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Nada a Fazer

Classificado como 4.5 de 5

Nada a Fazer

2025

87 minutos

Classificado como 4.5 de 5

Diretor: Leandra Leal

Documentário de Leandra Leal acompanha a relação entre mãe e filha durante a pandemia e transforma a montagem de Esperando Godot em uma reflexão sobre tempo, memória, maternidade e criação artística

Devo ter falado isso antes, mas não custa repetir: todo filme corta o corpo do artista. Alguns cortam mais fundo; outros chegam bem perto do coração. É nessa segunda categoria que se insere Nada a Fazer, documentário dirigido por Leandra Leal, que acompanha sua tentativa de dar sentido à vida quando a própria vida parecia ter perdido o sentido temporariamente durante a pandemia. Em uma casa de praia, acompanhada da mãe e atriz Ângela, da filha Júlia e do companheiro e diretor de fotografia Guilherme Burgos, Leandra retira a mãe da aposentadoria para encenar Esperando Godot, peça escrita por Samuel Beckett.

A escolha de uma peça teatral dividida em dois atos, não três, não é aleatória. Além de representar o chamado teatro do absurdo – e nada mais absurdo do que termos atravessado e sobrevivido à pandemia da Covid-19, a peça é uma obra que abre mão de um terceiro ato enquanto seus personagens, Estragon e Vladimir, continuam esperando indefinidamente a chegada do personagem-título. Por que permanecem esperando não deveria provocar nenhum espanto, afinal, Godot é apenas um termo coringa, um significante vazio que podemos substituir por todas as nossas esperas. Pode ser o sonho, o sentido da vida, por exemplo. Em Nada a Fazer, porém, Godot é também o meio, o processo, o tempo.

Em um período da história em que o tempo permaneceu suspenso, Leandra somente tinha o passado e a elaboração que lhe vinha pela arte. Não havia amanhã, e Godot se torna um companheiro para atravessar o cotidiano e se reaproximar da mãe. Sempre reservada – ou assim sempre me pareceu ser -, Leandra expressa muito bem as emoções contraditórias por meio da câmera. A relação com Ângela é de amor, afeto e admiração, pois não são apenas mãe e filha ou colegas de profissão: são também atriz e diretora, esta modelando a outra até o limite possível. Os atritos inevitáveis aparecem, e Leandra os incorpora ao tecido narrativo à procura da mesma humanidade que sua mãe buscava nas personagens que interpretava.

Mais do que o gesto artístico altruísta de arrancar um pedaço de si mesma e compartilhá-lo com o mundo, o filme é também o ato individual indispensável de olhar para a relação com a mãe, para o passado – neste caso, por meio de vídeos de arquivo e da escuta participativa das memórias de Ângela – e para dentro de si mesma, mesmo antes de ser, de existir. Não quero que pensem que o filme é um ego trip. E, mesmo que exista uma espécie de terapia pela arte, uma tentativa de preservar a sanidade e a quietude mental através da criação, há também um drama familiar universal. A filha tenta entender e alcançar a mãe a partir do ofício que herdou dela, a arte e a encenação, enquanto navega pelas águas turbulentas da maternidade. Adoro o momento em que ensina à filha Júlia que a panqueca de carne de que ela não havia gostado ontem não é motivo para não experimentá-la hoje, porque a Júlia de ontem não é mais a mesma de hoje.

Isso dialoga profundamente com a própria ideia de arte. Leandra repete a mesma cena três vezes, sem cortes, porém com entonação, cadência e pausas distintas. A Leandra não é a mesma, e a personagem também não é mais a mesma – no sentido emocional, pelo menos, pois o ajuste mudou tudo. A vida se repete, mas essa repetição é também impermanência. Ângela e Leandra mudam, e têm mudado, mesmo à medida que os dias passam na casa de praia. O Teatro Rival, que a mãe herdou e administra como um palco de resistência, é uma espécie de filho/irmão que a pandemia ameaçou tomar. O desafio de administrar o Teatro Rival de portas fechadas começa a concorrer com o ensaio da peça dentro do filme e oferece também alguns dos momentos mais desgastantes da relação entre mãe e filha.

Esse desgaste é contraposto pelo olhar de admiração de Leandra sobre a mãe em 1991, quando tinha 8 ou 9 anos, pelo prêmio recebido por Ângela das mãos da filha em 2000, acompanhado de um discurso pró-democracia, e por instantes em que as palavras elogiosas carregam pesos e ambiguidades impossíveis de serem descritos com profundidade neste texto crítico. “Você já nasceu maior do que eu” ou “Deixei de ser atriz pelo Rival e por Leandra” trazem consigo uma carga muito maior do que a literalidade permite revelar. Imaginar Leandra revisitando essas imagens de arquivo depois de ter sido uma promessa, – hoje alguns diriam nepo-baby – e se transformar em uma das artistas mais talentosas e multifacetadas em atividade certamente acrescenta outra camada à reflexão proposta pelo filme.

Uma camada que transborda da encenação da peça dentro do filme. Assim, a fotografia de Guilherme Burgos individualiza a peça em uma textura mais cinematográfica, distinta do cotidiano fotografado de maneira naturalista e às vezes incidental, em que a câmera aguarda encontrar o gesto, o olhar ou a hesitação que apenas o tempo é capaz de revelar. Já a montagem de Marília Moraes, além do trabalho de transformar 40 horas de material em um longa de 87 minutos, encontra o diálogo poético existente entre as imagens. Um instante me veio à cabeça: a imagem de uma torre de transmissão e, na sequência, a de Júlia brincando no pátio, vista em um contra-plongée, como se estivéssemos espiando do alto daquela torre.

Acho que faz sentido, pois Nada a Fazer habita dois mundos. Há a vida real e há a vida encenada; há a vida da qual os artistas roubam para criar a vida de seus personagens; há a vida da filha que também é mãe e a vida da mãe que submete sua autoridade materna à filha que é diretora. Leandra é uma mulher e artista incrível, diante e atrás das câmeras; e Nada a Fazer deixa evidente quem é a mulher intensa e marcante de quem ela herdou muito disso: Ângela. Obrigado por dividi-la conosco, nem que apenas por 87 minutos.

Nada a Fazer está na Mostra CineMundi da 20a CineBH.

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