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ENTREVISTA | Beatriz Saldanha e o horror como espelho social em “Mestras do Macabro II”

Curadora fala sobre o atual momento do terror, o espaço das mulheres no gênero e o potencial político do horror contemporâneo.

A mostra é para todo mundo. Muitos dos filmes são protagonizados por mulheres, mas tratam de temas profundamente humanos, pertinentes a qualquer pessoa” – Beatriz Saldanha

Beatriz Saldanha, curadora durante a mostra Mestras do Macabro II, no CCBB Rio de Janeiro.

A curadora Beatriz Saldanha conversa com o Cinema com Crítica sobre a segunda edição da mostra “Mestras do Macabro – As Cineastas do Horror ao Redor do Mundo”, em cartaz no CCBB Rio. Na entrevista, ela fala sobre a valorização recente do gênero de horror, a resistência enfrentada pelo terror brasileiro, o uso político do medo no cinema contemporâneo e os recortes temáticos que estruturam a programação da mostra.

Alvaro Goulart: O terror é um gênero com títulos profundamente enraizados no imaginário da cinefilia, com franquias como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo alcançando status cult. Apesar da riqueza de abordagens e ramificações, durante muito tempo o gênero foi tratado como uma “arte menor” dentro da sétima arte. Nos últimos anos, porém, percebe-se um movimento de valorização, com produções ganhando espaço em salas comerciais e premiações. Como você enxerga esse momento atual do terror e a recepção do público ao gênero?

Beatriz Saldanha: O horror sempre foi um gênero incompreendido no sentido de que, muitas vezes, quem o considera como uma “arte menor” tem uma falsa ideia do que de fato é o gênero. Quando pensam em horror, costumam pensar em slashers e em outras versões formulaicas do gênero, quando, com A Hora do Lobo, Ingmar Bergman também estava exercitando o horror e de uma maneira muito profunda e sofisticada. O que acredito que esteja acontecendo agora é um reconhecimento das inúmeras possibilidades do horror. Não me surpreende que os novos filmes fazem sucesso, pois o horror sempre foi popular; por outro lado, um fenômeno que tem me chamado a atenção é o retorno de certos clássicos às salas de cinema, como Suspiria (FJ Cines) e Veneno Para as Fadas (Filmicca). Acredito que isso tenha a ver com a cultura da nostalgia e a oportunidade que os novos públicos têm de ver em tela grande clássicos lançados há 40, 50 anos, na melhor qualidade de imagem possível. É, de fato, uma experiência muito especial para a cinefilia e que se diferencia da experiência banal de assistir a um filme em casa, através do streaming.

Alvaro Goulart:  E no contexto brasileiro, como você avalia a recepção do público? As produções nacionais de terror têm sido percebidas com maior potencial comercial ou ainda permanecem associadas a um nicho específico?

Beatriz Saldanha: As pessoas que realizam cinema fantástico no Brasil costumam lamentar que santo de casa não faz milagre, pois os filmes nacionais não chegam nem perto em bilheteria dos filmes estrangeiros – sobretudo os estadunidenses. Eu acho que isso se deve a diversos fatores, a começar pelo sistema predatório de distribuição, mas também está na origem da formação do nosso público, que cresce habituado com o cinema feito nos Estados Unidos e o utiliza como parâmetro de qualidade – injusto, na maior parte das vezes. Além disso, acho que existe um problema ainda maior que não se limita aos filmes de gênero, que é uma certa resistência do público brasileiro em fruir do cinema feito no próprio país. Talvez se estes filmes fossem exibidos em circuitos mais amplos, em horários mais nobres e com ingressos mais acessíveis, essa realidade possa começar a mudar.

Alvaro Goulart: O terror também tem sido utilizado como plataforma para discutir questões sociais. Em Pecadores, por exemplo, o vampirismo surge como metáfora para refletir sobre vivência negra e processos de assimilação ou apagamento. Como você avalia o uso do gênero para trabalhar esses subtextos e camadas simbólicas?

Beatriz Saldanha: O horror é excelente para esse tipo de reflexão e isso não é exatamente uma novidade, pois questões simbólicas sempre estiveram muito presentes no gênero, desde suas raízes expressionistas. Tem um pesquisador chamado Robin Wood que se apoia na teoria do “retorno do reprimido” de Sigmund Freud para descrever o horror como um gênero que escancara o que a sociedade varre para baixo do tapete. Para ele, toda sociedade precisa reprimir certos desejos, comportamentos e grupos para manter a ordem, o que pode envolver uma série de repressões: sexualidade não normativa, mulheres fora do papel doméstico, alteridades raciais, classes marginalizadas, impulsos não produtivos etc. Hoje em dia, com mais mulheres e minorias sociais tomando o seu lugar no fazer cinematográfico, existe uma consciência maior sobre o uso do horror como ferramenta para abordar pautas relacionadas aos temores da vida contemporânea e das violências estruturais, como machismo, racismo e homofobia, mas acredito que este é um potencial que existe desde a raiz do gênero. Vejo o momento atual com otimismo, acredito que essas abordagens dão um frescor muito bem-vindo à produção de filmes de horror.

Alvaro Goulart: Para além de narrativas com as quais o público feminino possa se identificar, quais diferenciais as produções reunidas na Mostra Mestras do Macabro 2 oferecem aos espectadores? Durante o processo de curadoria, houve temas ou abordagens recorrentes que acabaram costurando a programação?

Beatriz Saldanha: Na verdade, a mostra é para todo mundo. Muitos dos filmes são protagonizados por mulheres, mas tratam de temas profundamente humanos, pertinentes a qualquer pessoa. E mesmo se fosse o caso de se direcionar mais especificamente a um público feminino, outros públicos também são bem-vindos, pois conhecer perspectivas para além da masculina hegemônica é um exercício muito rico e saudável. Dito isso, houve sim um trabalho de recortes neste ano, com mostras temáticas que abordam temas como o legado da obra Frankenstein, de Mary Shelley, e a criação da vida artificial; representações de vampiras no contemporâneo e da loucura feminina; entre outros. A mostra também presta homenagens às cineastas Marina de Van e Cecelia Condit, e à atriz brasileira Gilda Nomacce. E ainda dedica um espaço para o cinema mainstream dos anos 1990, com continuações de franquias de sucesso como A Hora do Pesadelo e Criaturas. Como este já é um tema muito nichado, prefiro ser abrangente dentro das possibilidades que tenho, ao invés de focar apenas em um tipo específico de cinema, e fiquei muito satisfeita com os recortes desta edição

A mostra Mestras do Macabro – As Cineastas do Horror ao Redor do Mundo (2ª edição) segue no CCBB Rio até 18 de maio de 2026, segunda-feira, com entrada gratuita. Os ingressos liberados diariamente às 9h no site oficial do CCBB e na bilheteria física.

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