Crítica em português
Eu admito que sinto um desconforto moral em sentir prazer quando o cinema transforma transtornos mentais, desvios de personalidade ou impulsos psicopáticos em matéria-prima para a comédia satírica. Ao menos, filmes iguais a Victorian Psycho não intencionam satirizar doenças psíquicas, mesmo quando operam dentro de uma zona cinzenta que, nos dias atuais, flertam com uma maneira de capacitismo. Bem, de todo modo, eu confesso o sentimento culposo de ter me divertido com este novo trabalho de Zachary Wigon (de Santuário), um que compreende, ao menos quando lhe parece conveniente, a contradição encenada em filmes semelhantes.
Adaptação do livro escrito pela romancista espanhola Virginia Feito, que também é autora do roteiro, Victorian Psycho constrói uma sátira gótica e violenta sobre monstros sociais e alguma forma de discussão de classe dentro de uma estrutura aristocrática já apodrecida, e que idolatra abacaxis (sim, a fruta!) como um sinal de riqueza. Entretanto, o que há de mais interessante é a forma como a narrativa tensiona a identidade da tal psicopata vitoriana do título. Sim, associamos imediatamente à protagonista, a governante recém contratada na mansão dos Pounds Winifred Notty (Monroe, insanamente magnética). Uma mulher mentalmente desequilibrada e que procura assumir a posição que acredita ser sua, e que está disposta a assassinar sistematicamente os empregados da mansão sempre que algum deles ameace a sua autoridade ou alguma fragilidade emocional e psíquica – o que atenua o elemento da crítica de classe que havia mencionado.
Contudo, conforme a narrativa avança, torna-se impossível ignorar que aquela violência talvez seja apenas o sintoma mais explícito de um ambiente já inteiramente corrompido antes mesmo de ter batido à porta à procura de emprego. O patriarca Sr. Pounds (Isaacs) dá vida a uma masculinidade aristocrática que transforma pseudociência, fetichismo intelectual e autoridade em forma de abuso. Atrás da máscara da frenologia – um tipo de pseudociência que acreditava que aspectos da personalidade ou do caráter podiam ser medidos pelo formato do crânio da pessoa – e tendo destruído a subjetividade artística de sua filha, por mais doentia que fosse, o Sr. Pounds exerce seu controle de um modo indireto.
Ele é diferente da Sra. Pounds (Wilson), tomada por obsessões estéticas e protocolos de etiqueta, e que exerce sua autoridade a partir de mecanismos de violência a humilhação, como impor que Winifred dormisse no canil com os cachorros como um meio de punição. Até os filhos não fogem aos padrões herdados dos pais: o filho caçula sonha em ter uma esposa subserviente, enquanto a filha mais velha e que mais parece com Winifred, embora submetida a alguma forma de degradação, também exerce um poder aristocrático em um momento chave.
Nesse sentido, Victorian Psycho é um desfile coletivo de patologias, na qual a de Winifred é somente é a mais evidente, caracterizada por alucinações visuais e sonoras e por uma incapacidade de se portar socialmente quando confrontada. A partir dela ou através, o roteiro de Feito sugere que há algo mais perverso do que assassinatos em séries em uma sociedade dita civilizada que assiste e celebra a ocasião de testemunha um enforcamento público. Na realidade, não é a primeira vez que isto é discutido pelo cinema, mas alguns temas ou clichês merecem ser repetidos. Isto porque o que diferencia Winifred daqueles aristocratas que exploram sexualmente empregados, naturalizam humilhações e sustentam estruturas de opressão é apenas a forma do gesto. Alguns são aceitos e normalizados pela sociedade, às vezes (quase sempre) em razão de sua posição na sociedade.
Aí que o trabalho de Maika Monroe se torna tão extraordinário. A atriz encontra um equilíbrio entre humor e grotesco, dor e fragilidade; a personagem é construída sobretudo através do olhar – e das deformações ampliadas pela lente da câmera – e da maneira como reage aos estímulos alucinatórios que revelam uma mente à beira do precipício. E, provavelmente, jamais esquecerei o momento cômico e aterrador em que tenta acalmar um recém nascido.
Já Wigon tem uma consciência formal muito mais sofisticada do que sua premissa inicialmente sugere. Ele utiliza a direção como extensão mecânica do desequilíbrio emocional da protagonista ou do jogo de poder que é encenado dentro da mansão. A câmera balança para lá e para cá durante os bate-bocas com a Sra. Pound, chicoteia através de movimentos abruptos e utiliza as inversões de eixo para instaurar uma sensação constante de instabilidade. A Inglaterra vitoriana está contaminada com a energia cinematográfica contemporânea.
Já a fotografia de Nico Aguilar e a direção de arte de Jeremy Reed ajudam a reforçar essa atmosfera decadente, embora o elemento mais marcante seja a maneira como o filme traduz subjetividade em linguagem cinematográfica colocando o espectador dentro da cabeça de Winifred. O que provoca uma reação ambivalente na conclusão que é, ao mesmo tempo, narrativa e formalmente interessante, enquanto é decepcionante porque não encena o que gostaríamos de ver encenado com a frontalidade que merecia.
