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Adulto/Homem

Classificado como 3 de 5

Adulto/Homem

2026

70 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Pedro Diógenes

Ficção experimental de Pedro Diógenes transforma uma audição de elenco em reflexão sobre o trabalho do ator, a precarização e a lógica competitiva do audiovisual

Há alguns meses, as redes sociais fervilharam com a repercussão da escalação de Luísa Arraes para interpretar a cantora Cássia Eller. Além das críticas de nepotismo, por ser filha do diretor Guel Arraes, ou de favorecimento, por manter um relacionamento com o filho da biografada, o cantor Chico Chico, algumas matérias ainda exploraram a etapa das audições, na qual dezenas, centenas e, em alguns casos, milhares de atores batalham para conquistar uma vaga. Se estou recordando esse caso nesta crítica é porque Adulto/Homem, ficção experimental de Pedro Diógenes, convida-nos a conhecer os bastidores de uma audição.

É fácil descrever objetivamente o dispositivo criado por Diógenes: um conjunto de 20 homens sentados, enfileirados, enquanto aguardam ser chamados para um teste de elenco que jamais assistimos. Enquanto isso, em um único plano longo, a câmera desliza gradativa e horizontalmente, passeando pelos rostos dos personagens, que se tornam as paisagens dos espectadores durante os 70 minutos. Ao mesmo tempo, a trilha sonora registra as entrevistas ou os depoimentos desses atores, ou assim acreditamos, mesclados com recortes musicais, leituras de um roteiro e de um trecho do monólogo de Charlie Chaplin em O Grande Ditador.

A reflexão não deve se limitar ao quê ou ao como, isto é, à descrição do funcionamento do dispositivo cinematográfico, nem tampouco ao porquê, ou seja, à intenção do diretor, que sequer deveria ser relevante ao espectador, capaz de construir sua reflexão a partir de sua experiência de apreciação do filme. Por exemplo, a princípio, acreditei que a narração extradiegética pertencia ao primeiro ator enquadrado. Pode até ser que pertença, contudo, com o passar do tempo, percebi que as vozes não pareciam corresponder aos atores ou personagens diante da câmera. Enquanto rostos e vozes parecem substituíveis e intercambiáveis – na verdade, este é justamente o papel do ator, transmudar-se em outro -, também comunicam verdades que podem ser entendidas como comuns ao ofício, como a insegurança trabalhista e a rejeição silenciosa, quando o diretor ou o preparador de elenco não apresenta sequer o motivo pelo qual determinado ator foi aprovado ou recusado naquela audição.

As interrupções salientam essas inseguranças. A música extradiegética — mas que pensei ser diegética porque aparece, pela primeira vez, quando a câmera está em um close-up de um homem com um fone de ouvido — expressa o estado emocional e a angústia de homens prestes a serem avaliados e, estatisticamente, rejeitados: apenas um ou alguns passam naquele momento. Já a escolha daqueles homens para participar do experimento de Diógenes representa um compromisso com a pluralidade, mesmo que isso acarrete certa representação inautêntica. Afinal, não seria razoável esperar que homens jovens e velhos, brancos e negros, de corpos diferentes, estivessem em uma mesma audição para o mesmo papel, senão para o papel de serem eles próprios. O que, claro, é um preço baixo a pagar por parte do espectador, que precisa suspender a descrença.

Em que pese Diógenes realizar intervenções possíveis dentro do experimento criado, e sempre é fascinante quando um artista impõe limites e restrições à criação apenas para desafiá-los criativamente, o resultado pode ser um pouco frustrante. A constatação de que os atores são também trabalhadores com contas a pagar, assim como o agravante de não terem a estabilidade de uma carteira assinada ou de um concurso público, mas somente a expectativa de participação em projetos audiovisuais, sem qualquer certeza, nem mesmo para atores globais, é relativamente óbvia para mim. Do mesmo modo, a intersecção entre a audição e o capitalismo, especialmente em sua lógica mais nefasta de competição, tampouco me parece tão reveladora a ponto de merecer maiores digressões.

Talvez o interesse de Adulto/Homem esteja justamente onde o filme deixa de tentar revelar essa obviedade e passa a transformar os atores nas próprias locações e paisagens de encenação e fabulação. Seus rostos deixam de ser superfícies à espera de uma avaliação e passam a constituir o espaço cinematográfico. A ausência do teste, portanto, desloca a atenção para aquilo que normalmente existe antes ou depois dele: o tempo da espera, a expectativa, a insegurança, a disponibilidade do corpo e da voz para um trabalho que talvez nunca venha.

É a tentativa de criar um mundo em que os atores não estejam na disputa por papéis, em que o próprio ato de disputar um papel já lhes confira participação na criação artística. Nem que seja apenas por meio de um experimento. Há uma ironia possível aí, porque o filme constrói uma situação em que vinte homens são finalmente vistos não por terem conseguido um papel, mas por estarem esperando por ele. O dispositivo transforma a espera em matéria cinematográfica e, ao fazer isso, desloca o valor do ator: ele já não precisa ser escolhido para justificar sua presença diante da câmera.

Ao término, fiquei com curiosidade de perguntar ao diretor se os 20 atores escalados participaram de algum processo seletivo. E seria irônico imaginar que sim. Afinal, Adulto/Homem constrói sua experiência a partir da lógica da seleção, da qual ironicamente escapa. E mesmo que o próprio filme não consiga superar inteiramente as próprias contradições, também tem um aspecto provocador no mero ato de existir.

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