Crítica em português
A partir de correspondências de seus bisavós, Henri e Paulette, bem como de elementos históricos e criação artística, o diretor e roteirista Emmanuel Marre (de Bem-vindos a Bordo) realizou uma biografia, um documento histórico de alguma forma e uma exploração de como regimes totalitários podem se infiltrar em sociedades sadias e democráticas a partir de leis, normas e burocracias que lhe dão algum tipo de aparência de normalidade. É mais um filme selecionado pelo Festival de Cannes e que narra o período da ocupação nazista na França: Moulin discutiu o momento em que o líder da resistência Jean Moulin viajou à Lyon e acabou apreendido por nazistas; já When the Night Falls a manobra adotada homens e mulheres para tentar salvar o máximo de judeus franceses antes que fossem levados para os campos de concentração.
A Man of His Time, o título internacional de Notre Salut, precede os filmes citados anteriormente e tem início quando Henri Marre chega à Vichy, a capital da denominada Zona Livre, presidida pelo Marechal Pétain. Financeiramente quebrado e afastado da família após a escrita e publicação do manifesto Notre Salut – ou Nossa Salvação -, Henri (Arlaud) está determinado a conquistar um cargo na administração de Pétain. O que eventualmente acontece, mas com algum grau de exposição ou humilhação. Ele é empossado como o inspetor responsável por Limoges, um cargo dentro da estrutura do Ministério do Trabalho, que tenta reduzir o desemprego, e talvez até consiga fazê-lo, graça à sua formação em engenharia e, mais ainda, de seu apreço por números, métricas e eficiência acima de tudo.
Henri é um tecnocrata, o homem apropriado para ajudar, mesmo inconscientemente, a implantação do regime nazista, considerada a sua obediência fiel a normal e regulamentos, ao zelo com que presta contas e preza pela regularidade de demonstrações contábeis – uma em que a sua humanidade é testada, inclusive – e que pensa em pessoas como números. Em certo instante, apesar de desconfortável, negocia uma cota de trabalhadores para atender aos pedidos do regime nazista, o que, certamente, diminuiria o número de desempregados. Mas a qual custo? Ele foi, na falta de expressão mais apropriada, cúmplice e colaborador. Um homem patriótico que, no afã de unir e restaurar a França, ou de salvar a sua família e sua razão de existir, tornou-se um instrumento temporário do regime excepcional. É corajoso que o cineasta tenha revirado o baú de história da família e revelado correspondências e intimidades.
Mas o que é mais interessante é a forma como Emmanuel opta por fazê-lo. A sensação é de estarmos acompanhando uma ficção com ar de documentário às vezes, especialmente em razão da câmera na mão com que o diretor enquadra, perde e procura Henri na imagem ou do modelo de iluminação em algumas cenas, que dá a impressão de a fonte de luz ser só a da lâmpada quente de uma daquelas câmeras antigas que apontam diretamente ao rosto de Arland. Aliás, eu até me perguntei como o ator conseguia manter a expressão serena, e não tensa, com tanta iluminação dirigida a seu rosto, o que criou um efeito competente de exposição. Que é o que Emmanuel propõe a fazer desde a cena pré-créditos.
Nela, o personagem cujo nome ainda desconhecemos, é enquadrado em close-up que se afasta enquanto entreouvimos o que as pessoas ao seu redor estão conservando. Dentro do que parece ser uma reunião política, Henri é frequentemente deixado de lado, e então precisa ser procurado pela câmera, encontrado lateralmente ou no pano de fundo. Ele ainda é um zé ninguém no regime, em uma decisão formal que o filme continuará a repetir como método de expor a irrelevância e, portanto, descartabilidade do personagem. Por exemplo, durante a foto dos inspetores, quando já alcançou posição de prestígio, Henri ainda assim é mantido no fundo, como se esta fosse uma mistura de vergonha por compor aquele grupo, ou, como prefiro interpretar, um sentimento de não pertencimento.
