A comédia de Jorge Furtado sobre dinheiro, sexo e sobrevivência
As comédias costumam criticar e debochar do absurdo da nossa existência, qualquer que seja a sua forma: o absurdo romântico, social, econômico, que costuma nascer da constatação de que estamos tentando sobreviver dentro das estruturas do capitalismo tardio que já não parecem fazer sentido. Na obra de Jorge Furtado, mais do que em qualquer outro cineasta brasileiro, o dinheiro ou, precisamente, a falta dele funciona como um combustível narrativo. Seus personagens querem algo pela qual não podem pagar e, por não poderem pagar, encontram soluções tão engenhosas quanto moralmente duvidosas.
É um cinema simbiótico, em que a precariedade frequentemente produz o humor, e em que o humor revela a precariedade. Em Muito Prazer, Jorge Furtado retoma essa relação entre comédia e crise econômica ao acompanhar Rubem (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo sem perspectivas que recebe uma herança inesperada de um tio recém falecido: o Motel Pérola. O problema é que aquilo que deveria representar uma oportunidade se revela uma propriedade em ruínas, incapaz de ser vendida pelo valor imaginado porque acumula dívidas impagáveis. Para piorar, ou não, Rubem conhece Grace (Luísa Arraes), ex-funcionária que permaneceu vivendo em uma das suítes depois que o estabelecimento fechou e ela deixou de receber salário.
O encontro entre Rubem e Grace é o início de uma comédia que transforma a falta de dinheiro em catalisador do humor. Eles decidem reativar a propriedade e, com a ajuda de uma especialista em informática, Nalva (Samantha Jones), descobrem uma forma de aumentar a renda a partir do que já possuem. A princípio, a solução envolve instalar as câmeras recém adquiridas para coibir os roubos dentro de suítes, e satisfazer a curiosidade dos proprietários em assistir o que os casais fazem a sós. Daí, dão o passo seguinte: publicar os vídeos na internet para produzir renda extra, mas protegendo as identidades dos clientes.

A premissa poderia conduzir a narrativa diretamente ao terreno do thriller criminal, mas Jorge Furtado prefere refletir todo o absurdo erótico e econômico da situação. O sexo particular torna-se público; o público, um conteúdo comercializado nos sites pornográficas; finalmente, torna-se dinheiro. A crise econômica é também romântica. O romance entre Rubem e Grace esbarra nas inadequações de ambos. O capitalismo tardio interfere não apenas no bolso, mas na maneira com que nós nos relacionamos, desejamos e transamos. Ou, parafraseando ensaios sobre o assunto, a classe trabalhadora está exausta para se envolver romântica e sexualmente. E Rubem e Grace são a cara dessa classe esmagada
Nesse contexto, o Motel Pérola reúne os elementos da lógica econômica da narrativa. Para Rubem, é uma promessa não cumprida em razão das dívidas acumuladas. Para Grace, é uma apropriação do ambiente de trabalho para satisfazer as necessidades básicas de água e moradia. Para a narrativa, é o espaço onde a ação se desenrola, onde clientes pagam pela privacidade, e esta transforma-se em renda e prazer para quem assiste do outro lado das telas de celular, computador e televisão. Se o dinheiro circula, também o sexo como uma commodity incomum categorizada e entregue por algoritmos que acreditam conhecer nossos desejos íntimos. No capitalismo tardio, o indivíduo não tem nada verdadeiramente seu.
Há uma continuidade evidente com O Homem que Copiava, em que a falta de dinheiro impulsiona o protagonista para uma cadeia de acontecimentos e decisões cada vez mais perigosas, e Saneamento Básico, no qual a precariedade material também produzia soluções improvisadas. Não existe aqui a mesma disposição para levar seus personagens até um abismo moral, criminal, embora ainda haja uma discussão de metalinguagem ou de (re)invenção da realidade pelo audiovisual. Quando o negócio cresce – não resisti ao trocadilho -, a concorrência arregalha os olhos e a atenção de terceiros é atraída, especialmente da personagem vivida por Drica Moraes. Entretanto, em comparação com os filmes mencionados, Jorge Furtado evita o humor cínico ou sombrio em favor de uma abordagem prosaica até.

Daniel de Oliveira sustenta Rubem com uma combinação de ingenuidade e pragmatismo, enquanto Luisa Arraes encontra em Grace uma personagem intensa que carrega consigo o amargor da precariedade sem perder a capacidade de afeto. Já Samantha Jones é o achado, com uma atuação simultaneamente cativante e maliciosa, funcionando como peça-chave para que a operação digital ganhe sua escala.
O problema é que o dinheiro, no cinema de Jorge Furtado, raramente resolve os problemas que deveria resolver. Ao contrário: tende a produzir novos desejos, novas ameaças ou novos problemas. Quanto mais lucrativo se torna o negócio do Motel Pérola, maiores são os riscos para os personagens. É uma estrutura narrativa que também funciona como comentário sobre o capitalismo contemporâneo, no qual o crescimento acelerado está acompanhado pela necessidade de proteger aquilo que foi conquistado ou pelo risco de uma queda retumbante.
Ainda que nem todas as situações possuam a força cômica que acreditam ter – por exemplo o momento em que Rubem é encontrado amarrado dentro do quarto parece a reapropriação de momentos análogos e mais engraçados – e determinadas soluções pareçam ser menos elaboradas do que a premissa permitiria e nem todas as consequências materializem-se como poderiam, isto é coerente com o projeto e os personagens.
Ao fim, Muito Prazer ri da precariedade sem esquecer que a precariedade existe; ri da reificação da nudez (feminina, sobretudo) e do sexo enquanto mantém alguma ternura por seus personagens; e ri do Motel Pérola como esse laboratório do capitalismo, em um fim do mundo qualquer, em que dinheiro, trabalho, empreendimento, desejo e sexo se misturam. Rubem e Grace querem uma boa vida e quem não quer, mas precisam improvisar para chegar perto dela. Não há mapa do tesouro, e para aproveitar as oportunidades, a boa dose de falta de ética faz-se necessária. A falta de dinheiro pode mover os personagens, mas termino com uma reflexão: até quando vamos transformar o prazer, afeto e sexo em mercadoria para sobreviver no capitalismo?
Muito Prazer estreia nos cinemas brasileiros hoje, 27/08.
Assista à minha entrevista com o diretor e roteirista Jorge Furtado abaixo:
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
