A história da música popular brasileira costuma ser contada a partir de alguns nomes que, com o passar do tempo, deixam de ser apenas marcos e se tornam monolitos. Elis Regina, Tom Jobim, Alcione, Milton Nascimento, Gal Costa, Chico Buarque e Elza Soares, dentre tantos outros são artistas cuja relevância é inquestionável, mas cuja consagração pode produzir um efeito colateral de apagamento de histórias e trajetórias igualmente fundamentais. A Noite de Alaíde, de Liliane Mutti, é uma espécie de reparação histórica feita em vida. Uma biografia que relembra a voz e o talento de Alaíde Costa, enquanto questiona, transversalmente, os mecanismos que permitiram que uma artista tão decisiva ocupasse um lugar menos visível do que aquele em que efetivamente deveria estar.
Mutti, que já havia explorado a carreira de Miúcha, A Voz da Bossa Nova, é também a autora do roteiro que acompanha cronologicamente a trajetória da cantora, compositora e pianista desde a infância no subúrbio carioca até a sua consagração e o tempo presente, quando já nonagenária, Alaíde Costa continua a subir aos palcos. De uma forma estrutural, trata-se de um documentário relativamente convencional. Mutti organiza os acontecimentos segundo uma progressão biográfica clássica, conduzindo o documentário pelos principais episódios da vida de Alaíde, seus encontros artísticos, suas dificuldades profissionais e seus momentos de reconhecimento.
Essa escolha não parece ousada, sobretudo em um momento de saturação das cinebiografias e dos documentários musicais e um desejo de reinventar as suas próprias formas. Contudo, existe alguma coerência entre a estratégia narrativa e o objeto da biografia. Alaíde nunca foi uma figura expansiva ou dada à autopromoção. Sua presença pública sempre esteve mais associada à delicadeza de sua interpretação do que à construção de um mito em torno de si mesma. Nesse sentido, a cronologia linear e previsível do filme talvez não o fortaleça, mas tampouco limita sua capacidade de explorar aquilo que possui de mais valioso: a voz de Alaíde.
E Mutti reúne um material de arquivo impressionante. Fotografias, registros televisivos, apresentações musicais e entrevistas de diferentes épocas formam um mosaico rico não apenas sobre Alaíde Costa, mas também sobre o Brasil que a cercava. O documentário encontra sua maior força quando permite que essas imagens dialoguem entre si e que o espectador as experimente não só frontalmente, mas também através das brechas que a montagem preserva, espaços onde o filme respira para além do simples registro. Ao escutar Alaíde compartilhar sua trajetória em entrevistas realizadas décadas atrás e confrontá-las com os depoimentos atuais, o filme estimula uma espécie de diálogo entre a mesma mulher em épocas diferentes, e ainda entre Brasis e a música popular brasileira.
Alaíde relembra as conquistas, frustrações e episódios de discriminação com uma serenidade que não diminui o impacto dos eventos. Há algo inquietante e doloroso em como ela lembra, quase resignada, sem ressentimentos, com sua voz suave e doce, a respeito de barreiras e dificuldades impostas por uma sociedade estruturalmente racista que parecia incapaz de admitir a existência de mais uma mulher negra ocupando espaços de destaque dentro da música brasileira. Ou como, muitas vezes, o acolhimento vinha somente de seus próprios pares. Um discurso que não é panfleto mas apenas o Brasil como ele era… e é.
Além do mais, o documentário revela Alaíde como uma peça-chave em momentos fundamentais da formação da Bossa Nova. O convívio e a colaboração com Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Milton Nascimento desmontam o olhar histórico que, durante décadas, diminuiu a sua participação na formação da Bossa Nova. Apesar da voz e das interpretações, Alaíde não teve a consagração, apenas o apagamento, e documentários iguais a esse, por mais burocráticos que pareçam ser à primeira vista, acabam sendo ferramentas de resgate e descoberta. Como a história da cultura brasileira acabou sendo contada por autores raramente neutros e objetivos, o documentário chega em um momento oportuno, no qual Alaíde pode ver a semente que plantou transformada em uma árvore alta e de galhos firmes. E Mutti exalta Alaíde sem diminuir a importância dos artistas com que colaborou ou que eram contemporâneos. O movimento é de ampliação do olhar, não de restrição.
Formalmente, o filme tenta expandir os limites do documentário de arquivo por meio de algumas reconstituições. Determinados episódios da vida da cantora são encenados e posteriormente submetidos a um tratamento visual baseado em intervenções de rotoscopia realizadas por Guilherme Hoffman. A rotoscopia é uma técnica de animação que consiste em desenhar sobre imagens previamente filmadas. E sobre essas imagens são aplicados filtros cromáticos que parecem traduzir estados emocionais específicos. O tom amarelo acompanha o momento de alegria e bossa da mãe de Alaíde, escutando o rádio; já o tom azul surge associado à tristeza, quando a mãe decide separar-se do marido; há ainda tons verdes e róseos em outras passagens, bem como uma coloração mais perto do natural.
No entanto, o resultado da intervenção da animação raramente alcança a potência encontrada no material de arquivo. As reconstituições possuem uma decupagem simples, um texto idem e uma elaboração visual relativamente limitada. Em vez de aprofundarem a experiência emocional, muitas vezes apenas servem ao fim ilustrativo. Isto, paradoxalmente, revela a maior virtude do documentário: A Noite de Alaíde é bem melhor pelo arquivo que encontra do que pela memória que recria. As imagens históricas, os registros musicais e os testemunhos da artista carregam uma vitalidade que dispensa intervenção adicional.
Talvez porque a história de Alaíde possua, por si só, uma força dramática suficiente. A garota oriunda do subúrbio que conquista espaço entre os grandes nomes da música brasileira. A artista que participa da construção de um movimento cultural transformador, mas vê seu reconhecimento sistematicamente adiado, quando não apagado. A mulher negra que atravessa décadas de apagamento, sem abandonar a sua arte, mesmo quando advertida a fazê-lo. E a intérprete que aos 90 anos continua ocupando os palcos como quem reivindica, porém sem mágoa, um lugar que sempre foi seu.
Alaíde Costa não necessita de alternativas formais para revelar a artista que é. Basta encontrar um palco, seja musical ou cinematográfico, disposto a escutá-la. E não há homenagem mais honesta e digna do que permitir que sua presença continue ecoando além das restrições impostas por seu tempo.
A Noite de Alaíde está em exibição nos cinemas. Nos comentários, quero conhecer a opinião de quem assistiu e de quem se interessou em assistir.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


