Um Frankenstein cinematográfico. A síntese de O Filme Infinito, média-metragem argentino dirigido por Leandro Listorti, exibido na Mostra Preservação da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, como colocada em sua sinopse, é precisa para definir sua estrutura, composta por fragmentos de filmes outros que deixaram de existir, e também, de certo modo, conceituar seu propósito. Não se trata de uma ambição científica considerada em si mesma, mas de sua finalidade última: a necessidade de proclamar vitória sobre a morte – aqui, a morte cinematográfica.
Há de se recordar que o cinema é arte cujo fundamento, origem e continuidade são absolutamente científicos. Surge em um contexto de avanço tecnológico – o cinematógrafo registrava imagens em movimento, capturava cenas cotidianas com o intuito de documentá-las. A Saída dos Operários da Fábrica (1895), dos irmãos Lumière, não apresenta-se como expressão artística, mas como material que inscreve a realidade, como arquivo.
A continuidade da sétima arte, de igual modo, é também científica. Da película ao digital, dos efeitos práticos aos efeitos especiais, não há cinema sem ciência, e portanto, os esforços realizados em prol do avanço dos recursos disponíveis para sua realização são científicos. Já temos a filmologia, vertente que estuda o cinema como um fenômeno artístico, cultural, social e histórico. Assim sendo, temos uma arte científica, uma ciência-cinema – e por que não?
A arte científica, ou seja, esse caminhar paralelo entre cinema e ciência, se impõe, igualmente, não só naquilo que progride para filmes futuros, mas na preservação e melhoria daquilo que já existe. O Filme Infinito parte, justamente, do trabalho do próprio diretor como profissional dedicado à salvaguarda da memória. Listorti foi arquivista e curador do Museu de Cinema de Buenos Aires e construiu seu filme ensaio a partir da reunião e composição dos cacos de filmes inacabados e abandonados que encontrou em seu caminho.

Como cineasta-cientista, o diretor dá corpo e permite a existência desses resíduos de uma arte que nunca existiu e que seguiria no limbo existencial não fosse por seu empenho. Fazê-lo através da linguagem experimental possibilita que o trabalho minucioso de montagem e estruturação desses membros, para que se tornem uniformes numa só criatura, adquira significados particulares para cada espectador, não de forma aleatória, mas norteando as imagens rumo a um sentido de memória de um país, cuja narrativa, em formato de quebra-cabeça, vai se engajando sensorialmente. O trabalho de montagem também é nosso – e portanto, é infinito e contínuo.
Talvez o fragmento mais emblemático dessa memória edificada pelo diretor seja o projeto inacabado de Lucrécia Martel, adaptação da história em quadrinhos de ficção científica, El Eternauta. A história, criada por Héctor Germán Oesterheld, autor que desapareceu durante a ditadura argentina, foi assombrada por sucessivas interrupções editoriais e pela censura ao longo das décadas. Em O Filme Infinito, torna-se ela própria um símbolo de resistência que se consolida através do cinema. Sua aparição reforça a ideia de que certas obras seguem vivas e encontram pertencimento não na existência própria e individual, mas na persistência, na recusa da morte.
El Eternauta de Martel, assim como tantas outras obras que nunca foram, em O Filme Infinito abandonam o status fantasmagórico e tornam-se, por fim, organismo vivo, imortalizado, tal qual a criatura de Mary Shelley. O infinito, aqui, afirma-se como método científico: uma forma de pensar o cinema como campo de reescrita constante, contínua, da história e de si mesmo.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


