O fenômeno dos pastores mirins investigado em documentário
Durante um período de 5 anos, o diretor e roteirista agnóstico Miguel Antunes Ramos investigou o fenômeno dos pastores mirins, típico de igrejas evangélicas neopentecostais. Miguel escolheu o modo observacional, na tradição do cinema direto. Neste modo, a câmera se propõe a ser instrumento de registro, e não de revelação da opinião ou julgamento do cineasta. Isto não significa que A Voz de Deus não possua coragem ou se acovarde diante do dever e direito de criticar. É só que esta crítica não é verbalizada em palavras, mas em imagens.
Essa opção produz um filme prismático e dependente da participação do espectador. Um evangélico pentecostal pode enxergar Daniel Pentecoste e João Vitor Ota, e os pastores mirins de forma geral, como milagres divinos. Crianças e adolescentes abençoados por Deus, para evangelizar crianças e adultos. Um espectador não religioso ou cético certamente interpretará de outra maneira: a adultização das crianças e a exploração do trabalho infantil pela família e congregação religiosa. E ao menos as rachaduras que existem por trás do que parece ingênuo. É onde me enquadro, e admiro a decisão de Miguel de ter me deixado decidir sozinho, em vez de tentar me convencer de sua opinião.
Afinal, será que crianças deveriam pregar e orientar espiritualmente adultos? Para mim, a resposta negativa é lógica. Se as crianças não ensinam ou educam adultos na escola ou universidade, por exemplo, então por que seriam os seus guias espirituais? É onde está a crítica de Miguel, embora não seja literal em palavras, mas em imagens e decisões. Além de revelar que os pastores mirins reproduzem não apenas o conteúdo, mas a forma performática dos pastores adultos, Miguel ainda opta por fragmentos muito reveladores: em certo momento, Ota, aos 8 anos, menciona o adultério e a fornicação. Ora, em que realidade paralela crianças de 8 anos têm o conhecimento emocional para falar sobre tais temas… e a adultos? A mera existência deste fragmento no filme já derruba a ideia de que observar não é se posicionar. Só é uma forma de fazê-lo.

Além do mais, o modo observacional permite que a direção se torne transparente, e enxergue os atores sociais com maior liberdade. Em um momento, Ota discute com a mãe, que atira nele a roupa recém passada para utilizar na pregação. Esta passagem espontânea revela os bastidores, o cansaço, o atrito familiar, todos os elementos que os atores sociais podem querem esconder – ou romantizar. Ainda mais se tratando de personagens que performam em público e/ou diante de câmera, e que já possuem inconscientemente a inclinação a atuar.
Entrecortada pelas eleições de Bolsonaro, em 2017, e Lula, em 2021, A Voz de Deus tem um eixo temático que tangencia o discutido em Apocalipse nos Trópicos. O elemento político, embora transversal à narrativa, se faz presente na ideologia ou posicionamento dos personagens. A sensação que tenho, e é por inferência a partir dos elementos narrativos e das elipses, é de que Daniel e o pai romperam, ou se afastaram, exatamente em razão da alienação política do último.
Se a política é transversal, o elemento financeiro é central. Enquanto a tal da teologia da prosperidade se torna o subterfúgio para crimes, escândalos ou imoralidades cometidas por pastores que exploram a fé alheia, Daniel e Ota se revelam trabalhadores precarizados. Depois de ter tido êxito como pastor mirim, Daniel trabalha como caixa em um supermercado e divide o apartamento pequeno com o pai. Já Ota instrumentaliza as suas redes sociais para ajudar o comércio de vestuário do pai. E se não bastasse isto, em certo momento, sua irmãzinha brinca para a família que casará com um homem milionário. O documentário revela, assim, que, apesar de fenômenos, os pastores mirins não deixam de ser objetificados e explorados dentro de uma lógica capitalista. Esta privilegia a novidade ou o diferente para atrair os fiéis, porém sem o retorno para si e para suas famílias.

E não deixa de ser apropriado que a pregação de Ota, que inicia com você nã precisa de ouro, você não precisa de prata, termine com um pedido do pregador para que os fiéis comprem as mercadorias que está vendendo na porta de entrada da igreja e apoiem seu trabalho. Não apenas irônico, é também contrário ao ensinamento bíblico no episódio em que Jesus teria expulsado os comerciantes dos degraus de entrada do tempo. Mais uma vez, o ato de observar não é sinônimo de isenção nem indiferença do cineasta, que enxerga claramente paradoxos, contradições e idiossincrasias.
Para além disto, A Voz de Deus ainda convida a refletir sobre a era analógica e digital, e a influência das redes sociais no trabalho de Ota e como Daniel não pode usufruir deste momento que a tecnologia possibilitou. Podemos só imaginar o que seria de Daniel caso houvesse o Instragram ou o YouTube onde pudesse difundir suas pregações, e a partir das filmagens podemos enxergar a transformação aguda desta sociedade em um recorte breve de tempo. E tudo isto sem abrir mão da força da imagem e do simbolismo… é que ao Ota sobre um touro mecânico durante uma festividade, sinto que Miguel metaforiza quanto tempo aquele pregador mirim aguentará no auge antes de haver a passagem de bastão para outro, ou outros.
O tempo passa, Daniel e Ota amadurecem e envelhecem, mas o fenômeno destes pastores mirins continuará, porque na base continuam os elementos que possibilitam a sua existência: o interesse das igrejas e famílias.
A Voz de Deus estreou quinta-feira, 16/04, nos cinemas.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


