A Copa do Mundo de 2026 já está batendo na porta e, para ser sincero, não estou tão empolgado quanto gostaria. Os motivos são políticos e nem cabem neste texto. Mas a Copa sempre teve um peso afetivo enorme para mim. Lembro das ruas de Vila Isabel pintadas de verde e amarelo, dos álbuns de figurinhas que completei e daquela sensação de que, durante um mês, o país inteiro girava em torno de uma bola.
Minhas primeiras lembranças vêm de 1994: meu pai comemorando na sala, Galvão Bueno gritando “tetra” e Dunga levantando a taça. Em 1998, as memórias já são mais nítidas. Em 2002, vieram as madrugadas acordado vendo jogo e a alegria do pentacampeonato. Até o traumático 7 a 1 continua vivo na memória. E talvez seja justamente por isso que Brasil 70: Em Busca do Tri funcione tão bem em seus primeiros episódios: ela entende que futebol não é só esporte. É também memória.
A minissérie reconstitui a campanha da Seleção Brasileira rumo ao tricampeonato mundial, passando pela montagem da equipe feita por João Saldanha até a chegada de Zagallo ao comando do time. O elenco se esforça para reproduzir rostos, vozes e maneirismos conhecidos. Rodrigo Santoro encontra um equilíbrio interessante ao construir Saldanha para além da simples semelhança física, enquanto Bruno Mazzeo imprime humanidade a Zagallo sem reduzi-lo a uma coleção de bordões e gestos reconhecíveis.
Outros personagens seguem um caminho diferente. Lucas Agrícola reproduz muitos dos trejeitos associados a Pelé, inclusive o frequente “entende?” que se tornou uma de suas marcas registradas. Mas a série acaba levantando uma questão curiosa. Quando falamos de personagens históricos tão conhecidos, o que define uma boa interpretação? Estar fisicamente parecido e reproduzir expressões características basta? Ou existe uma diferença entre encarnar uma figura histórica e apenas imitá-la? A resposta fica para cada espectador.

O que mais me interessou, porém, foi a tentativa de trazer a política para dentro da narrativa. A ditadura militar aparece como uma presença constante, um antagonista invisível que influencia decisões, interfere nos bastidores e tenta transformar a Seleção em ferramenta de propaganda. Essa tensão funciona muito bem enquanto está concentrada na figura de João Saldanha. É através dele, de sua família e de seus embates com a CBD que a série encontra seu conflito mais forte.
O problema é que essa camada perde força à medida que Saldanha deixa o centro da história. O que parecia ser um dos pilares dramáticos da narrativa vai sendo diluído até se tornar quase secundário diante da marcha rumo ao tricampeonato. As dúvidas de Pelé sobre seu papel como garoto-propaganda do regime são apenas pinceladas. A lembrança de Wilson Simonal, citado como uma vítima daquele período, surge como uma homenagem interessante, mas também sem o espaço necessário para ganhar peso dramático.
O mesmo acontece com outros conflitos. O drama de Tostão e sua luta para recuperar espaço dentro da equipe raramente encontra tempo para amadurecer emocionalmente. A rivalidade entre Saldanha e Zagallo, que poderia render um choque fascinante entre duas visões de futebol e liderança, acaba resolvida de maneira apressada. Há tantos temas disputando espaço — política, bastidores, conflitos pessoais e a própria campanha da Copa — que a série parece menor do que suas ambições.
Essa sensação é ampliada pela forma como os jogos são encenados. Há uma tentativa constante de transformar cada lance em um momento épico através de uma estética hiperestilizada. A montagem recorre a truques e os enquadramentos buscam impacto o tempo todo. Só que, para mim, o resultado foi o oposto do pretendido. Em vez de aumentar a tensão, tudo ganha uma aparência excessivamente calculada, aproximando a série muito mais da linguagem publicitária do que do drama. Em vários momentos, tive a sensação de estar assistindo a um comercial de Copa do Mundo esticado por cinco horas, algo mais próximo das campanhas da FIFA e da estética dos videogames de futebol do que da complexidade daqueles personagens.

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Também não funciona a trama paralela do casal de torcedores que vende seu Fusca para acompanhar a Copa no México. Em teoria, a história deveria aproximar a campanha da Seleção da experiência do torcedor comum. Na prática, parece um roteiro enxertado para reforçar o caráter épico da conquista. Toda a jornada é construída sobre acontecimentos exagerados e convenientes, da perda dos ingressos aos obstáculos que surgem pelo caminho, sempre resolvidos de maneira fácil demais para produzir qualquer envolvimento genuíno.
O problema não está apenas na fragilidade do roteiro, mas também na direção dada aos personagens. Enquanto os bastidores da Seleção tentam buscar algum grau de realismo, esse núcleo opera em uma frequência completamente diferente. As emoções nunca parecem partir de um lugar humano; elas já chegam no volume máximo. Em especial, a personagem feminina atravessa praticamente toda a narrativa em um estado permanente de exaltação, como se cada contratempo fosse uma tragédia absoluta e cada pequena vitória exigisse uma explosão emocional. Falta nuance, falta progressão dramática e, principalmente, falta verdade. O resultado é um núcleo que soa ainda mais forçado do que os próprios jogos encenados pela série.
Talvez por isso o gosto final seja agridoce. Brasil 70 começa discutindo algo que me parece muito interessante: como futebol, política e construção de imagem caminham lado a lado. A série mostra uma ditadura interessada em se associar à Seleção, um Pelé dividido entre ser ídolo nacional e símbolo conveniente para determinados interesses e um país tentando encontrar no futebol uma narrativa de unidade.
Mas, conforme os episódios avançam, essa discussão vai cedendo espaço para a celebração. Os conflitos perdem força, os personagens se tornam mais funcionais à mitologia da conquista e a encenação abraça uma estética cada vez mais próxima da publicidade esportiva. É justamente aí que os excessos começam a pesar. E é difícil não relacionar essa escolha ao momento em que a série chega ao público.

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Talvez seja coincidência. Talvez não. Mas é difícil assistir à série em um momento de descrédito da Seleção Brasileira sem perceber como ela dialoga com o presente. Da mesma forma que aponta para o uso da imagem de Pelé durante o regime militar, a produção também parece interessada em recuperar a crença em uma camisa amarela que já não mobiliza o país como antes. E, nesse contexto, a figura de Neymar surge quase como um fantasma pairando sobre a narrativa: herdeiro para uns, produto superestimado para outros.
Não acho que Brasil 70 seja uma peça de propaganda disfarçada. Mas a conveniência do momento, somada à forma como a série abandona seus conflitos mais interessantes para abraçar a celebração, faz com que essa sensação nunca desapareça completamente. Para mim, pesam mais os artifícios do que a reflexão. E é justamente por isso que os bastidores políticos, os embates de Saldanha e as contradições daquele Brasil acabam sendo mais interessantes do que o tricampeonato que a série tanto se esforça para vender.
Brasil 70: A Saga do Tri está disponível na Netflix.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.