Porque, de fato, Henri não parece ser uma má pessoa, mas está a serviço de um regime que é mau. Algo que Henri poderia ter entendido – que o seu chefe imediato no comitê já entendeu – é que não existe a ideia de bem-estar ou de humanidade em um regime totalitário. A cena em que Maux tenta acessar o Marechal Pétain é, ao mesmo tempo, eficiente em revelar esta figura histórica só de costas, como opô-lo com Henri no pano de fundo. Durante tanto tempo mergulhado em ideais de eficiência da máquina pública ou do país, facilmente uma pessoa pode começar a esquecer que, por trás de números, há pessoas.
Como há uma pessoa durante as correspondências trocadas com Paulette (Blancke). São momentos em que a direção confia muito mais na linguagem falada do que na linguagem de imagens; estes se tornam momentos elegantes e serenos, como se não disputassem nossa atenção, mas nos convidassem a prestar atenção ao que é dito in off. E são momentos eficientes em como quebram, temporariamente, o ritmo mais ágil de uma narrativa construída em reuniões, celebrações ou jantares que colocam a burocracia como um processo essencial aos interesses nazistas na Europa.
Apesar de gostar das trocas de epístolas, a relação entre Henri e Paulette é uma incógnita mesmo quando aparece acompanhada de sua família. Essa relação deteriorada é melhor compreendida por momentos como aquele em que Henri compra-lhe um vestido elegante, só que não sabe discernir a frente das costas e nem enxergar que é um vestido que não combina com a personalidade da esposa ou com a mensagem que deseja passar a seus superiores. Ela é encarada como uma mulher à frente de seu tempo: a música e a dança anacrônicas reforçam essa qualidade. Mas para um homem tão tecnicista, é fácil entender como não é capaz de captar ironias ou nuances: quando o comitê está discutindo o trabalho feminino e Henri apresenta a sua solução – as mulheres trabalharem serviços menores dentro de casa… de maneira remunerada -, logo depois pede à sua secretaria Corinne que lhe busque café. Uma cena maliciosa cujo efeito é sentido por nós, não por ele.
Ainda que goste da coragem de Emmanuel em expor a história da família, da maneira feita, a narrativa é um tanto irregular e desigual. Neste caso, são breves os momentos em que Henri reconhece as consequências dos atos que praticou, diante dos momentos em que somente permaneceu o ignorante útil. De todo modo, é um conto de advertência para as pessoas que pensam somente em termos de eficiência, e esquecem que, por trás dela, existem pessoas.
O filme está na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2026.
English review
Drawing from correspondence exchanged by his great-grandparents, Henri and Paulette, as well as from historical elements and artistic invention, director and screenwriter Emmanuel Marre — known for Zero Fucks Given — crafted a biography, a kind of historical document, and an exploration of how totalitarian regimes can infiltrate healthy democratic societies through laws, norms, and bureaucracies that lend them an appearance of normality. It is yet another film selected by the Cannes Film Festival that deals with the Nazi occupation of France: Moulin examined the moment when resistance leader Jean Moulin traveled to Lyon and was eventually captured by the Nazis, while When the Night Falls depicted the strategies adopted by men and women attempting to save as many French Jews as possible before they were sent to concentration camps.
A Man of His Time, the international title of Notre Salut, precedes those films chronologically and begins when Henri Marre arrives in Vichy, the capital of the so-called Free Zone governed by Marshal Pétain. Financially ruined and estranged from his family after writing and publishing the manifesto Notre Salut — or “Our Salvation” — Henri (Arlaud) is determined to secure a position within Pétain’s administration. Eventually, he succeeds, though not without a degree of humiliation and exposure. He is appointed inspector responsible for Limoges, a role within the Ministry of Labor intended to reduce unemployment — and perhaps he truly does succeed in doing so, thanks both to his engineering background and, even more, to his devotion to numbers, metrics, and efficiency above all else.
