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The Diary of a Chambermaid

Classificado como 4 de 5

Le Journal d'une femme de chambre

2026

94 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Radu Jude

Crítica em português

Estreando numa produção em língua francesa, com a adaptação de um romance clássico de Octave Mirbeau, Radu Jude não abandonou absolutamente nada daquilo que transformou a sua filmografia numa das mais ácidas, hilárias e intelectualmente estimulantes do cinema contemporâneo. Neste The Diary of a Chambermaid, o diretor somente deslocou o olhar à Europa ocidental a fim de continuar a registrar os absurdos exploratórios dentro da experiência migratória da protagonista Gianina (Dumitrascu).

Gianina trabalha para uma família burguesa francesa enquanto sua própria filha cresce sozinha na Romênia, com a relação entre ambas sobrevivendo somente através de chamadas de vídeo. Às noites, Gianina participa de uma trupe de teatro formada por imigrantes, que ensaia justamente uma adaptação da obra de Mirbeau. Desta maneira, a narrativa estabelece uma espécie de espelho entre adaptação, representação e a vida como ela é; e entre a exploração histórica e contemporânea e como a passagem do tempo só mudou a natureza da exploração. Além disso, os patrões franceses interpretados por Vincent Macaigne e Mélanie Thierry não são as caricaturas de outrora, mas as caricaturas contemporâneas, burgueses que escondem, por trás da cordialidade e gentileza, o signo da exploração.

Aí é onde o filme se torna mais cruel, porque Radu Jude interessa-se em investigar como sistemas de exploração continuam funcionando mesmo quando desaparecem seus sinais explícitos de violência – que somente se transformam dentro da égide do sistema capitalista. Há a assimetria estrutural, pois, decerto, uma mulher romena não precisaria trabalhar na casa de uma família francesa caso contrário, mas há também a assimetria de um poder que não precisa se manifestar explicitamente. Pode ser em um pedido gentil para adiar suas férias, por exemplo, adquirindo um bilhete da classe executiva como prêmio de consolação.

E enquanto Gianina conta histórias de ninar para o filho dos patrões, Louen, participa de suas brincadeiras e de sua formação emocional, a sua filha cresce distante, uma órfã econômica praticamente (algo que o brasileiro Que Horas Ela Volta? retratou muito bem). E, semelhante à comédia dramática brasileira, Radu Jude evita que o filme se torne só um drama miserável, conferindo à narrativa o espírito de comédias absurdas e satíricas. E há raríssimos cineastas que entendem quão divertido pode ser o ridículo, não aquele atrás do qual nos escondemos com vergonha alheia, mas o ridículo que convida à constatação de quão cafona são a burguesia e tudo o que a cerca.

Há um humor seco, quase blasé, criado a partir de situações aparentemente corriqueiras. Num determinado momento, por exemplo, o garoto pede para que Gianina o filme defendendo uma bola em câmera lenta, numa cena cuja banalidade infantil produz um resultado hilário. Em outra sequência inspirada, os ensaios de uma cena sexual dentro da peça teatral revelam de novo a precisão do diretor para transformar o que poderia ser só constrangimento físico em um material cômico.

O mais fascinante é que Jude jamais força essas situações em direção ao humor; que apenas acontece. Sua encenação permanece formal e contida. A câmera estática, os enquadramentos fixos e a recusa de qualquer virtuosismo visual permitem que a comicidade surja de um ato, gesto ou desconforto da atuação, ou mesmo das contradições sociais que vão se acumulando na narrativa. Situações aparentemente inofensivas, diálogos a princípio burocráticos revelam os riscos humanos – por exemplo, o colega deportado por não ter a documentação válida -, os conflitos morais e o humor por trás da tragédia.

E Gianina, tão bem interpretada por Dumitrașcu, não possui um objetivo dramático que não a busca por identidade, pertencimento e a sobrevivência (sua e da filha). Sua ambição é manter a sua sanidade emocional até o Natal, quando poderá rever a filha; os cartões que documentam a passagem do tempo criam a contagem regressiva para o reencontro que pode, muito bem, ser adiado e até cancelado caso os patrões surjam com algum compromisso ou imprevisto. Gianina permanece invisível, e tanta evitar os conflitos que, no entanto, aparecem surgem dela. Ela é uma personagem claramente passiva, que apenas sobrevive, e da passividade advém não o humor, mas a melancolia que a cerca.

Já o teatro funciona não apenas como uma camada metalinguística, mas como um gesto político. Ao ensaiar sequências do livro repletas de crueldade e maldade, os personagens estabelecem um contraste com a relativa serenidade da vida cotidiana de Gianina. O teatro (um independente, ainda por cima) é o processo de elaboração de uma realidade que é negada porque o sistema a tornou mais palatável aos que exploram – que não querem, ou ao menos preferem não serem vistos como exploradores – e aos que são explorados – que tampouco desejam se encarar no espelho e encarar a sua condição.

