The Cycle of Love: quando amar também é acreditar no impossível
Em um mundo cético, desconfiado das profecias anunciadas, do destino previamente estabelecido e do ideal romântico que há em almas gêmeas, este The Cycle of Love recupera deliberadamente uma forma narrativa de conto de fadas. Pode parecer anacrônico, sentimentalista e certamente estranho ao período sombrio em que o mundo está hoje em dia, mas o documentário de Orlando von Einsiedel é honesto com a extraordinária história real de PK e Lotta, um casal que se conheceu na Índia nos anos 1970 e cuja relação atravessou diferenças de classe, nacionalidade e milhares de quilômetros.
Em 1977, aos 23 anos, PK era um artista de rua em Delhi, que sobrevivia fazendo retratos para turistas e passantes quando conheceu Lotta, uma jovem sueca que estava viajando pelo país. A relação entre os dois adquiriu, ao menos para PK, um caráter de providência, uma dimensão determinística. O motivo para isto é que, quando ainda era bebê, seus pais haviam ouvido de um astrólogo que ele se casaria com uma mulher cujas características eram iguais as de Lotta. Foi o bastante para que PK acreditasse que ela era a mulher da profecia e fizesse de tudo para estar com ela. Para nós, espectadores, especialmente os céticos, não interessa a existência de destino, interessa-nos o que PK é capaz de fazer por acreditar nele. E o que ele fez, uou.
PK empreendeu uma viagem digna de um conto de fadas. Sobre uma bicicleta usada e com ignorância absoluta da geografia que o separava de Lotta, PK percorreu milhares de quilômetros por diferentes países. A dimensão insensata da decisão é justamente o que confere à história a sua força cinematográfica. Afinal, é fácil julgar tal gesto a uma excentricidade ou obsessão. Ciente disto, Orlando evita anedotizar a trajetória e torná-la apenas em uma história digna de curiosidades que contamos para nossos amigos nos jantares. No lugar disso, há uma tensão entre passado e presente, e a dúvida quanto ao êxito da jornada.
De um lado, estão PK e Lotta décadas depois daquela viagem, reconstruindo suas memórias e refletindo sobre aquilo que aconteceu. Do outro, estão as as fotografias, cartas e objetos pessoais que sobreviveram ao tempo, e foram reconstruídas cinematograficamente. Então também convivem dentro do filme a ficção que dá suporte ao documentário. Nela, PK (Chirag Lobo) revive partes do percurso original, encontra pessoa, estabelece contatos, em um road movie atípico no qual as paradas são tão importantes quanto é o destino.

Essa escolha poderia produzir um efeito artificial, sobretudo porque reconstituições podem ameaçar a espontaneidade documental. No entanto, o diretor está menos interessado em apenas reconstruir o passado – como se fosse possível reviver a geografia de 5 décadas e memórias já desgastadas pelo tempo – e mais em encenar o que o passado significou para PK. O documentário abandona a ansiedade de voltar no tempo, não o desejo de compreender a emoção base do que aconteceu. Esta emoção é dependente da bicicleta como um dispositivo narrativo e dos encontros de PK no caminho. E o fato de PK ser um retratista reforça uma dupla dimensão do documentário: a reprodução do rosto de estranhos em uma folha de papel é algo que o filme também faz com os seus atores e acontecimentos, além do mais, exalta a humanidade e dos outros.
O percurso de PK é uma sucessão de fronteiras, desertos, montanhas, burocracias e obstáculos físicos, mas os encontros – até mais do que a missão e o destino – transformam a narrativa em uma investigação sobre a bondade de desconhecidos, em um mundo tomado pela desconfiança. Isso não significa que o documentário seja ingênuo. A desigualdade social e o sistema de castas interferem não só em como PK constrói a sua identidade, como ainda na perspectiva do amor romântico e se é digno de tal amor. Romeu e Julieta pode ser uma referência clichê, mas é pertinente em um filme sobre quem tem o direito a amar – vale destacar que um personagem que PK encontra no meio do caminho confessa a sua solidão, e resigna-se.
Desse modo, a superação da distância física é também da limitação psicológica que PK internalizou durante tanto tempo de sua vida. A história de amor entre duas pessoas amadurece em uma história de amor próprio. O romance de The Cycle of Love parece improvável demais para ser verdadeiro, o tipo de história que se o cinema inventasse exigiria a suspensão de descrença maior do que o espectador médio seria capaz de aceitar. Apesar da idealização de Orlando contida em sua defesa apaixonada do amor romântico, o documentário realiza uma reflexão mais ampla sobre amor, identidade, preconceito e os quilômetros que devemos percorrer para manter a esperança em um amanhã melhor.
Orlando von Einsiedel construiu uma narrativa que não tem vergonha de acreditar na possibilidade de que uma história de amor possa ser, ainda, uma história de transformação em um mundo cético e pragmático. E uma que lembra que crer em algo não significa ignorar a realidade nem se alienar; significa reunir a coragem necessária, e a loucura também, e fazer a sua parte para reescrever a história que a vida, a sociedade e os nãos do preconceito e da discriminação já tinham escrito para cada um de nós.

