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Ketticè

Classificado como 3.5 de 5

Ketticè

2026

105 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Giovanni Tortorici

Ketticè: crítica do filme italiano sobre juventude, apatia e redes sociais

Depois de Elena terminar o namoro por mensagem, Giulio coloca uma música romântica e transforma seu sofrimento em uma imagem. Ele força o choro diante da câmera, e consegue uma fotografia significativa para compartilhar nas redes sociais ou, quando não, para se lembrar do que sentiu. A cena poderia funcionar só como um comentário irônico sobre a artificialidade das relações entre adolescentes hiperconectados, mas Ketticè explora um elemento mais profunda: até que ponto essa fotografia é uma evidência material, na falta de uma outra prova sentimental, de fato sentiu alguma coisa? Giulio talvez está triste ou meramente performando como um adolescente triste deveria parecer. Nessa contradição que Giovanni Tortorici constrói seu retrato da juventude.

Ambientado em Palermo, em 2012, Ketticè acompanha Giulio (Salvatore Gallina), um adolescente de dezesseis anos cuja rotina passa pela escola, futebol, primeiros relacionamentos, Facebook, festas, drogas e encontros com os amigos. Esse período é um momento de transformação na maneira como os jovens construíam a sua identidade pública. As redes sociais já faziam parte da vida cotidiana, mas ainda não haviam adquirido a dimensão permanente de exposição que possuem hoje. O filme olha para esse instante como um ponto de inflexão: uma juventude que começa a experimentar a comunicação digital em escala inédita, ao mesmo tempo em que enfrenta a dificuldade cada vez maior de estabelecer relações verdadeiramente íntimas, relacionando as redes sociais às mesmas drogas com que fogem da realidade aparentemente apática.

Giulio é a expressão dessa apatia. Na sala de aula, seu olhar parece perdido. A nota quatro não o estimula a estudar mais. No treino de futebol, parece ausente. Quando o pai aparece para assistir ao jogo, Giulio pede substituição. Nos relacionamentos, essa apatia é igual, até conhece Ketty (Rachele Testagrossa). A personagem-título surge como uma curiosidade, uma adolescente brigona, do lado pobre e marginal da cidade. Do pedido de amizade no Facebook às curtidas em série, Giulio e Ketty começam a andar juntos, atravessar em vez de viver essa proximidade. A maconha os aproxima; a crítica aos pais, também. Todo o restante ou é motivo para se separarem na noite ou é motivo para o bocejo que demonstra tédio e desinteresse. Essa relação não ignora o elemento da classe social, e Ketty até adverte – o espectador, sobretudo – do caráter precário de um romance que não tem cara de romance. Somente de 2 adolescentes boiando em um mar de possibilidades de possibilidades à procura de alguém ou alguma coisa que dê sentido ao que está vivendo.

Em vez de psicologizar Giulio ou Ketty e responder por que são assim, Tortorici documenta comportamentos e relações, e permite que as causas permaneçam misturadas. Para quem observa de fora, dá para achar meia dúzia de explicações: os pais de Giulio praticamente não se comunicam, tampouco parecem manter uma relação afetiva saudável; a mãe (Monica Bellucci), alterna entre instantes de euforia e uma postura crítica em relação ao filho; já o pai (Tommaso Cristiano Wirz) assume uma posição de autoridade, igual aos quadros que estão pendurados na parede. Mas para a direção, não há explicação nem julgamento, há Giulio.

Essa distância ganha uma dimensão a mais na casa herdada. Grande, antiga e decadente, ela parece ter sido construída para afastar as pessoas, em vez de aproximá-las. Giulio atravessa vários cômodos para chegar ao próprio quarto, como se a arquitetura prolongasse a distância afetiva e emocional. Os espaços são grandes demais, os enquadramentos heterodoxos e os ambientes parecem guardar uma espécie de indiferença. Por ter atravessado décadas e séculos, aquela casa já viu de tudo, então o que é a vida de mais um adolescente? A decadência da classe média alta é a matéria prima da direção de arte de Marta Morandini: apesar de ostensivamente rica e clássica, o imóvel já não produz nenhuma forma de acolhimento ou pertencimento.

É um contraste, portanto, quando Giulio entra no apartamento apertado onde Ketty mora, em um bairro mais afastado, no qual o varal onde estão penduradas às roupas está somente a dois cômodos da porta de entrada. Ela se torna conhecida naquele pequeno universo por participar de lutas de rua e bater nas outras garotas, e é significativo o desejo que Giulio tem de vê-la lutar. Pode ser pela misoginia ínsita ao ato de homens verem mulheres brigando, pode ser porque Giulio procura uma experiência material para curar a sua letargia.

