A adaptação do romance de Daniel Galera que disputou o Festival de Gramado 2025
Barba Ensopada de Sangue é tão introspectivo e taciturno quanto é Gabriel, o protagonista interpretado por Gabriel Leone. É um filme-rochedo: áspero, embrutecido e impermeável, no qual dificilmente conseguiremos adentrá-lo sem compreender o percurso que ele exige. Neste sentido, é um filme que expressa a geografia interna de Gabriel a partir do panorama externo da praia de Armação, para onde viaja após o suicídio do pai. É onde Gabriel pode elaborar traumas do passado – mas não os perdoar – e descobrir memórias de sua família, enquanto teimosamente permanece em um vilarejo de pescadores onde não é bem-vindo.
O roteiro coescrito por Aly Muritiba e Jessica Candal, a partir do livro de Daniel Galera, parte de uma premissa aparentemente simples: a de um homem que retorna à cidade que seu avô desestabilizou, e continua a fazê-lo mesmo depois de ter partido, a fim de reconstruir sua identidade e encontrar o seu caminho após a tragédia familiar. Viajar a Armação é como desarmar a âncora que prende Gabriel à sua família e às dores do passado, e enfim poder flutuar pacificamente no mar. Para tanto, deve enfrentar as ondas simbolizadas por um vilarejo tradicional e refratário à sua permanência, ainda mais quando tenta desenterrar o que ninguém deseja lembrar.
Muritiba constrói uma narrativa que aposta no tempo como um elemento ambíguo de imersão e de estranhamento desde a cena inicial. Extensa e rigorosamente encenada a partir de um ponto de vista único, o do pai, esta cena descortina o contexto familiar mínimo para o espectador não estar à deriva no mar do roteiro, e também estabelece o tom da narrativa. Muritiba – assim como Gabriel – não tem pressa. É que quem caminha em direção ao passado, enquanto foge de si mesmo ou do que está sentindo, não percorre uma trilha coerente, que dirá segura. E o filme opera dentro de uma lógica em que o tempo alongado se articula com o plano aberto da paisagem natural, mas com uma profundidade de campo rasa (desfocada), para reproduzir o isolamento social de Gabriel na imagem. E tanto o tempo quanto o espaço se articulam com o silêncio e/ou a incomunicabilidade de Gabriel ou dos personagens.

É nesse ponto que a direção de fotografia de Inti Briones assume um papel decisivo. Há uma predominância de tons azulados, como se estivéssemos submersos no mar. A paisagem costeira reproduz a sensação de estar à deriva, enquanto encaramos o mundo através de uma camada de água. E não é só um efeito estético que reproduz o ponto de vista de Gabriel, é também um prolongamento de seus sentimentos “afogados”: a sua interioridade permanece inacessível, salvo em oportunidades raras, quando uma personagem de seu passado invade a casa de seu avô e o obriga a confrontar o seu relacionamento com o irmão, de quem se afastou. Aliás, a barba que dá título é também o elemento metafórico que oculta sua face e, com isto, os sentimentos que mantém guardados dentro de um cofre – ou um baú no fundo do mar.
É possível que esse ocultamento – retratado pela atuação carrancuda de Gabriel Leone – que afaste um público específico de Barba Ensopada de Sangue, já que suas catarses emocionais operam diferentemente do cinema convencional. Por outro lado, é a sua força mais inquietante. E o filme é um convite a uma aproximação: somos como Jasmin (Thainá Duarte, de Cangaço Novo), o eixo emocional do filme e, também, aquela que pode ser a vítima da bala perdida ou das consequências emocionais da trama. Ela tenta entender quem é Gabriel, acessar a sua dor e o que o motiva, mas se frustra porque, por ser deliberadamente opaco, Gabriel não a deixa entrar. Mas aí é onde entra a geografia, a fotografia e a edição de som de Douglas Vianna, em sua tentativa de preencher o que não acessamos.
Armação torna-se aquele clichê de personagem da trama: é um espaço hostil, no qual Gabriel se torna uma ameaça que reaviva memórias incômodas, e, ao mesmo tempo, na qual Jasmin projeta uma possibilidade de fuga. Com a sua história de caça à baleia, sobre a qual a vila de pescadores construiu a sua vida, Armação é incômoda. É um paraíso na terra e com mar calmo; é ainda onde os restos mortais de uma pessoa foram encontrados. Em sua origem, a cidade carrega a violência naturalizada contra as baleias, que se tornou meio de subsistência dos pescadores, e o silenciamento como modus operandi. É onde Muritiba dialoga com a tradição do faroeste: um forasteiro que viaja ou retorna a um vilarejo, desestabiliza o meio tradicional, intencionalmente ou não, até o confronto violento no fim.

Longe de se encerrar em mais um derramamento de sangue, Muritiba convida a um choque, que pode ser literal ou simbólico, entre tempos e existências aparentemente dispersos. Uma sugestão de que é possível se reconciliar com o passado e com a natureza violenta que ele esconde, mesmo que não se perdoe as transgressões que foram cometidas. Por ser, ao mesmo tempo, herdeiro de uma história – e uma propriedade – e intruso nela, ou parte do que a comunidade deseja esquecer e silenciar, Gabriel é também a viva alma capaz de se infiltrar e tentar, de alguma forma, trazer a paz. Não a paz alardeada em Armação, que é só uma ficção para atrair turistas e surfistas, e sim a paz que tanto procura quando vai ao mar.
Menos a história de um homem em busca de suas origens, Barba Ensopada de Sangue é, sobretudo, sobre a impossibilidade de escapar de um passado familiar que, por mais que se tente apagar, continua a reverberar como um eco persistente nas águas de uma memória coletiva.
O filme estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 02/04.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



2 comentários em “Barba Ensopada de Sangue”
Excelente crítica! Acabei de ver o filme e gostei muito.
Obrigado, Pedro!