The Cycle of Love: when loving also means believing in the impossible
In a skeptical world, distrustful of prophecies, predetermined destiny, and the romantic ideal of soulmates, The Cycle of Love deliberately returns to a fairytale narrative form. It may seem anachronistic, sentimental, and certainly strange in the dark times we live in today, but Orlando von Einsiedel’s documentary is honest with the extraordinary true story of PK and Lotta, a couple who met in India in the 1970s and whose relationship endured differences of class, nationality, and thousands of miles.
In 1977, at the age of 23, PK was a street artist in Delhi, making a living by drawing portraits for tourists and passersby when he met Lotta, a young Swedish woman traveling through the country. Their relationship acquired, at least for PK, a sense of providence, a deterministic dimension. The reason was that, when he was still a baby, his parents had heard from an astrologer that he would marry a woman whose characteristics matched those of Lotta. It was enough for PK to believe that she was the woman from the prophecy and to do everything he could to be with her. For us as viewers, especially the skeptics, the existence of destiny is beside the point; what matters is what PK is capable of doing because he believes in it. And what he did was, well, wow.
PK embarked on a journey worthy of a fairytale. Riding a second-hand bicycle and with an almost complete ignorance of the geography separating him from Lotta, PK traveled thousands of miles across different countries. The sheer recklessness of the decision is precisely what gives the story its cinematic power. After all, it is easy to dismiss such a gesture as eccentricity or obsession. Aware of this, Orlando avoids turning the journey into a mere anecdote, the kind of curious story we tell our friends over dinner. Instead, there is a tension between past and present, as well as uncertainty about whether the journey will succeed.
On one side are PK and Lotta, decades after that journey, reconstructing their memories and reflecting on what happened. On the other are the photographs, letters, and personal belongings that have survived the passage of time and are cinematically reconstructed. Fiction, therefore, also coexists within the documentary as a means of supporting it. In these reconstructions, PK (Chirag Lobo) relives parts of the original journey, meets people, establishes connections, in an atypical road movie in which the stops are just as important as the destination.

This choice could produce an artificial effect, particularly because reenactments can threaten the spontaneity of documentary filmmaking. However, the director is less interested in simply reconstructing the past—as if it were possible to revive the geography of five decades ago and memories already worn down by time—than in staging what the past meant to PK. The documentary abandons the anxiety of traveling back in time without abandoning the desire to understand the emotional core of what happened. That emotion depends on the bicycle as a narrative device and on PK’s encounters along the way. And the fact that PK is a portrait artist reinforces a double dimension of the documentary: the reproduction of strangers’ faces on a sheet of paper is something the film also does with its actors and events, while, at the same time, celebrating the humanity of others.
PK’s journey is a succession of borders, deserts, mountains, bureaucratic obstacles, and physical hardships, but the encounters—perhaps even more than the mission and the destination—turn the narrative into an investigation of the kindness of strangers in a world consumed by distrust. This does not mean that the documentary is naïve. Social inequality and the caste system affect not only how PK constructs his identity, but also his understanding of romantic love and whether he is worthy of such love. Romeo and Juliet may be a clichéd reference, but it is a pertinent one in a film about who has the right to love—and it is worth noting that one of the characters PK meets along the way confesses his loneliness and resigns himself to it.
In this sense, overcoming physical distance also means overcoming the psychological limitations PK internalized throughout so much of his life. The love story between two people gradually becomes a story about self-love. The romance of The Cycle of Love seems too improbable to be true, the kind of story that, if cinema had invented it, would require a greater suspension of disbelief than the average viewer might be willing to grant. Despite the idealization in Orlando’s passionate defense of romantic love, the documentary offers a broader reflection on love, identity, prejudice, and the miles we must travel to maintain hope for a better tomorrow.
Orlando von Einsiedel has constructed a narrative that is unashamedly willing to believe that a love story can still be a story of transformation in a skeptical and pragmatic world. And one that reminds us that believing in something does not mean ignoring reality or becoming alienated from it; it means gathering the courage—and the madness, too—to do our part in rewriting the story that life, society, and the no’s of prejudice and discrimination had already written for each of us.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

