Crítica em português
Ira Sachs é um cineasta sensível que em The Man I Love filme a história de um homem já condenado pela morte, embora ainda o enxergue de maneira afetuosa, desejante, capaz de amar, criar arte e, inclusive, destruir-se ou destruir o que tem, apenas para exercer alguma forma de controle em sua vida. Ainda assim, este filme do diretor de Frankie é bastante frustrante: apesar do carinho por seus personagens, e até a memória histórica que resgata, fracassa em encontrar qual é a espinha dorsal narrativa entre tantas personagens, capazes de sustentá-la e dar-lhe razão de existir.
Ambientado na Nova York do final dos anos 1980, um período em que a epidemia do HIV/AIDS já havia devastado comunidades inteiras e, especialmente, a LGBTQ+, o roteiro acompanha Jimmy George (Rami), uma figura respeitada da cena teatral novaiorquina que, diante da iminência da morte causada pela doença, agarra-se aos últimos fragmentos possíveis de prazer, desejo e criação para se sentir vivo e existente. O seu companheiro Dennis (Sturridge) é quem lhe dá suporte afetivo e doméstico, cuidando para que tome regularmente todo o coquetel de medicamentos que tem de tomar ou para que a vida mantenha a aparência de normalidade, no encontro com os amigos e na visita da irmã de Jimmy, Brenda (Hall), junta do marido Gene (Bachrach).
Essa dimensão afetiva aparece, sobretudo, na maneira como Sachs enquadra os corpos em espaços estreitos por onde transitam. Mais do que só o sufocamento daquele contexto e destino, há um aconchego na proximidade dos corpos. Um gesto de carinho também presente na encenação: a câmera que permanece fixada em Jimmy enquanto ele canta durante as bodas de seus pais; a suspensão momentânea da imagem durante a dança do novo vizinho, Vincent (Ford); ou os longos planos em que os personagens coexistem em corredores, cozinhas apertadas e mesas superlotadas de alegrias, memórias e sonhos. Existe uma compreensão de como espaços comprimidos podem acolher e sufocar.
Nesse ambiente de cômodos e espaços apertados, Jimmy parece constantemente esmagado por algo que não consegue verbalizar. Antes que saibamos tratar-se da doença que é, já sentimos que Jimmy está adoecido emocional e psiquicamente. As conversas paralelas, as que nós escutamos sem compreendê-las inteiramente, ajudam a entender a atmosfera ao redor desse homem que todos amam. E não ajudam, porém, a compreender o relacionamento com Vincent, e nem mesmo o que este representa dentro da narrativa, senão a revelação de um homem que deseja encarar e desafiar física e sexualmente a sua condição terminal. Só pode ser isto, já que Sachs e o corroterista Maurício Zacharias não sabem muito bem o que fazer com a subtrama de Vincent – que assume uma relevância como se este fosse coprotagonista.
Paralelamente aos esforços irregulares narrativos, a fotografia de Josée Deshaies remete ao cinema norte-americano da década de 70, na granularidade, na iluminação amarelada e numa textura visual que faz com que Nova York pareça simultaneamente decadente e calorosa. A trilha sonora e o desenho de som também desempenham uma importância, especialmente quando as canções frequentemente colidem umas com as outras, sobrepõem-se, um encontro de ópera com uma música disco, algo que reflete o encontro entre Jimmy e Vincent mas não isenta a narrativa de havê-lo melhor desenvolvido.
O que é lamentável. Através do título, Sachs alude à ideia de um homem amado por todos ao seu redor. E Jimmy é cercado por pessoas que genuinamente o querem bem: a irmã, o sobrinho que o admira profundamente, o companheiro cuidadoso e, até mesmo, o cunhado emocionalmente mais distante, mas incapaz de rejeitar seu talento. Sachs constrói Jimmy como uma força gravitacional não somente em razão da doença – embora eu imagine que muitos já estejam se despedindo dele – mas especialmente em razão do fascínio que inspira. E é isto que é imperdoável, já que Rami Malek dá vida a um personagem completamente oposto ao que existe em texto.
É difícil não perceber limitação na composição de Malek, ou como se esforça demais, transformando Jimmy em uma espécie de diva, não no artista multifacetado e apaixonado pela vida. Não que estas ideias não possam conviver no mesmo personagem, somente que aquela toma precedência. E ocupado tanto por Malek, os demais personagens permanecem subdesenvolvidos e mantidos a uma distância, como se fossem somente os fragmentos que orbitam ao redor de Jimmy. A este respeito, o vizinho Vincent assume uma presença maior dentro da ação, invadindo a realidade de Jimmy para transformá-la. Mas a dinâmica é abstrata, na melhor das hipóteses: Vincent é musa ou é um sintoma da autodestruição? É o sibilo distante de um passado em que Jimmy amou e desejou ou é a materialização de desejos reprimidos – e se for, como isto dialoga com a epidemia do HIV/AIDS?
O roteiro parece hesitar em responder. Há uma sensação permanente de que as coisas simplesmente são, de que os amores existem, mas essa opção compromete decisivamente a coesão narrativa, o elemento emocional e mesmo a importância história. Além de ter perdido o eixo central da narrativa, não sabia se era a peça teatral para a qual Jimmy se preparava ou se era o relacionamento sexual com o vizinho, o filme ainda perde a beleza da comunidade criada e que se torna apenas um pano de fundo.