Henri is a technocrat, the ideal man to assist — even unconsciously — in the implementation of the Nazi regime, given his unwavering obedience to rules and regulations, the meticulous care with which he prepares reports and values accounting regularity — one sequence even places his humanity under direct scrutiny — and, above all, the way he thinks of people as numbers. At one point, despite visible discomfort, he negotiates a quota of workers to satisfy the demands of the Nazi regime, which would, certainly, reduce unemployment figures. But at what cost? In the absence of a more appropriate term, he becomes both accomplice and collaborator. A patriotic man who, in his eagerness to unite and restore France — or perhaps to save his family and his own sense of purpose — ultimately turns into a temporary instrument of an exceptional regime. There is something courageous in the filmmaker’s decision to open the family archive and expose such correspondence and intimacy.
What becomes even more interesting, however, is the way Emmanuel chooses to do so. At times, the sensation is that of watching a fiction film infused with the texture of a documentary, especially because of the handheld camerawork through which the director frames, loses, and searches for Henri within the image, or because of the lighting design in certain scenes, which creates the impression that the only source of light comes from the warm bulb of one of those old cameras pointed directly at Arlaud’s face. In fact, I even found myself wondering how the actor managed to maintain such a calm expression rather than a tense one under so much direct illumination, which ultimately creates a remarkably effective sense of exposure. And exposure is precisely what Emmanuel proposes from the pre-credit sequence onward.
In that scene, the character — whose name we still do not know — is framed in a close-up that gradually pulls away while we overhear the conversations taking place around him. Within what appears to be a political gathering, Henri is frequently pushed aside, forcing the camera to search for him again, rediscovering him laterally or in the background. He is still a nobody within the regime, and this formal decision will continue throughout the film as a recurring method of exposing the character’s irrelevance and, therefore, disposability. For example, during the inspectors’ group photograph, even after achieving a position of prestige, Henri is still kept in the background, as if this were a mixture of shame for belonging to that group or, as I prefer to interpret it, a feeling of not belonging at all.
Because Henri does not truly seem like an evil man — but he is serving an evil regime. What Henri could have understood — something his immediate superior on the committee already understands — is that there is no genuine notion of welfare or humanity within a totalitarian regime. The scene in which Maux attempts to gain access to Marshal Pétain is simultaneously effective in revealing this historical figure only from behind while opposing him compositionally to Henri in the background. After spending so much time immersed in ideals of bureaucratic efficiency and state machinery, it becomes easy for someone to forget that behind numbers, there are human beings.
Just as there is a human being behind the letters exchanged with Paulette (Blancke). These moments rely far more heavily on spoken language than on visual language; they become elegant and serene passages, scenes that do not compete for our attention but instead invite us to listen carefully to what is being said in voice-over. They are also effective because they temporarily interrupt the brisker rhythm of a narrative constructed around meetings, celebrations, and dinners that portray bureaucracy as an essential process serving Nazi interests across Europe.
Although I appreciate the exchanges of letters, the relationship between Henri and Paulette remains somewhat elusive, even when the family appears together onscreen. Their deteriorated relationship is better understood through moments such as the one in which Henri buys her an elegant dress, yet cannot distinguish the front from the back, nor perceive that it is entirely incompatible with his wife’s personality or with the image she wishes to project before his superiors. She is portrayed as a woman ahead of her time, and the anachronistic music and dancing reinforce that quality. But for a man so deeply technocratic, it becomes easy to understand how incapable he is of perceiving irony or nuance: when the committee discusses women’s labor and Henri presents his “solution” — women performing smaller jobs from home… for pay — he immediately afterward asks his secretary Corinne to fetch him coffee. It is a sly scene whose effect is felt by us, not by him.
Even though I admire Emmanuel’s courage in exposing his family history in this manner, the narrative itself is somewhat uneven. The moments in which Henri truly recognizes the consequences of his actions are brief compared to the many moments in which he remains merely a useful idiot. Nevertheless, the film ultimately functions as a cautionary tale for those who think exclusively in terms of efficiency and forget that, behind it all, there are people.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


