Em sendo o cinema um instrumento poderoso de reflexão social e de formação de cosmovisões, uma distopia política brasileira em ano de eleição presidencial certamente mostra-se um meio eficaz de, no mínimo, fazer recordar, ainda de modo hiperbólico, os caminhos de esvaziamento de debates para o qual estamos nos direcionando como sociedade, onde vale mais o discurso rápido e sensacionalista, ainda que mentiroso e violento, do que o diálogo coerente, ponderado e pacífico. Parece não haver mais tempo nem paciência para qualquer coisa que demande mais de dois minutos de nossa atenção, e por tal razão, o único objetivo passa a ser capturar-nos pelo choque durante o maior tempo possível. Invariavelmente, ao adentrarmos essa discussão, estamos falando de um mundo em que relações, embates e discussões acontecem, majoritariamente, por meio das telas de celulares, televisões, tablets e computadores.
Resta Um, primeiro longa-metragem de Fernando Ceylão, estrelado por Caco Ciocler e Maria Ribeiro e integrante da competição do 30º CinePE, fabula um pesadelo social claustrofóbico, onde sobreviver torna-se um jogo político de controle populacional transmitido ao vivo: num duelo entre duas pessoas escolhidas supostamente de modo aleatório, cada espectador é obrigado a votar naquele que julga ser o cidadão de bem, e portanto, digno de sobreviver em prol de uma sociedade melhor.
Nesse universo distorcido, Ciocler interpreta Álvaro, um professor desempregado que cuida dedicadamente de sua esposa acamada (Ribeiro), e por essa mesma razão, usufrui, em tese, de uma isenção quanto à possibilidade de ser escolhido para o jogo mortal. Ao ser selecionado por engano (ou não) para participar do programa, ele – um homem de esquerda convicto do mau-caratismo e dos absurdos do sistema ao qual está submetido – passa, inicialmente em nome da própria sobrevivência, a se corromper gradativamente diante do reconhecimento público que adquire.
Fernando Ceylão filmou Resta Um em apenas dez dias. Munido, portanto, de pouco tempo, criou uma ambientação única e caoticamente meticulosa. O filme todo se passa no apartamento do casal, guarnecido com excesso de fotos, móveis e objetos, onde há muita coisa, mas falta espaço e iluminação. São muito específicas as vezes em que vemos a porta ou a janela do espaço. A evidente sensação de sufocamento remete ao sentíamos, por exemplo, durante a pandemia, já que a impressão que fica é que, para além da dificuldade de mobilidade da esposa, os personagens parecem proibidos de sair dali.
Nesse limitado espaço, Ceylão consegue fornecer muitos pontos de vista, inclusive, um tanto voyeurísticos. Seja da cama da esposa, seja quando dispõe sua câmera quase sempre por detrás de objetos, ele mantém, simultaneamente, uma distância observacional e uma proximidade confinada em relação aos personagens. Ao mesmo tempo em que os espiona, fecha o enquadramento em seus rostos de maneira bastante expressiva.
A metamorfose de Álvaro o retira de uma zona de sanidade para lançá-lo em um instinto de sobrevivência que logo se converte em uma obsessão por adrenalina e violência, trajetória que, não apenas representa o sensacionalismo político e o engajamento a qualquer custo, como também espelha o ciclo vicioso das redes sociais. Se, a princípio, ele sente repulsa por si mesmo por estar ceifando a vida de outra pessoa para se proteger, aos poucos o jogo se converte em um fascínio que o faz abandonar seus princípios e sua ética. Álvaro passa a não hesitar em demonstrar ser exatamente tudo aquilo que abominava, fazendo uso da mentira não mais apenas para sobreviver, mas pelo prazer de manipular, vencer e ser reconhecido.
Falamos de excessos, e são também esses que tornam o frenesi de Resta Um exibicionistas. A obra transparece uma necessidade de evidenciar exageros já bem latentes, não concedendo ao espectador um único respiro em sua caricatura. Caco Ciocler endossa bem essa lógica, mas o faz, em contraponto ao filme, de maneira parcimoniosa, respeitando a progressiva transformação de seu personagem. Ao passo que, narrativamente, a obra obedece a uma graduação, ritmicamente parece recorrer de forma demasiada aos próprios recursos.
O mundo vive, certamente, um momento de adoecimento social e político. O culpado não está oculto: o capitalismo prega a morte e grita sua própria ineficácia, mas, enquanto beneficiar os poderosos, seguirá adiante. Até que ponto esse percurso é apocalíptico ou não, apenas o tempo dirá, mas alguns caminhos já se delineiam. É certo que, muito embora obras como Resta Um sejam megalomaníacas em suas ideias, em tempos de homens mimados e poderosos governando nações imponentes, pouco ainda é capaz de nos surpreender enquanto sobreviventes de um caos social como o nosso. Resta-nos, enquanto ainda possível, votar: não em quem merece sobreviver, mas em quem não endossa a necropolítica que permeia os discursos da extrema-direita.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


