou de artifício análogo) para dar vida às fotografias -, apenas a alegria de Paulinho da Costa, a sua música e as suas parcerias. Isto funciona muito bem.

É que a convenção ou linearidade, neste caso, não nasce de uma acomodação estética, mas de uma adequação temática. A trajetória de Paulinho já contém, em si, o drama necessário para as nossas expectativas. A história de um garoto brasileiro que transforma o batuque na mesa de casa em um passaporte para o centro criativo e comercial da música estadunidense. Assim, no lugar de maneirismos, que até poderiam comprometer o foco da narrativa e atraí-lo à direção, Oscar dedica-se à escuta. Escutar Paulinho e escutar a música de Paulinho, homem e artista.

E Oscar é um bom ouvinte. As músicas, originais ou reproduções, não são somente uma marca de autoridade, mas uma trilha afetiva que revela que, perto de se tornar um octogenário, o sangue de Paulinho ainda ferve com a batida da percussão. Os depoimentos de artistas renomados, longe de eclipsarem o protagonista – seria muito fácil deixar-se seduzir pela participação de alguns nomes no documentário -, ajudam a reposicioná-lo no centro da história. A humildade ou modéstia de Paulinho somente engradecem os elogios de Quincy Jones, will.i.am ou Verdine White. Inclusive, o filme ajuda a compreender a posição central do ritmo africano na música contemporânea brasileira e estadunidense, reconhecendo a sua importância histórica sem deslocar à discussão à herança escravagista desses países. A conclusão é inevitável; isto não significa que o filme precise substituir o espectador neste processo intelectivo.

Além do mais, a presença de nomes inscritos na história da música subverte a lógica comum em documentários elegíacos iguais a esse. O depoimento reforça o argumento de Oscar de que Paulinho não é e nem nunca foi acessório ou coadjuvante, mas uma peça fundamental na arquitetura musical. Daria até para extrapolar e imaginar que Oscar também defende que a percussão não é só pano de fundo da peça musical, é parte tão indispensável quanto todas as outras. E as escolhas inusitadas de Paulinho em adicionar o seu toque a canções são só a comprovação cabal deste argumento.

Também ajuda enormemente o documentário o carisma do biografado. Paulinho surge como uma presença calorosa, humilde, acessível, e alguém cujos sorriso e alegria contagiam onde está. Assim, o envolvimento do espectador torna-se o produtor da personalidade generosa e agradecida pela trajetória vivida. Talvez por isto minha maior crítica seja a brevidade do documentário (e saber que havia um corte inicial de 3 horas fez nascer a sensação de perda diante da versão final). E não é que os eventos sejam apresentados apressadamente, é que esta trajetória parece vasta o bastante para acomodar-se apenas em 89 minutos.

Há dores sugeridas que até sugeririam maior investigação. E é interessante notar como, sendo um documentário sobre música, alguns de seus momentos mais poderosos emergem do silêncio. Ou, como um personagem caracterizado pelo sorriso, pode ser recordado quando desaba em choro. É o instante em que o documentário acessa mais profundamente o elemento humano, culminando numa homanagem merecida na maior festa musical brasileira. Uma homenagem que também é realizada por este documentário.

The Groove under the Groove ainda tem um subtexto político: sem maior proselitismo ou didatismo, é a história de um artista brasileiro e negro que atravessou a fronteira de um oceano, e se tornou indispensável no coração da indústria musical. Um artista que colonizou, pela arte, os corações e as almas daqueles com quem trabalhou, ou de quem só escuta, canta e dança algumas das canções em que colaborou e transformou com seu groove. Paulinho deixa os bastidores para ser o protagonista, no processo, lembra algo essencial: muitas vezes, o que confere a arte o seu atributo não está onde os holofotes apontam. Está um pouco atrás, no escuro, marcando o tempo para que todo o resto exista.

The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa está disponível no catálogo da Netflix.

P.S. Os montadores dos filmes citados no primeiro parágrafo foram, respectivamente, Carol Littleton, Peter Zinner & William Reynolds, Lee Smith e Joe Walker.

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