Crítica em português
Com apenas 10, 15 minutos, já é possível compreender as influências temáticas e estilísticas do diretor e corroterista Pierre Le Gall. Já na cena inicial, a filiação estilística e não propriamente disfarçada, do cinema de Jean-Pierre e Luc Dardenne, em que a câmera bem próxima ao corpo do protagonista, Étienne, acompanha-o deslocando-se por um pátio de caminhões. Logo após, o débito à obra de Ken Loach, e a sua reflexão sobre o papel do trabalhador dentro do mercado de trabalho regido pelo capitalismo tardio. Flesh and Fuel inscreve-se, por esta herança cinematográfica, em uma tradição que pensa a arte como um espaço de reflexão sobre o indivíduo, para depois transgredi-la e ampliá-la em uma discussão sobre afetos dentro deste sistema cruel. Uma pena, porém, que a reflexão proposta por Le Gall termine por ser superficial.
Étienne (Alexis Manenti) é um caminhoneiro que opera dentro de uma cooperativa pressionada pela lógica competitiva de um mercado em retração. Logo descobrimos que sua empresa perdeu dois contratos porque não quis negociar seus valores, apesar de os preços dos combustíveis estarem subindo. Étienne é um corpo em movimento perpétuo, um sujeito cuja vida afetiva foi reduzida a reuniões com os colegas de trabalho, participações nas festas de família, e encontros sexuais episódios em estacionamentos e banheiros públicos, onde o desejo se manifesta como uma descarga momentânea do que é reprimido pela jornada de trabalho exaustiva. No restante do tempo, está atrás do volante que é praticamente uma extensão mecânica do seu eu. É onde se alimenta, é de onde assiste às paisagens industriais, não humanizadas, por que passa, e é de onde vêm suas dores. Físicas, para as quais utiliza uma cinta lombras. E emocionais.
Numa viagem, Étienne conhece Bartosz (Julian Świeżewski), um caminhoneiro polonês com quem se envolve sexualmente e compartilha a mesma condição precarizada. Bartosz apresenta uma consciência maior de sua posição dentro do sistema, o que Étienne parece ignorar, e uma promessa de um relacionamento duradouro e perene, não precário como eram/são suas relações afetivas. Esse encontro instaura, em tese, o conflito dramático na inscrição de um amor à revelia de um regime de trabalho que inviabiliza qualquer forma de estabilidade.
É onde reside a contradição de Flesh and Fuel. Ao optar por deslocar progressivamente o foco da análise das condições materiais de um mercado de trabalho opressivo ao desenvolvimento do relacionamento, Le Gall parece acreditar na ideia de que o afeto pode funcionar como um espaço de resistência. Até é, especialmente se pensarmos que na sociedade do cansaço não temos ânimo e tempo para amar, desejar e transar. E, claro, se duas pessoas decidem, apesar disso, viverem esse amor e desejo, então por certo afrontam as bases de um sistema que deseja reificá-los em máquinas. É onde entra a superficialidade que mencionei.
Por mais que tempo, não sinto que Le Gall consiga, de fato, articular essas duas dimensões – a trabalhista e a afetiva – de forma orgânica. A precarização do trabalho, tão bem delineada nos momentos iniciais, vai sendo progressivamente esvaziada, reduzida a uma espécie de pano de fundo que, embora nunca desapareça por completo, perde sua força crítica. Sua relação com o chefe compreensivo e os prazos apertados acabam se tornando situações tratadas de forma branda, quando não simplificadas em resoluções triviais (por ex. a concessão de um pedido de folga). Pode até ser que estamos diante de uma empresa que joga limpo, o que desloca o problema ao sistema-base. E ao fazê-lo, o filme abdica de um antagonismo melhor definido.
Já o romance, que deveria assumir o protagonismo nesse processo, também não é desenvolvido com a densidade necessária. Embora haja uma química notável entre Manenti e Świeżewski, os momentos compartilhados entre os personagens são relativamente escassos e reféns de elipses vazias. De novo, é possível supor que a própria elipse já é a materialização da opressão capitalista, que frustra o relacionamento de sua continuidade. É possível, sim, inferir a construção de um vínculo em um cenário precário, mas isto raramente se manifesta, senão já no terceiro ato.
Há, contudo, elementos que permanecem instigantes ao longo do filme. A atenção às paisagens de passagem, os tais “não-lugares” que estruturam o universo dos caminhoneiros, constitui talvez o aspecto mais consistente da proposta estética de Le Gall. Tive a sensação de ter viajado e permanecido no mesmo lugar. Através da boleia do caminhão, cidades, zonas industriais ou pontos turísticos são iguais em sua transitoriedade, convertendo-se em imagens fugazes e passageiras. O espaço homogêneo é talvez o maior trunfo desta narrativa de fluxo e circulação, não de permanência.
Ao viajar à Polônia, Étienne suspende parcialmente o trabalho em prol da vida, o que lhe abre uma possibilidade efêmera de reconstruir o vínculo aparentemente perdido. E, em mais um acerto de Le Gall, o sistema permanece presente, mas de uma outra forma. Bartosz, agora, trabalha em uma loja de departamento que opera a mesma lógica capitalista, ainda que pareça menos custosa do que a vida na boleia do caminhão. Muitos pontos estão aí, mas falta a contundência para ir além da superfície. Como construir uma história de amor capaz de, ao menos na teoria, subverter a lógica capitalista do trabalho contemporâneo? Flesh and Fuel até tem a sua proposta, uma que dilui a crítica, bem como o romance.
