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Surda

Classificado como 4 de 5

Surda

2026

98 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Eva Libertad

Em uma arte sonorizada para ouvintes, é incomum ouvir as vozes de pessoas surdas. Quando acreditamos ouvi-las, ou são personagens à margem (ex. O Som do Silêncio), ou coadjuvantes que servem de escada para os dramas centrais dos protagonistas ouvintes (ex. No Ritmo do Coração), ou narrativas que instrumentalizam a surdez como experimentação formal extrema (ex. A Gangue). E gosto de cada um dos filmes citados, mas é que Surda pega em um ponto menos explorado, o da exclusão social e inadequação de uma mulher surda e grávida que acreditava ter a dignidade de ser ouvida até perceber que não está mais sendo.

Expandindo o conceito do curta-metragem de 2021, a diretora e roteirista Eva Libertad faz de Surda uma história sobre muitos temas que se interconectam porque indissociáveis dentro da experiência de Angela (Miriam Garlo, a irmã da diretora), que vive a gravidez pela primeira vez. Ao lado do companheiro Hector (Álvaro Cervantes), Angela tem uma vida normal para os espectadores que aguardam dramatizações sensacionalistas da deficiência da protagonista. Um relacionamento afetivo com divisão da rotina doméstica, uma vida social e familiar compartilhada entre os amigos dela (surdos) e os amigos dele (ouvintes), e uma expectativa para o nascimento da filhinha Ona, que pode ou não nascer surda. A impressão é de que os pais estão pronto para este arremesso de moeda – a médica fala que a probabilidade é de 50%.

Mesmo que lide com as microviolências diárias, por ex. um atendente que não se comunica em língua de sinais em uma loja de produtos destinada ao público surdo, Angela tem uma rede de apoio significativa e amigos ouvintes que, pelo menos, esforçam-se para atenuar os entraves comunicacionais. O que parece ser um ato falho, a confusão entre o gesto de surpresa e o de susto, torna-se o motor emocional da trajetória de Angela pelos primeiros meses da maternidade. Rapidamente, as mágoas e traumas infiltram-se silenciosamente por entre as rachaduras imperctíveis de uma vida perfeita, e Angela, a partir de um momento praticamente solo, precisa aprender a navegar por esses mares turbulentos que é o de ser uma mãe surda de primeira viagem.

Eu estou com você o tempo todo“, afirma Hector, que é quem ajuda Angela a navegar pelo mundo ouvinte. Hector atua como intérprete, não somente para aqueles que não compreendem a língua de sinais, mas ainda das músicas que verbaliza com a boca e o corpo. Só que, bruscamente, Hector deixa de estar com Angela o tempo todo. Este movimento é antecipado na sala de parto após a médica solicitar ao marido que se afaste, em uma sequência que é o cartão de visitas para diretora e elenco, dada a complexidade da encenação e o talento em transformar aqueles minutos em alguns dos momentos mais angustiantes do ano. Um gesto que é repetido por Angela ao arrancar à força do rosto da médica a máscara que cobria o seu rosto, a fim de poder compreender o que está falando lendo os seus lábios.

O parto traumático até tem um desfecho feliz; a maternidade, não. Para além de não ouvir o choro da filha, por motivos óbvios, Angela se ressente por ser incapaz de compartilhar o momento em que os avós cantam uma canção ou participar de um marco da primeira infância, a primeira palavra falada, que fica restrito a Hector, como um segredo dividido somente com a filha. Esta alienação dentro do próprio lar é acentuada pelo distanciamento progressivo com o companheiro – que começa a desconfiar da maternança de Angela – e pela insegurança ao observar o filho ouvinte de uma de suas amigas.

Isso apresenta oportunidades bem exploradas pela direção. Embora não utilize aparelhos auditivos que, em tese, permitiriam-lhe conviver no mundo dos ouvintes, Angela coloca um fone de ouvidos na filha para inibir os estímulos sonoros. Este ato contraditório é o gesto mais desesperado de uma mãe que tenta, de alguma forma, estabelecer uma forma de conexão com a filha, um tema não incomum no cinema, mas apresentado de maneira originalmente complexa. Ao lado da diretora de fotografia Gina Ferrer García, Eva “isola” Angela na imagem e a posiciona em um plano diferente dos outros, reforçando o que já é estruturalmente árduo e se torna aparentemente invencível em um dilema familiar que não tem solução imediata que não passe pelo diálogo e pela autorreflexão.

Com o passar da narrativa, indago-me: Angela exclui-se ou é excluída? Dos elementos que mais gosto de Surda é que essa resposta é em vão. Eva toma cuidado de acentuar o isolamento de Angela a partir de algumas de suas escolhas, a de não utilizar o aparelho auditivo é a mais expressiva, mas não a julga – embora deixe que o espectador crie sua convicção. A forma revela que o julgamento de cada um é, no mínimo precipitado, quando não desumano, ao rejeitar o ponto de vista objetivo de dois terços da narrativa, em prol da subjetividade de Angela. Nossos julgamentos caem por terra quando passamos a escutar só os sons abafados, e porque era tão importante para Angela o olhar ao interlocutor ouvinte, ou colocamos os aparelhos auditivos que parecem servir só para acentuar os ruídos.

Esse convite a dividir, por 15 minutos, a experiência subjetiva da personagem apresenta ao espectador a realidade que pensava conhecer. É o atestado de maturidade de Eva, Angela não precisar ser uma vítima perfeita para que tenhamos empatia em razão de sua deficiência. A insegurança da personagem pode até contribuir para o agravamento do conflito familiar, mas se Angela tem a sua justificativa na surdez, nós não temos nenhuma que não a indiferença sob o manto de empatia. Enquanto isso, como tantas mulheres, Angela aprende a ser mãe e a alegrar-se com as vitórias que podem conquistar.

Surda estreia quinta-feira, 14 de maio, nos cinemas brasileiros.

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