O resultado é que The Diary of a Chambermaid reafirma aquilo que está evidente na trajetória de Radu Jude: não há muitos autores que articulam com precisão sátira sociopolítica, formalismo e comicidade, enquanto evitam tornar os seus personagens meros dispositivos. O cineasta transforma uma crítica sobre a comunidade europeia – cuja bandeira é apresentada deteriorada em determinado momento – em uma na qual os discursos são camuflados detrás do verniz do humor.

Um verniz que não esconde as ruínas da burguesia francesa, do sistema capitalista classista e da ilusão utópica da comunidade europeia.

O filme está na seleção da Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes 2026.


English review

Making his debut in a French-language production through an adaptation of a classic novel by Octave Mirbeau, Radu Jude abandons absolutely nothing of what has transformed his filmography into one of the sharpest, funniest, and most intellectually stimulating bodies of work in contemporary cinema. In this The Diary of a Chambermaid, the director merely shifts his gaze toward Western Europe in order to continue documenting the absurdities of exploitation embedded within the migratory experience of the protagonist, Gianina (Dumitrascu).

Gianina works for a French bourgeois family while her own daughter grows up alone in Romania, with the relationship between the two surviving solely through video calls. At night, Gianina joins a theater troupe composed of immigrants, rehearsing precisely an adaptation of Mirbeau’s work. In this way, the narrative establishes a kind of mirror between adaptation, representation, and life as it is; and between historical and contemporary exploitation, revealing how the passage of time has merely altered the nature of exploitation itself. Furthermore, the French employers, played by Vincent Macaigne and Mélanie Thierry, are no longer the caricatures of the past, but contemporary caricatures: bourgeois figures who conceal, beneath cordiality and politeness, the very sign of exploitation.

That is where the film becomes most cruel, because Radu Jude is interested in investigating how systems of exploitation continue to function even when their explicit signs of violence disappear — signs that merely transform themselves under the logic of capitalism. There is the structural asymmetry, of course, since a Romanian woman would not need to work in the house of a French family otherwise, but there is also the asymmetry of a power that no longer needs to manifest itself openly. It may emerge through a polite request to postpone her vacation, for example, accompanied by an executive-class plane ticket offered as a consolation prize.

And while Gianina tells bedtime stories to her employers’ son, Louen, participates in his games, and contributes to his emotional upbringing, her own daughter grows up far away, practically an economic orphan (something the Brazilian film The Second Mother portrayed brilliantly). Yet, much like the Brazilian dramedy, Radu Jude avoids allowing the film to become merely a miserable drama, infusing the narrative with the spirit of absurd and satirical comedy. Few filmmakers understand how genuinely funny ridicule can be — not the kind we hide behind out of secondhand embarrassment, but the ridicule that invites us to recognize just how tacky the bourgeoisie and everything surrounding it truly are.

There is a dry, almost blasé humor created from seemingly ordinary situations. At one point, for instance, the boy asks Gianina to film him saving a ball in slow motion, in a scene whose childish banality produces a hilarious result. In another inspired sequence, the rehearsals of a sexual scene within the theater play once again reveal the director’s precision in transforming what could have been mere physical awkwardness into comic material.

What is most fascinating is that Jude never forces these situations toward humor; it simply happens. His staging remains formal and restrained. The static camera, the fixed framing, and the refusal of any visual virtuosity allow comedy to emerge from an action, a gesture, an actor’s discomfort, or even from the social contradictions gradually accumulating within the narrative. Seemingly harmless situations and initially bureaucratic conversations reveal human risks — for example, the colleague deported for lacking valid documentation — moral conflicts, and the humor hidden behind tragedy.

And Gianina, so beautifully portrayed by Dumitrașcu, possesses no dramatic objective beyond the search for identity, belonging, and survival — both her own and her daughter’s. Her ambition is simply to preserve her emotional sanity until Christmas, when she may finally reunite with her daughter; the title cards documenting the passage of time create a countdown toward a reunion that could very well be postponed or even canceled should her employers suddenly present some obligation or unforeseen circumstance. Gianina remains invisible, trying so hard to avoid conflict that, paradoxically, conflicts seem to arise precisely around her. She is clearly a passive character, merely surviving, and from that passivity emerges not humor, but the melancholy surrounding her.

Meanwhile, the theater functions not only as a metalinguistic layer, but also as a political gesture. By rehearsing sequences from the novel filled with cruelty and malice, the characters establish a contrast with the relative serenity of Gianina’s everyday life. The theater — an independent one, moreover — becomes a process of elaborating a reality that is denied because the system has rendered it more palatable both to those who exploit — who do not want, or at least prefer not, to see themselves as exploiters — and to those being exploited, who likewise do not wish to look into the mirror and confront their own condition.

The result is that The Diary of a Chambermaid reaffirms what has already become evident throughout Radu Jude’s career: there are very few auteurs capable of articulating sociopolitical satire, formalism, and comedy with such precision while avoiding turning their characters into mere devices. The filmmaker transforms a critique of the European community — whose flag is shown deteriorating at a certain moment — into one in which discourse remains camouflaged beneath the varnish of humor.

A varnish that cannot conceal the ruins of the French bourgeoisie, the classist capitalist system, and the utopian illusion of the European community.

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