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Searching for Drug Peace

Classificado como 3.5 de 5

Searching for Drug Peace

2026

89 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Alisher Balfanbayev

Crítica em português

A descriminalização ou legalização da maconha apenas veio após ativistas desafiarem a proibição e abrirem os seus comércios, desafiando o Estado e a sua força repressora, a polícia. Um destes ativistas, Dana Larsen, inclusive brinca que sofrer uma batida policial pode significar uma boa publicidade para o movimento que encampa, o de descriminalização ou legalização de todas as drogas. Dana, com seu senso de humor que conheceremos em Searching for Drug Peace, é um personagem que resume bem a natureza contraditória da guerra às drogas. Provocador, Dana reconhece que o Estado, ao reprimir esses comportamentos, intensifica e aprofunda a crise que afirma combater. Medo e proibição historicamente só levam a mais crimes e riscos, sobretudo para o usuário, que não deixará de existir porque o Estado proibiu o comércio de uma droga. O que pode salvar um usuário é o comércio ético e responsável e a consciência, por mais paradoxal que pareça.

O documentário dirigido, corroteirizado e fotografado por Alisher Balfanbayev compreende perfeitamente a ironia estrutural da guerra às drogas, que não funcionou no governo Ronald Reagan e não funcionará, porque a droga não é a causa, é a fuga. Desde o minuto inicial, o diretor estabelece o seu posicionamento sem o mínimo vestígio de ambiguidade. As imagens de arquivo de repressão policial durante as manifestações pró maconha contextualizam historicamente um conflito que ultrapassa a pauta legislativa conservadora contra substâncias ilícitas. O que está em jogo é o fracasso do sistema repressor e proibicionista, que nunca alcançou o objetivo de impedir o tráfico e uso de drogas – vide a epidemia de Fentanyl no hemisfério norte americano – e a apresentação de uma alternativa a partir de um exemplo que há na cidade de Vancouver.

É dentro desse contexto que surge o já mencionado Dana Larsen, uma figura simultaneamente fascinante, controversa e politicamente complexa. Depois da legalização da maconha no Canadá em 2018, Dana amplia a sua militância e inaugura um dispensário responsável pela comercialização de substâncias psicodélicas como cogumelos alucinógenos e folhas de coca. A premissa é provocativa à primeira vista, sobretudo porque o documentário compreende que muitos espectadores reagirão inicialmente com estranhamento ou rejeição a ela (Dana não deixa de agir contra a Lei, não é?). Contudo, o mérito da obra está justamente em desmontar o juízo imediatista e propor uma pergunta: e se a alternativa para a redução do consumo de drogas sejá a sua legalização? Assim, Dana não é apresentado como um traficante caricatural nem como um messias revolucionário. Ele surge como alguém convencido de que a política proibicionista fracassou de maneira tão absoluta que insistir nela se tornou não apenas ineficaz, mas desumano.

Uma desumanidade realçada nas overdoses em massa e no abandono das populações vulneráveis à própria sorte. E Alisher não se limita a defender a descriminalização em um campo abstrato, mas concreto. Este microcosmos povoado por Dana envolve um centro de testagem gratuita de substâncias para identificar, por ex., contaminações letais, bem como espaços onde micro-doses podem ser comercializadas ao lado de políticas educativas do consumo seguro. Parece um oxímoro, mas lembre-se que o álcool já esteve nessa situação. Neste cenário, é transgressor assistir a pessoas que se denominam traficantes, operando com responsabilidade pública muito maior do que o Estado.

Dentro desse universo, o consumo de drogas não aparece como “desvio moral”, mas como questão de saúde pública ou recreação – por que não? Além do mais, como bem aponta Dana, marginal ao custo humano, há também o custo financeiro e sistêmico. A sobrecarga no serviço de saúde pública drena bilhões do Estado, que podiam ser empregados em outros campos. E, naturalmente, o documentário não endeusa Dana. Ele lucra com a venda das substâncias, mais do que em situações normais de concorrência. “A margem é maior“, informa no início. Ele mantém um negócio lucrativo e o filme não tenta apagar ou apaziguar isso. Enquanto desafia as autoridades e vende seus produtos, Dana também está genuinamente comprometido com as vidas que tenta proteger.

