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O Drama

Classificado como 4 de 5

O Drama

2026

105 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Kristoffer Borgli

Kristoffer Borgli transforma os clichês da comédia romântica em uma tragicomédia incômoda sobre fantasia, negação e autoengano.

É interessante iniciar uma reflexão sobre O Drama, do diretor norueguês Kristoffer Borgli, a partir daquilo que é, de fato, o começo do filme. Já na primeira sequência, Borgli estabelece a tônica de sua mise-en-scène: um aparente início clichê de comédia romântica hollywoodiana que, aos poucos, ganha camadas e se subverte por meio de uma incursão narrativa pelos aspectos subjetivos dos pontos de vista – ou de audição – dos personagens.

Temos acesso à perspectiva de Charlie (Robert Pattinson), protagonista do longa, acompanhando seu raciocínio enquanto bola um plano para se aproximar de Emma (Zendaya). O que, nesse primeiro momento, pode parecer engraçado e até certo ponto inocente acaba se revelando indício de uma mente inquieta, beirando – ou mesmo ultrapassando – os limites da neurose: pelo estratagema criado, pela mentira contada e pela reação exagerada ao não ser respondido como esperava. Já em relação à perspectiva de Emma, nosso acesso é bem mais limitado e, a princípio, até difícil de compreender. A “surdez” de um dos ouvidos da personagem é incorporada pelo desenho de som do filme sem aviso prévio, fazendo com que tenhamos uma sensação de estranhamento semelhante à que Charlie vivencia ao não ser escutado. Isso se mantém até o momento em que a explicação da moça vem, seguida de uma proposta que também estabelece uma pista importante para a compreensão de sua personalidade: “vamos fingir que nada aconteceu e começar de novo?”.

Esses dois elementos – a neurose de Charlie e a escolha de Emma por uma negação consciente de realidades inconvenientes, metonimizada pela surdez de um único ouvido – são a chave para navegar o delicioso e incômodo fluxo de acontecimentos absurdos que vão se amontoando até se transformar em uma confusão gigantesca. Tudo isso é ilustrado com muita habilidade pelas escolhas feitas pelo diretor e por sua equipe.

Emma (Zendaya) e a escuta seletiva que move O Drama.

Um dos pontos altos dessa camada formal do longa é a montagem. Muitas vezes construída a partir de uma lógica rítmica, ela transforma em ansiedade para o espectador os arroubos e divagações mentais dos protagonistas, principalmente de Charlie. Essa mistura de imaginação e realidade, encadeada de forma veloz e ritmada, oferece ao filme um dinamismo hipnótico, por vezes interrompido por momentos de lentidão que servem ao tom satírico assumido pela obra. Isso acontece em sequências-chave, como no diálogo em que os personagens revelam “as piores coisas que já fizeram na vida”. Ali, os muitos cortes dão lugar a planos mais longos. A conversa é construída com calma e vai escalando até o constrangimento, enfatizado pela permanência da câmera no rosto dos atores, evidenciando suas reações. Um jantar despretensioso entre amigos vai se convertendo em uma verdadeira tortura interminável a partir da revelação feita por Emma e, principalmente, da reação de Rachel (Alana Haim).

Nesse ponto, vale abrir um pequeno parêntese para mencionar o trabalho de Alana Haim como a amiga da noiva. A atriz compõe uma figura deliberadamente incômoda, dotada de uma aura passivo-agressiva tão natural que parece contaminar a tela toda vez que entra em cena. A personagem é fundamental para a virada que o filme opera, estabelecendo o tom que a narrativa adota após o fatídico jantar entre amigos.

Mas, se Haim ajuda a definir o tom, Robert Pattinson e Zendaya constroem a melodia que se segue. A comédia romântica “estranha” da primeira cena escala para uma tragicomédia que explora temas complexos sem medo de deixar arestas problemáticas pelo caminho. Ao encarar frontalmente assuntos como ataques armados em escolas e abuso nos relacionamentos, sem oferecer uma conclusão redentora, O Drama caminha sobre uma corda bamba, principalmente no que diz respeito à sua recepção por determinados setores do público e da crítica.

O jantar que muda tudo.

É importante ressaltar que cinema não é – nem deveria ser – um manual de bom comportamento. Personagens com atitudes condenáveis não precisam necessariamente ser punidos no final para que se evidencie o posicionamento moral de seus autores diante das situações encenadas. A virtude de Borgli, aqui, está na construção inventiva de uma narrativa que justamente não oferece respostas fáceis, como uma comédia romântica mais tradicional geralmente faria, mas ainda assim se mantém coerente com seus próprios personagens. O polêmico final, em que o casal escolhe viver a fantasia de que está tudo bem, já estava plantado desde o primeiro encontro, efetivando uma rima narrativa bastante perspicaz.

É essa predisposição a viver fantasias e interpretar papéis que faz com que Emma escolha enxergar – ou, novamente, escutar – apenas a parte que lhe convém do rapaz bonito e simpático que conhece na cafeteria. Essa mesma característica é o que a leva a interpretar o papel da menina incompreendida e violenta para se afirmar na adolescência, ou o de ativista antiarmamentista quando isso lhe parece conveniente. São escolhas questionáveis, é verdade, mas totalmente coerentes com a lógica interna que o roteiro estabelece para a personagem, de longe a mais interessante do longa.

Charlie, por sua vez, possui bem menos camadas. É o homem médio que, do alto de seus privilégios, não precisa lidar – ou lida muito pouco – com as consequências negativas das próprias ações. Inseguro e excessivamente preocupado com as aparências, entra em uma espiral de paranoia ao descobrir que a mulher com quem vai se casar é mais complexa do que a imagem da mocinha de comédia romântica que ele idealizava em seus votos – e, talvez, mais complexa do que ele próprio. É Charlie quem protagoniza e oferece, na maior parte do tempo, o olhar adotado pela narrativa. Seu caráter não confiável, portanto, também contamina o que vemos, fazendo com que nossa perspectiva sobre os fatos se confunda.

Desse encontro floresce uma obra com considerável nível de subversão de expectativas, desafiadora sobretudo por se filiar a um gênero historicamente simples e maniqueísta. Mas é justamente dessa capacidade de desafiar criativa e moralmente a audiência que nasce um dos filmes mais interessantes lançados comercialmente em 2026 até aqui. Daqueles diante dos quais a indiferença não é uma opção ao final. Fico do lado dos que o adoraram.

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