Uma cidade cuja denominação foi inspirada na missa de um padre. Não, Buenos Aires, a capital da Argentina, não carrega esse fato curioso em sua origem, mas sim, Buenos Aires, uma pequena cidade de Pernambuco, situada no agreste, que possui apenas 13 mil habitantes e fica a menos de 80 km de Recife. É, justamente, a história de seu nome que advém de uma celebração religiosa datada de 1842, quando um clérigo com um passado de residência na Argentina começou a chamar o local tal como ele é conhecido hoje.
Sua pequenez tornou-se grande pelo olhar de Tuca Siqueira, diretora de Buenosaires, documentário participante da competição de longas-metragens do 30º CinePE. Assumindo e incorporando o nome que lhe foi atribuído, os habitantes da cidade são, peculiarmente, para um contexto brasileiro, amantes da hermana homônima, a ponto de superar a rivalidade futebolística não só para torcer fervorosamente para o principal oponente brasileiro até em tempos de copa do mundo, mas também criar escolinhas de futebol totalmente inspiradas nos times argentinos.
O trabalho de Tuca Siqueira é um afetuoso e gentil retrato de uma cidade, e também e sobretudo, das pessoas que compõem esse micro universo tão particular. Acompanhado de uma narração em um espanhol bastante didático, na voz de uma professora que ensina a língua gratuitamente no local (se esse fato é inserido para a fluidez da narrativa documental não fica explicitado), com bom humor e leveza, a diretora constrói, com o elemento espacial e humano, uma troca: fala das pessoas através da cidade e da cidade através das pessoas. Desde o único argentino da cidade até o coveiro do único cemitério que lhe guarnece, interessa-lhe bastante o calor humano que emana daquela cultura brasileira-argentina certamente exclusiva no mundo.
Buenosaires encontra no futebol o principal elo conector entre as culturas que se misturam ali. As paisagens da zona da mata norte pernambucana são pano de fundo para que os habitantes expressem essa relação e como ela se encaixa na vida de cada um. Siqueira intercala a contemplação do ambiente com entrevistas bastante livres das personagens sociais, e outrossim, da vida cotidiana, especialmente no que se refere aos jogos do esporte, seja na TV, quando pessoas se reúnem para assistir, seja nas peladas e partidas que acontecem nas ruas, campinhos e escolinhas.
A contemplação reflete o grande carinho da diretora pela cidade. No entanto, recorrente na construção fílmica, acaba se constituindo como um elemento que parece querer nos mostrar aquilo que já restou bem compreendido, ou insistir numa sensação que já foi bem internalizada pelo espectador de Buenosaires. Por essa razão, passada essa fase de assimilação, fica a impressão de que, na falta do que mostrar, a obra começa a andar em círculos.
Quiçá consciente da possibilidade desse efeito, Buenosaires insere algumas quebras desse ciclo, por exemplo, quando nos traz a figura fascinante do coveiro. É tocante como a diretora permite que ele se expresse de forma desimpedida. Um homem simples, ele anda pelo cemitério mostrando que ali “é tudo gente morta”, e indicando os jazigos que ele orgulhosamente fez, ou ainda, aquele que ele considera o mais bonito e bem feito. Ele reflete, ainda, as dificuldades da profissão e o quanto ela é obstáculo, inclusive, para relacionamentos. Tuca Siqueira segue-o com sua câmera, interessada e curiosa por aquilo que ele tem a dizer.
Em que pesem, portanto, suas questões cíclicas que interferem diretamente em seu ritmo, Buenosaires é uma representação terna e calorosa de um povo e uma cultura especialmente singulares, tornando coletivo esse microcosmo que choca culturas tão distintas para a formação de uma identidade própria.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