Mas Ketticè não se estabelece como uma oposição à lá A Dama e o Vagabundo entre a menina real e o garoto alienado. Ela também está procurando uma identidade e também participa de uma cultura na qual a transgressão pode facilmente se transformar em outra forma de conformismo. O fascínio pela violência ou pelas drogas não significa necessariamente liberdade. O adolescente que acredita estar rompendo com os padrões pode apenas estar repetindo o ciclo vicioso dos pais. O próprio pai de Giulio reafirma isso, e nenhum personagem, nem a narrativa, parece defender algum comentário hipócrita de juventude perdida ou de guerra às drogas (é revelador que Garota, Interrompida e Trainspotting surjam em certos momentos da narrativa, reforçando a afinidade temática).

A alienação é, portanto, companheira da apatia. Elena defende Mussolini como se estivesse apresentando um comentário razoável, mas totalmente desamparado de qualquer suporte fático; Giulio defende a participação de Berlusconi só porque o considera simpático, não importa todas as controvérsias que o cercam. Ele também acreditar dominar todo conhecimento sobre LSD após pesquisar na internet. Os adolescentes de 2012, igual aos de hoje, igual aos de sempre, acreditam que as figuras de autoridade (pais, professores ou policiais) querem impedir que a juventude viva e que o acesso à informação equivale conhecimento. A internet não acabou a sua ignorância; em alguns casos, tornou-a evidente.

Ketticè é bem mais do que uma representação de adolescentes inconsequentes. Esses adolescentes permanentemente conversam uns com os outros, embora isso não signifique que estejam conseguindo comunicar-se. Já os relacionamentos parecem obedecer à mesma lógica cíclica de navegação nas redes sociais. Interesses são despertados, namorados são trocados, a vida material começa a acelerar-se igual à comunicação digital, e os sentimentos tornam-se difíceis de distinguir porque impossíveis de ser sentidos.

O carro de Giulio sintetiza essa condição. Dentro dele, atravessando a cidade para comprar maconha, encontrar Ketty ou simplesmente escapar de algum lugar e ir a uma festa, o adolescente constrói um universo particular. Nele, parece controlar minimamente aquilo que sente, e escolher a trilha sonora para experiências que ainda não sabe denominar. O carro é também o espaço que permite uma (breve) fuga do real. Isto porque Tortorici não diz que as drogas são boas nem ruins, nem precisa afirmar que são necessariamente a origem de todos os problemas daqueles personagens. Elas somente existem. E adolescentes têm acesso à elas. Alguns as experimentam; outros, no entanto, afundam-se nelas, procurando drogas mais pesadas do que maconha para carregar o peso da existência.

Nesse sentido, Ketticè aproxima-se de um registro praticamente documental da juventude de 2012 – que não diverge tanto da atual. Não procura respostas porque qualquer resposta definitiva empobreceria o que observa. O professor oprime e humilha, os pais não escutam e nem conversam, a classe social oferece privilégios sem necessariamente oferecer acolhimento, as redes sociais permitem comunicação sem intimidade, e a transgressão nas drogas promete uma fuga que rapidamente pode se converter em outro padrão. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica Giulio. Juntos, eles formam o ambiente no qual ele tenta existir.

Ketticè apoia-se em atuações convincentes e não almeja resolver a apatia de seu protagonista porque não existe necessariamente uma cura para uma etapa de sua vida em uma geração cercada por possibilidades de comunicação, mas ainda à procura de uma linguagem capaz de dizer aquilo que sente.

Ketticè estreia na Competição Internacional do 79º Festival de Cinema de Locarno.


Ketticè: Review of the Italian Film About Youth, Apathy, and Social Media

After Elena breaks up with him by text message, Giulio puts on a romantic song and turns his suffering into an image. He forces himself to cry in front of the camera and manages to take a meaningful photograph to share on social media or, perhaps, to remember what he felt. The scene could function simply as an ironic comment on the artificiality of relationships between hyperconnected teenagers, but Ketticè explores something deeper: to what extent is this photograph material evidence, in the absence of any other sentimental proof, that he actually felt something? Giulio may be sad, or he may simply be performing what a sad teenager is supposed to look like. It is within this contradiction that Giovanni Tortorici constructs his portrait of youth.

Set in Palermo in 2012, Ketticè follows Giulio (Salvatore Gallina), a sixteen-year-old whose routine revolves around school, soccer, first relationships, Facebook, parties, drugs, and encounters with friends. This period represents a moment of transformation in the way young people constructed their public identities. Social media was already part of everyday life, but had not yet acquired the permanent dimension of exposure it has today. The film looks at this moment as a turning point: a generation beginning to experience digital communication on an unprecedented scale while simultaneously facing an increasing difficulty in establishing truly intimate relationships. Social media thus becomes yet another possible escape from an apparently apathetic reality, alongside drugs.