Apesar de formalmente exibir algumas boas decisões e merecer elogios pela recriação de um passado recente, The Man I Love é muito menos eficiente como um drama afetivo e romântico. Um filme que funcionaria melhor caso abandonasse a obrigação assumida ou o conflito amoroso, e simplesmente observasse seus personagens cantando, dançando, ensaiando e dividindo momentos de intimidade em apartamentos apertados, digo, aconchegantes. Havia afeto genuíno nesse olhar, e talvez seja justamente isso que torne a experiência tão decepcionante. Porque sentimos o carinho do diretor por aquelas pessoas, pela memória daquela geração devastada pela HIV/AIDS e pela tentativa de preservar seus últimos instantes de alegria. Mas amor, sozinho, nem sempre é suficiente para sustentar um filme.
O filme está na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2026.
English Review
Ira Sachs is a sensitive filmmaker who, in The Man I Love, tells the story of a man already condemned to death, yet still sees him affectionately, as someone capable of desire, love, artistic creation and even self-destruction — or the destruction of what he has — merely to exercise some form of control over his own life. Still, this new film from the director of Frankie is deeply frustrating: despite the tenderness it shows toward its characters, and even toward the historical memory it attempts to recover, it fails to discover the narrative backbone capable of sustaining so many characters and giving the story a genuine reason to exist.
Set in late-1980s New York, during a period in which the HIV/AIDS epidemic had already devastated entire communities — especially the LGBTQ+ community —, the screenplay follows Jimmy George (Rami Malek), a respected figure within the New York theater scene who, faced with the imminence of death caused by the disease, clings to the last possible fragments of pleasure, desire and artistic creation in order to feel alive and present. His partner Dennis (Tom Sturridge) provides emotional and domestic support, making sure Jimmy regularly takes the overwhelming cocktail of medications he depends on, while also maintaining some appearance of normalcy during gatherings with friends and visits from Jimmy’s sister Brenda (Rebecca Hall) and her husband Gene (Ebon Moss-Bachrach).
This emotional dimension appears above all in the way Sachs frames bodies within the narrow spaces they inhabit. More than merely expressing the suffocation of that context and destiny, there is comfort in the physical proximity of bodies. A gesture of tenderness that is also present in the staging itself: the camera lingering on Jimmy while he sings during his parents’ anniversary celebration; the temporary suspension of the image during the dance of the new neighbor, Vincent (Luther Ford); or the long takes in which the characters coexist in corridors, cramped kitchens and tables overflowing with joy, memories and dreams. Sachs understands how compressed spaces can both shelter and suffocate.
Within these confined rooms and narrow apartments, Jimmy constantly appears crushed by something he cannot fully verbalize. Even before we know it is the disease itself, we already sense that Jimmy is emotionally and psychologically ill. The overlapping conversations — those we overhear without entirely understanding — help establish the atmosphere surrounding this man whom everyone loves. Yet they do little to clarify Jimmy’s relationship with Vincent, or even what Vincent truly represents within the narrative, other than revealing a man who wishes to confront and physically and sexually challenge his terminal condition. That seems to be the only explanation, since Sachs and co-screenwriter Maurício Zacharias never seem entirely certain what to do with Vincent’s subplot — despite granting it a level of importance that makes him feel almost like a co-protagonist.
Parallel to these uneven narrative efforts, the cinematography by Josée Deshaies evokes American cinema of the 1970s through its grainy texture, warm yellowish lighting and visual atmosphere that makes New York appear simultaneously decadent and intimate. The soundtrack and sound design are equally important, especially when songs collide and overlap with one another — a fusion of opera and disco music that mirrors the encounter between Jimmy and Vincent, though this stylistic choice does not compensate for how underdeveloped their relationship ultimately feels.
Which is unfortunate. Through its title, Sachs evokes the idea of a man loved by everyone around him. And Jimmy is indeed surrounded by people who genuinely care for him: his sister, the nephew who deeply admires him, his attentive partner and even his more emotionally distant brother-in-law, who nonetheless cannot dismiss Jimmy’s talent. Sachs constructs Jimmy as a gravitational force not merely because of his illness — though one senses many around him are already mourning him — but because of the fascination he inspires. And that is precisely what becomes unforgivable, because Rami Malek brings to life a character almost entirely opposed to what exists on the page.
It is difficult not to notice the limitations in Malek’s performance, or how excessively hard he seems to be trying, transforming Jimmy into a sort of diva rather than the multifaceted artist passionately in love with life. Not that these ideas could not coexist within the same character, only that the former overwhelms the latter. And because Malek occupies so much space within the film, the remaining characters remain underdeveloped and emotionally distant, existing merely as fragments orbiting around Jimmy. In this respect, Vincent assumes an even larger presence within the narrative, invading Jimmy’s reality in order to transform it. Yet their dynamic remains abstract at best: is Vincent a muse, or a symptom of self-destruction? Is he the distant echo of a past in which Jimmy loved and desired freely, or the materialization of repressed desires? And if so, how does that meaningfully engage with the HIV/AIDS epidemic?
The screenplay seems hesitant to answer. There is a constant sensation that things simply exist as they are, that love merely happens, but this aesthetic choice decisively compromises the narrative cohesion, the emotional force and even the historical importance of the film. Beyond losing sight of its central dramatic axis — whether it should be the theatrical production Jimmy is preparing for or his sexual relationship with the neighbor — the film also loses the beauty of the community it initially builds, reducing it to little more than background texture.
Despite displaying several strong formal decisions and deserving praise for recreating a recent past with sensitivity and care, The Man I Love is far less effective as an emotional and romantic drama. It is a film that would function much better had it abandoned the obligation of constructing a romantic conflict altogether and simply observed its characters singing, dancing, rehearsing and sharing moments of intimacy inside cramped — or perhaps cozy — apartments. There was genuine affection in Sachs’ gaze, and perhaps that is precisely what makes the experience so disappointing. Because we can feel the director’s tenderness toward those people, toward the memory of that generation devastated by HIV/AIDS, and toward the attempt to preserve their final moments of joy. But love alone is not always enough to sustain a film.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