Apesar de identificar com nitidez as questões que pretende abordar, Flesh and Fuel – como Étienne – parece hesitar no momento de levá-las às últimas consequências. Entre a carne e o combustível, entre a crítica e a contemplação simbólica, o que resta é uma obra que orbita seus próprios temas mas que não investe contra eles. É um bom filme, um cujo fracasso – aos olhos deste crítico – diz tanto sobre a tarefa árdua de retratar o mundo do trabalho e dos afetos.
Flesh and Fuel está na seleção da Semana da Crítica do Festival de Cannes 2026.

English review
Within just ten or fifteen minutes, it is already possible to grasp the thematic and stylistic influences of director and co-writer Pierre Le Gall. From the very first scene, the stylistic lineage—hardly concealed—of Jean-Pierre Dardenne and Luc Dardenne becomes evident, as the camera stays closely attached to the protagonist’s body, following Étienne as he moves through a truck yard. Shortly thereafter comes a clear debt to Ken Loach and his reflections on the role of the worker within a labor market governed by late capitalism. Through this cinematic inheritance, Flesh and Fuel inscribes itself within a tradition that understands art as a space for reflecting on the individual, only then to attempt to transgress and expand it into a discussion of affect within this cruel system. It is a pity, however, that the reflection proposed by Le Gall ultimately proves superficial.
Étienne (Alexis Manenti) is a truck driver operating within a cooperative pressured by the competitive logic of a shrinking market. We soon learn that his company has lost two contracts for refusing to lower its prices, even as fuel costs continue to rise. Étienne is a body in perpetual motion, a subject whose emotional life has been reduced to meetings with co-workers, appearances at family gatherings, and episodic sexual encounters in parking lots and public restrooms, where desire manifests as a momentary release of what is otherwise repressed by an exhausting work routine. The rest of the time, he remains behind the wheel, which becomes a mechanical extension of himself. It is where he eats, from where he observes the industrial, dehumanized landscapes he traverses, and from where his pain emerges—physical pain, for which he uses a lumbar support, and emotional pain.
During one of his trips, Étienne meets Bartosz (Julian Świeżewski), a Polish truck driver with whom he becomes sexually involved and who shares the same precarious condition. Bartosz, however, demonstrates a greater awareness of his position within the system, something Étienne seems to ignore, as well as embodying the promise of a lasting and stable relationship, unlike Étienne’s previous and ongoing affective experiences. This encounter establishes, in theory, the film’s central dramatic conflict: the emergence of a love that exists in defiance of a labor regime that renders any form of stability virtually impossible.
It is precisely here that the central contradiction of Flesh and Fuel lies. By gradually shifting its focus from an analysis of oppressive working conditions to the development of the relationship, Le Gall appears to believe that affection can function as a space of resistance. And indeed, it can—especially if we consider that, in a society defined by exhaustion, we lack both the time and the energy to love, to desire, and to engage sexually. If two individuals nonetheless choose to live out that love and desire, they inevitably challenge a system that seeks to reify them as machines. Yet this is also where the superficiality I mentioned emerges.
Despite its ambitions, the film does not successfully articulate these two dimensions—the labor-related and the affective—in an organic manner. The precarization of work, so clearly established in the early moments, gradually becomes diluted, reduced to a backdrop that, while never entirely absent, loses its critical force. Étienne’s relationship with a relatively understanding boss and the pressures of tight deadlines are treated gently, if not outright simplified into trivial resolutions (for instance, the easy granting of a leave request). It is possible that we are dealing with a company that operates “fairly,” which shifts the problem onto the broader system itself. Yet in doing so, the film relinquishes the opportunity to construct a more defined antagonism.
The romance, which should assume narrative centrality in this shift, also lacks the necessary depth. Although there is a notable chemistry between Manenti and Świeżewski, the moments they share are relatively scarce and dependent on somewhat hollow ellipses. One might argue that these very ellipses embody the effects of capitalist oppression, frustrating the continuity of their relationship. It is indeed possible to infer the construction of a bond within a precarious context, but this bond rarely materializes on screen, at least not until the third act.
There are, however, elements that remain consistently compelling throughout the film. The attention given to transient landscapes—the so-called “non-places” that structure the truckers’ world—is perhaps the most coherent aspect of Le Gall’s aesthetic proposal. At times, I had the impression of traveling extensively while remaining in the same place. Through the truck cabin, cities, industrial zones, and tourist landmarks all appear equal in their transience, becoming fleeting and interchangeable images. This homogeneous space stands as perhaps the film’s greatest strength: a narrative of flow and circulation rather than permanence.
When Étienne travels to Poland, he partially suspends work in favor of life, opening up a fleeting possibility of rebuilding what seemed like a lost connection. In another of Le Gall’s effective choices, the system remains present, albeit in a different form. Bartosz now works in a department store that operates under the same capitalist logic, even if it appears less physically taxing than life on the road. Many of the film’s ideas are present here, but what is missing is the sharpness required to move beyond the surface. How does one construct a love story capable, even in theory, of subverting the capitalist logic of contemporary labor? Flesh and Fuel gestures toward an answer, but ultimately dilutes both its critique and its romance.
Although it clearly identifies the issues it seeks to address, Flesh and Fuel, like Étienne, seems to hesitate when it comes to carrying them through to their ultimate consequences. Between flesh and fuel, between critique and symbolic contemplation, what remains is a work that orbits its own themes without ever fully confronting them. It is a good film—one whose shortcomings, in the eyes of this critic, speak as much to the arduous task of portraying the worlds of labor and human relationships as they do to its own limitations.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