Giulio is the embodiment of this apathy. In the classroom, his gaze seems lost. A grade of four does not motivate him to study harder. During soccer practice, he seems absent. When his father shows up to watch him play, Giulio asks to be substituted. His relationships are marked by the same apathy, until he meets Ketty (Rachele Testagrossa). The title character appears as a curiosity, a combative teenager from the poorer, more marginal side of the city. From the Facebook friend request to the series of likes, Giulio and Ketty begin spending time together, moving through rather than living their closeness. Marijuana brings them together; criticizing their parents does too. Everything else is either a reason for them to separate during the night or an occasion for the yawn that expresses boredom and disinterest. Their relationship does not ignore the issue of class, and Ketty even warns — the viewer, above all — of the precarious nature of a romance that does not look like a romance. It is simply two teenagers floating in a sea of possibilities, searching for someone or something that might give meaning to what they are experiencing.

Rather than psychologizing Giulio or Ketty and answering why they are the way they are, Tortorici documents behaviors and relationships, allowing the causes to remain entangled. From the outside, it is easy to come up with half a dozen explanations: Giulio’s parents barely communicate with each other, nor do they seem to maintain a solid emotional relationship; his mother (Monica Bellucci) alternates between moments of euphoria and a critical attitude toward her son; his father (Tommaso Cristiano Wirz), meanwhile, assumes a position of authority, like the paintings hanging on the wall. But for the direction, there is neither explanation nor judgment: there is Giulio.

This distance takes on another dimension inside the inherited house. Large, old, and decaying, it seems to have been built to keep people apart rather than bring them together. Giulio crosses several rooms to reach his bedroom, as if the architecture itself prolonged the emotional and psychological distance between the inhabitants. The spaces are too large, the framing unconventional, and the environments seem to possess a kind of indifference. Having survived decades and centuries, the house has already seen everything; so what is the life of one more teenager? The decline of the upper-middle class becomes the raw material of Marta Morandini’s production design: despite being ostensibly wealthy and classical, the house no longer provides any sense of shelter or belonging.

It is therefore a striking contrast when Giulio enters the cramped apartment where Ketty lives, in a more distant neighborhood, where the clothes hanging on a clothesline are only two rooms away from the entrance. She becomes known in that small universe for taking part in street fights and beating up other girls, and Giulio’s desire to watch her fight is significant. It may stem from the misogyny inherent in men watching women fight; it may be because Giulio is searching for a physical experience capable of curing his lethargy.

But Ketticè does not establish a Lady and the Tramp-like opposition between the real girl and the alienated boy. She is also searching for an identity and also participates in a culture in which transgression can easily become another form of conformity. A fascination with violence or drugs does not necessarily mean freedom. The teenager who believes he is breaking away from established patterns may simply be repeating his parents’ vicious cycle. Giulio’s father reinforces this idea, and neither the characters nor the narrative seem interested in offering some hypocritical commentary about a lost youth or a war on drugs. It is revealing that Girl, Interrupted and Trainspotting appear at certain moments in the narrative, reinforcing this thematic affinity.

Alienation is therefore a companion to apathy. Elena defends Mussolini as if she were making a reasonable argument, yet one completely unsupported by any factual basis; Giulio defends Berlusconi’s participation in a debate simply because he considers him likable, regardless of all the controversies surrounding him. He also believes he has mastered everything there is to know about LSD after researching it online. The teenagers of 2012, like teenagers today, like teenagers throughout history, believe that authority figures — parents, teachers, or police officers — want to prevent young people from living, and that access to information is equivalent to knowledge. The internet has not eliminated their ignorance; in some cases, it has made it more visible.

Ketticè is much more than a depiction of irresponsible teenagers. These young people are constantly talking to one another, although that does not mean they are actually communicating. Their relationships, meanwhile, seem to follow the same cyclical logic of browsing social media. Interests are sparked, partners are replaced, material life begins to accelerate at the same pace as digital communication, and feelings become difficult to distinguish because they no longer know where experience ends and its representation begins.

Giulio’s car encapsulates this condition. Inside it, driving across the city to buy marijuana, meet Ketty, or simply escape somewhere and go to a party, the teenager constructs a private universe. There, he seems to exercise some minimal control over what he feels, choosing the soundtrack for experiences he does not yet know how to name. The car is also the space that allows for a brief escape from reality. This is because Tortorici does not say that drugs are good or bad, nor does he need to claim that they are necessarily the source of all these characters’ problems. They simply exist. And teenagers have access to them. Some experiment with them; others, however, sink into them, seeking drugs more powerful than marijuana to carry the weight of existence.

In this sense, Ketticè approaches an almost documentary record of the youth of 2012 — a youth that does not differ all that much from today’s. It does not seek answers because any definitive answer would diminish what it observes. The teacher humiliates and oppresses, parents neither listen nor talk, social class offers privileges without necessarily providing a sense of belonging, social media allows communication without intimacy, and drug-fueled transgression promises an escape that can quickly become another pattern of behavior. None of these elements, in isolation, explains Giulio. Together, they form the environment in which he tries to exist.

Ketticè is anchored by convincing performances and does not seek to resolve its protagonist’s apathy because there may be no answer for a stage of life in which a generation surrounded by countless possibilities for communication is still searching for a language capable of expressing what it feels.

Ketticè premieres in the International Competition of the 79th Locarno Film Festival.

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