A cena inicial de O Sol Nasce para Todos estabelece com eficiência a condição de invisibilidade da personagem, Meiyun, e uma indiferença das pessoas ao seu redor. A médica que realiza o ultrassom que detecta a sua gravidez mal aparece na imagem antes de urgir para Meiyun se apressar e chamar a próxima paciente. Ela se dirige ao consultório médico no andar superior, mas o elevador está lotado. A opção, então, são as escadas. Ao subir, tem um breve apagão. Uma pessoa passa a seu lado, pergunta-lhe se está bem, mas permanece fora do quadro, invisível. Já no consultório, a médica que a atende permanece de costas na maior parte do tempo e orienta a protagonista a descansar.
No prólogo, o diretor e roteirista Shangjun Cai é bastante feliz em isolar a protagonista do mundo ao redor, enquanto simultaneamente a mantém dentro de um quadro sufocante e claustrofóbico, um reflexo de sua condição social e da culpa carregada como um fardo pesado. A razão para tanto também está no hospital onde é atendida: o ex-companheiro Baoshu (Songwen Zhang). Ele assumiu a culpa pelo crime de trânsito cometido por Meiyun, foi condenado à prisão e, ao deixá-la, está em remissão de um câncer em estágio avançado. Ela se sente culpada e tenta reparar o dano que realizou no passado, apesar de acreditar que o momento que está passando é uma espécie de carma.
Um carma manifestado nas críticas recebidas nas redes sociais de que as roupas que comercializa são de má qualidade. Ou na demora, e que mais parece calote, do fornecedor de roupas em restituí-la. Ou na gravidez inesperada que mantém, apesar do pai desejar abortá-la. Vou receber o que mereço é o mantra de Meiyun, que convida Baoshu a permanecer em seu apartamento mal iluminado e desorganizado, e que arca com as despesas médicas mesmo não tendo nenhum tostão. O Sol Nasce para Todos tem um título ironicamente esperançoso, quando na verdade é um retrato cruelmente amargo de existências miseráveis que habitam as margens da sociedade tentando sobreviver em um mundo cada vez mais individualista.
Shangjun Cai acompanha diligentemente os esforços da protagonista com a câmera suficientemente próxima para criarmos alguma empatia, enquanto reconhecemos as singularidades que não a tornam a heroína convencional desta forma de cinema realista. Há algumas arestas que nós precisamos negociar: Meiyun aceitou o sacrifício de Baoshu e, ao contrário do que alguns poderiam imaginar, desistiu de visitá-lo a partir de certo momento e não o aguardou para recomeçarem de onde pararam. Esta heroína imperfeita é uma oportunidade para a atriz Zhilei Xin, premiada com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza do ano passado, que evita reduzi-la às decisões tomadas.

Há um aspecto do filme que particularmente me interessa. Trata-se da oportunidade dada às mulheres imperfeitas de protagonizarem as suas próprias histórias – já houve e há tantos homens imperfeitos, que precisaríamos de meio século para que a balança se equilibrasse. Mesmo assim, algumas decisões tomadas por Shangjun parecem-me equivocadas. Embora aceite que, com o passar da narrativa, Meiyun e Baoshu reaproximem-se erraticamente, da forma como a realidade e a culpa permitem, tenho muita dificuldade em enxergar como o estupro dela entra na equação como parte de seu carma. Ou pior: como a personagem praticamente relativiza o estupro.
É justamente aí, contudo, que Shangjun rompe o discurso sobre moral que vinha construindo e atropela a violência sem sequer discuti-la. Ao transformar o estupro em mais um episódio absorvido silenciosamente por Meiyun, o diretor parece incorporá-lo ao mesmo ciclo de culpa e resignação de sua trajetória. Essa decisão enfraquece todo o filme, pois dissolve a especificidade da violência sofrida, restando apenas o momento de recomposição da protagonista antes de visitar a fábrica do fornecedor que a está devendo.
Nesse momento, Shangjun reencena a crítica à individualidade, que parece haver corrompido a sociedade chinesa. Meiyun negocia com a esposa grávida e abandonada do proprietário – uma imagem refletida de si mesma -, mas a sororidade no reconhecimento da experiência de ser mulher à frente dos negócios é colocada de lado quando o interesse financeiro grita mais alto.
Ao lado da sequência inicial, é o momento que mais gosto da narrativa, porque além de manter a tensão altíssima em um momento que parece corriqueiro, ecoa a forma narrativa que acentua o isolamento crescente do indivíduo na sociedade. Meiyun permanece do lado de cá da rede social, isolada, divulgando as peças de roupas para as clientes que a acompanham online. Meiyun e Baoshu não ocupam um mesmo cômodo: ela fica no sofá da sala, ele no quarto de casal. Mesmo quando passam a ocupar o mesmo espaço temporariamente, tampouco dividem as mesmas experiências. Esta individualidade, que dialoga com o sacrifício feito pelo outro, mas não reconhecido, é melhor verbalizado na sequência do elevador – que metaforiza a prisão -, em que Baoshu novamente se sacrifica para que Meiyun não seja presa. A reação dela é bastante incisiva porque reconhece a ironia dramática do momento.
Longe de propor respostas fáceis à condição dos personagens – Meiyun é incapaz de descansar um momento sequer, e mal desconfiamos o que será da protagonista depois de dar à luz, se é que isso acontecerá -, O Sol Nasce para Todos prefere encerrar o melodrama com uma ação que, se não fará o espectador refletir em retrospecto, talvez o leve a revisitar com maior atenção os personagens que acompanhou durante aquelas duas horas.
O filme está em exibição nos cinemas brasileiros.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