E tudo bem Victorian Psycho não ter a profundidade social que poderia elevar a sua sátira a outro patamar – como a crítica sofisticada ao estilo yuppie de Psicopata Americano ou à crise de masculinidade de Clube da Luta -, mas existe um prazer doentio em como normaliza e acolhe o excesso dentro de um cenário moralmente dúbio. E talvez seja exatamente isso que torne o filme tão perturbador: perceber que, enquanto julgamos aquela mulher consumida por uma entidade interna chamada Fred, também nos divertimos observando-a destruir um mundo que já parecia monstruoso antes mesmo dela chegar.
O fillme está na seleção da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2026.
English review
I admit that I feel a certain moral discomfort in taking pleasure when cinema transforms mental disorders, personality deviations, or psychopathic impulses into raw material for satirical comedy. At the very least, films like Victorian Psycho do not intend to satirize psychic illnesses, even when they operate within a gray zone that, nowadays, flirts with a kind of ableism. Still, I confess the guilty pleasure of having enjoyed this new work by Zachary Wigon, one that understands — at least whenever it finds it convenient — the contradiction staged by films of this nature.
An adaptation of the novel written by Spanish author Virginia Feito, who also penned the screenplay, Victorian Psycho constructs a violent Gothic satire about social monsters and a certain form of class discussion within an aristocratic structure already rotten to its core, one that idolizes pineapples (yes, the fruit!) as a sign of wealth. Yet what proves most interesting is the way the narrative destabilizes the identity of the Victorian psychopath suggested by the title itself. Naturally, we immediately associate it with the protagonist, the newly hired governess at the Pounds estate, Winifred Notty (Maika Monroe, insanely magnetic). A mentally unstable woman attempting to assume the position she believes belongs to her, willing to systematically murder the household staff whenever any of them threaten either her authority or some emotional and psychological fragility — which somewhat dilutes the class critique I mentioned earlier.
However, as the narrative unfolds, it becomes impossible to ignore that such violence may merely be the most explicit symptom of an environment already entirely corrupted long before she knocked on the door looking for employment. The patriarch, Mr. Pounds (Jason Isaacs), embodies an aristocratic masculinity that transforms pseudoscience, intellectual fetishism, and authority into mechanisms of abuse. Hidden behind the mask of phrenology — a pseudoscience claiming that aspects of personality and character could be measured through the shape of a person’s skull — and having destroyed his daughter’s artistic subjectivity, diseased as it may have been, Mr. Pounds exercises control in a deeply indirect manner.
He differs from Mrs. Pounds (Andrea Riseborough), consumed by aesthetic obsessions and etiquette protocols, who exerts her authority through mechanisms of humiliation and violence, such as forcing Winifred to sleep in the kennel with the dogs as a form of punishment. Even the children fail to escape the behavioral patterns inherited from their parents: the youngest son dreams of having a submissive wife, while the eldest daughter — the one who most resembles Winifred — despite being subjected to a certain degradation, also exercises aristocratic power at a crucial moment.
In this sense, Victorian Psycho becomes a collective parade of pathologies, in which Winifred’s is merely the most visible, marked by visual and auditory hallucinations and by an inability to behave socially when confronted. Through — or perhaps because of — her, Feito’s screenplay suggests that there is something even more perverse than serial murders within a supposedly civilized society that gathers to celebrate the spectacle of a public hanging. Of course, cinema has explored this theme before, but some subjects or clichés deserve repetition. What truly distinguishes Winifred from those aristocrats who sexually exploit servants, normalize humiliation, and sustain oppressive structures is merely the form of the gesture. Some forms of violence are accepted and normalized by society, often — almost always — because of one’s position within it.
That is precisely where Maika Monroe’s work becomes extraordinary. The actress finds a delicate balance between humor and grotesquery, pain and fragility; the character is built above all through her gaze — and through the distortions amplified by the camera lens — as well as by the way she reacts to hallucinatory stimuli that reveal a mind standing at the edge of collapse. And I will probably never forget the simultaneously comic and terrifying moment in which she attempts to calm a newborn baby.
Meanwhile, Zachary Wigon demonstrates a much more sophisticated formal awareness than the premise initially suggests. He uses direction as a mechanical extension of the protagonist’s emotional imbalance or of the power struggle constantly staged within the mansion. The camera sways back and forth during confrontations with Mrs. Pounds, lashes across the space through abrupt movements, and employs axis reversals to establish a permanent sensation of instability. Victorian England becomes contaminated by contemporary cinematic energy.
The cinematography by Nico Aguilar and the production design by Jeremy Reed further reinforce this decadent atmosphere, although the film’s most striking element lies in the way it translates subjectivity into cinematic language, placing the spectator directly inside Winifred’s mind. Which ultimately provokes an ambivalent reaction toward the conclusion: simultaneously narratively and formally compelling, yet disappointing because it refuses to stage what we wanted to see depicted with the frontal brutality it deserved.
And that is fine. Victorian Psycho may not possess the social depth capable of elevating its satire to another level — like the sophisticated critique of yuppie culture in American Psycho or the crisis of masculinity explored in Fight Club — but there is a sick pleasure in the way it normalizes and embraces excess within a morally dubious setting. And perhaps that is exactly what makes the film so disturbing: realizing that, while we judge that woman consumed by an internal entity named Fred, we are simultaneously entertained by watching her destroy a world that already seemed monstrous long before she arrived.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