Ao menos é isso o que revela a sua consciência histórica. Em determinado momento, estabelece conexões entre as políticas antidrogas e as leis de segregação racial (as Leis de Jim Crow), argumentando que a criminalização das drogas serve como política de Estado, a fim de legislar sobre determinados corpos sociais (negros, gays, trans, marginalizados etc.).

Nesse sentido, Searching for Drug Peace ultrapassa a figura de Dana. O filme entende que ele é somente um entre um algo muito maior: um movimento de questionamento das políticas proibicionistas. A descriminalização aparece aqui não como incentivo ao consumo, mas como a tentativa de administrar uma realidade que jamais deixará de existir. O documentário insiste numa ideia fundamental: tornar legal não significa necessariamente estimular o vício; significa reconhecer que o vício já existe e que empurrá-lo para a clandestinidade apenas aumenta sua letalidade e invisibilidade. O crime de Dana torna visível e melhor administrável uma situação que o Estado varreria sob o seu tapete se as pessoas não estivessem esquecidas nos espaços públicos.

Alisher equilibra a dimensão individual e a análise estrutural. O filme acompanha uma batida policial através das câmeras de segurança e as disputas legislativas e os confrontos jurídicos envolvendo Dana, enquanto assiste às vidas humanas atravessadas por essas políticas ou as perdas que poderiam ser impedidas. É a dimensão mais concreta do documentário, no qual para além de números, estatísticas ou leis, são as vidas humanas que de fato importam.

O viés narrativo é evidente, e se este ou aquele espectador lamentar a falta de um contraponto mais robusto à ideia defendida por Dana é porque este discurso já está impregnado nos discursos populistas da guerra às drogas. Ao término, a pergunta que fica não é se as drogas são boas ou ruins, mas por que as sociedades continuam insistindo em políticas que fracassam repetidamente, enquanto milhares morrem todos os anos. A guerra às drogas é mais a guerra contra os pobres – não contra a pobreza. Contra aquelas pessoas que não possuem os meios de impedir que o vício os engula ou redes de proteção capazes de auxiliá-los.

Searching for Drug Peace é um documentário importante – e nem gosto desta palavra ao refletir sobre um filme, mas aqui é cabível – pois possui coragem para questionar consensos morais aparentemente inabaláveis e lembrar que, antes de ideologias, existem vidas humanas sacrificadas em uma guerra há muito tempo perdida. E que continuamos travando.


English review

The decriminalization or legalization of marijuana only became possible after activists defied prohibition and opened their own businesses, challenging both the State and its repressive force: the police. One of these activists, Dana Larsen, even jokes that being raided by the police can amount to excellent publicity for the movement he champions — the decriminalization or legalization of all drugs. Dana, with the sense of humor we come to know throughout Searching for Drug Peace, is a figure who perfectly encapsulates the contradictory nature of the War on Drugs. Provocative by nature, Dana recognizes that the State, by repressing these behaviors, only intensifies and deepens the very crisis it claims to combat. Historically, fear and prohibition have led only to more crime and greater risks, especially for users, who will not simply cease to exist because the State has banned the sale of a substance. What may actually save users is ethical and responsible commerce alongside education and awareness, paradoxical as that may sound.

The documentary, directed, co-written, and photographed by Alisher Balfanbayev, perfectly understands the structural irony of the War on Drugs, which did not work under Ronald Reagan’s administration and will not work now, because drugs are not the cause — they are the escape. From its very first moments, the filmmaker establishes his position without the slightest trace of ambiguity. Archival footage of police repression during pro-marijuana demonstrations historically contextualizes a conflict that goes far beyond conservative legislative agendas surrounding illicit substances. What is at stake is the failure of a repressive and prohibitionist system that has never achieved its goal of stopping drug trafficking and drug use — as evidenced by the fentanyl epidemic across North America — and the presentation of an alternative through the example emerging from the city of Vancouver.

