Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Morte e Vida Madalena

Classificado como 3.5 de 5

Morte e Vida Madalena

2026

86 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Guto Parente

Os contratempos e as alegrias de uma produção independente no interior do Ceará

Pode ser somente uma impressão particular, a partir das minhas experiências, mas acredito que todas as pessoas gostariam de conhecer melhor a tal magia por trás da arte que amam. Compreender o mecanismo que transforma intenções em ações, até que atinjam uma forma final, geralmente diferente daquela que havia sido imaginada ou sonhada a princípio. Uma forma possível diante do sem-número de alternativas ou obstáculos que pairam sobre a criação. E, na condição de criador, ainda que a crítica, produto da minha criação, não seja reconhecida por todos como arte, cada frase, cada palavra e cada sinal de pontuação compõem um caminho que percorro e que, às vezes, me conduz a um destino bem distante daquele que havia imaginado seguir. Contudo, o processo de produção da crítica não é nem remotamente similar ao processo cinematográfico que atravessa Morte e Vida Madalena.

Com direção e roteiro de Guto Parente, a comédia metalinguística espia o que existe por trás da obra de arte cinematográfica já concluída. Entretanto, diferentemente da metalinguagem de clássicos como A Noite Americana ou Cantando na Chuva, a narrativa investiga o que há por trás de uma produção independente, ainda mais suscetível a acidentes de percurso, improvisos e colaborações necessárias para viabilizar alguma forma de arte final, qualquer que ela seja. Ora, se a produção já está distante do polo de produção nacional localizado no eixo Rio-São Paulo, que dirá de Hollywood ou de qualquer ideia de indústria cinematográfica existente. É nesse contexto precarizado, embora romântico, que Madalena (Noá Bonoba) coloca uma dúzia de artistas e trabalhadores do audiovisual no interior de uma van e parte para o interior do Ceará para as filmagens do roteiro derradeiro herdado do pai recém-falecido (Carlos Francisco).

Divulgação oficial.

O roteiro que Madalena tenta realizar é um faroeste de ficção científica de baixo orçamento e de valor artístico aparentemente marginalizado, daqueles que alcançam o status de filme de culto (ou cult) décadas após o lançamento. Não é a qualidade textual que a impele, mas o desejo de tornar real a obra e o legado paternos, mesmo depois do desaparecimento do diretor da produção, Davi (Marcus Curvelo); da assunção, à cadeira de diretor, do ator-protagonista, Oswaldo (Tavinho Teixeira), e da subsequente transformação da produção em um caos irreverente e debochado; da ameaça de greve do editor de som, Nonato (David Santos); e da dificuldade em encontrar uma arma de fogo para ser utilizada na produção, depois de o fornecedor descumprir sua promessa. A matéria-prima da narrativa são as circunstâncias e os imprevistos, sonhados ou não, em uma metáfora tingida pela lente da comédia sobre os esforços para viabilizar e produzir cinema brasileiro.

E é delicioso, porque está apoiado na ideia de rir ao lado dos personagens, que levam a sério – ou parecem levar – o trabalho cinematográfico. Porque, antes de ser arte, o cinema é trabalho, por meio do qual profissionais pagam as contas e sustentam a si e às suas famílias. Guto abraça a perspectiva da arte-trabalho, não apenas diante dos percalços de Madalena, que tenta levantar o dinheiro apesar de estar endividada até o pescoço, mas também das exigências da equipe. O processo é apaixonado, por vezes apaixonante, mas é um meio de subsistência no final do dia. Guto não perde isso de vista.

Divulgação oficial.

Também não perde a humanidade. Madalena é uma mulher em um limiar dramático: não só perdeu o pai, que retorna para confortá-la em determinados momentos, como está grávida e prestes a dar à luz. Tudo isso enquanto se vê às voltas com a produção do filme, também um filho, só que um mais peralta e desobediente. O humor cerca a personagem como a matéria que a envolve em uma locação praiana no interior do Ceará, mas é deflagrado meio acidentalmente, como no pisão em uma máquina de produzir fumaça que confere ao velório do pai a dramaticidade que não possuía. A impressão é de que nada está verdadeiramente sob o controle de Madalena e, de certa maneira, de nenhum produtor cinematográfico, que somente deve ter fé de que as filmagens correrão bem e de que a equipe alcançará a linha de chegada.

Nesse sentido, Morte e Vida Madalena é um presente do diretor à sua produtora, Ticiana Augusto Lima, com quem tem colaborado praticamente por toda a sua carreira, e, sobretudo, para nós, já que é incomum que a figura do produtor seja encarada de forma tão sensível e humana. Normalmente, o produtor é quem ameaça a ambição e, quiçá, a integridade artística do diretor – tido erroneamente como o criador da arte, embora a narrativa desmonte isso. É o personagem preocupado com o dinheiro e o retorno do investimento e, com isso, é quem desafia o olhar e a criatividade do artista diante da contingência do capital. Aqui, não. Noá Bonoba habita uma personagem que, em que pese parecer tropeçar em muitos aspectos pessoais de sua vida, não hesita na missão louvável de homenagear o pai por meio da arte, de transformar trabalho em arte, de dar às filmagens a dimensão alegre e irreverente que só a arte pode recrutar em um filme gostoso para quem ama cinema. Igual a mim.

Morte e Vida Madalena está em exibição nos cinemas brasileiros.

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