It is within this context that the already-mentioned Dana Larsen emerges, a figure simultaneously fascinating, controversial, and politically complex. Following the legalization of marijuana in Canada in 2018, Dana expanded his activism and opened a dispensary responsible for selling psychedelic substances such as hallucinogenic mushrooms and coca leaves. The premise is provocative at first glance, especially because the documentary understands that many viewers will initially respond with discomfort or rejection (after all, Dana is openly acting against the law, isn’t he?). Yet the film’s greatest achievement lies precisely in dismantling this immediate judgment and proposing a question: what if the alternative for reducing drug consumption is legalization itself? Thus, Dana is portrayed neither as a caricatured dealer nor as a revolutionary messiah. He appears instead as someone convinced that prohibitionist policies have failed so absolutely that insisting upon them has become not only ineffective, but inhumane.

An inhumanity made visible through mass overdoses and the abandonment of vulnerable populations to their own fate. And Alisher does not defend decriminalization merely on an abstract level, but on a concrete one. This microcosm built around Dana includes a free drug-testing center capable of identifying lethal contaminations, alongside spaces where microdoses may be sold together with educational initiatives promoting safer consumption. It sounds like an oxymoron, but it is worth remembering that alcohol once occupied a similar social position. In this context, it becomes genuinely transgressive to witness people who identify themselves as dealers operating with a far greater sense of public responsibility than the State itself.

Within this universe, drug use is not framed as a “moral deviation,” but rather as an issue of public health — or recreation, why not? Moreover, as Dana himself points out, beyond the human cost there is also a financial and systemic cost. The strain placed upon public healthcare systems drains billions from the State, resources that could otherwise be directed elsewhere. Naturally, the documentary does not canonize Dana. He profits from the sale of these substances, and by his own admission profits substantially more than he would under ordinary market competition. “The margins are bigger,” he remarks early on. He operates a lucrative business, and the film does not attempt to erase or soften that reality. While challenging authorities and selling his products, Dana also appears genuinely committed to protecting the lives he seeks to save.

At least that is what his historical awareness reveals. At one point, he draws connections between anti-drug policies and racial segregation laws — the Jim Crow laws — arguing that the criminalization of drugs functions as a mechanism through which the State legislates over specific social bodies: Black people, gay people, trans people, the marginalized.

In this sense, Searching for Drug Peace transcends Dana himself. The film understands that he is merely one visible part of something much larger: a broader movement questioning prohibitionist policies. Decriminalization appears here not as encouragement toward consumption, but as an attempt to manage a reality that will never cease to exist. The documentary insists upon a fundamental idea: making something legal does not necessarily stimulate addiction; it means recognizing that addiction already exists and that forcing it into clandestinity only increases its lethality and invisibility. Dana’s “crime” renders visible — and therefore more manageable — a situation the State would prefer to sweep beneath the rug, were it not for the bodies abandoned in public spaces.

Alisher balances the individual dimension with structural analysis. The film follows police raids through security-camera footage, legislative disputes, and legal confrontations involving Dana, while simultaneously observing the human lives shaped by these policies and the losses that could potentially have been prevented. This is the documentary’s most concrete dimension: beyond statistics, laws, or political rhetoric, it is human lives that truly matter.

The film’s narrative bias is evident, and if some viewers lament the absence of a more robust counterargument to Dana’s ideas, it may simply be because that counterargument already permeates decades of populist War on Drugs discourse. By the end, the central question is no longer whether drugs are inherently good or bad, but why societies continue insisting on policies that repeatedly fail while thousands die every year. The War on Drugs is far more a war against the poor than against poverty itself. A war against those who lack the means to prevent addiction from consuming them, or the support networks capable of helping them survive it.

Searching for Drug Peace is an important documentary — and I rarely enjoy using that word when discussing cinema, though here it feels appropriate — because it possesses the courage to challenge seemingly untouchable moral consensuses and remind us that, before ideology, there are human lives being sacrificed in a war that was lost long ago. And one we continue to fight anyway.

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