Arroz e feijão cinematográfico que nutre a alma
Existe uma receita para um bom filme? Não sei porque motivo nem em que instante pensei nisso enquanto assistia ao documentário Não Existe Almoço Grátis. Relendo as minhas anotações, a pergunta, mas não o que a provocou, está entre “falta de gás” e “elefante branco“, o nome da escola pública do ensino médio em Brasília onde Socorro, Jurailde e Bizza cozinham refeições para cerca de 1.000 pessoas que viajaram para participar da cerimônia de posse do presidente Lula. De todo modo, muitos responderiam a pergunta com “Sim, existe, e chama-se um bom roteiro, um bom diretor, um bom elenco“. Alguns outros poderiam afirmar que a receita para um bom filme é, ainda, a de um que empurrasse à frente a maneira de contar histórias ou a técnica em fazê-lo. Evidentemente, há aqueles para os quais bons filmes só podem ser preparados com boas humanidades, não exatamente personagens bons ou maus, mas gente que é humana mesmo quando é alienígena, de carne e osso ainda que fantástica, cujos atributos sejam identificáveis, contraditórios às vezes, envolventes na maioria do tempo.
Nenhuma das respostas hipotéticas apresentadas contemplam exatamente ao trabalho de Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, salvo a última. Do ponto de vista exclusivamente formalístico, Não Existe Almoço Grátis não poderia ser mais convencional ou burocrático: do formato das entrevistas em Sol Nascente, considerada a maior favela do Brasil, à cronologia da história, não há nenhum ingrediente sofisticado. Socorro, Jurailde e Bizza são entrevistadas em um plano médio estático ou com a câmera na mão enquanto caminham pela casa ou cozinham em uma das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Ao lado da narrativa, que evolui linearmente no espaço de 3 dias, também não há muito a ser revelado. A ameaça de golpe paira ao largo de uma festa celebratória que é também um convite para que tenhamos maior consciência de que há muitos Brasis no Brasil. Às vezes, só queremos enxergar um.
Mesmo em um aspecto ideológico e representativo, o documentário não parece exatamente correto, na falta de melhor palavra. Ainda que seja o recorte da história de 3 mulheres negras, a história é contada através da câmera de dois diretores brancos, de classe média, para os quais o trio de personagens é, talvez, um grande talvez!, estranho porque está longe de suas realidades. O cinema ainda é, nos dias de hoje, um espaço pelo qual é preciso lutar; diferentemente das cozinhas, um espaço historicamente associado ao feminino junto do dever de cuidar atrelado ao ato de cozinhar. Quer dizer, mesmo que a câmera dê às personagens oportunidades para contar as suas histórias, ainda estão mediadas pelo olhar branco, masculino e classista, por mais empático que seja. Afinal, por que eu me emocionei? Qual é a receita de um bom filme ou há tal receita?
A leitura é a de que o Brasil é um país alimentado pelo trabalho invisível de mulheres negras, temporariamente visibilizadas através da câmera dos diretores. Uma visibilidade que provavelmente era desconhecida por muitos, quiçá todos que se alimentaram na cerimônia de posse. Desconfio que nenhum sabia quem separou, preparou e organizou as quentinhas foram três mulheres que lutam pelo direito à moradia digna e o direito à educação. Que uma delas tem uma horta em sua casa. Que outra amarga o arrependimento do voto feito na eleição passada. Que outra perdeu a oportunidade de regularizar a propriedade por causa de problemas familiares. Depois do filme, estas mulheres não permanecerão mais escondidas nos bastidores da história. Elas ganham uma espécie de existência que só o cinema é capaz de lhes dar, uma contraditória ainda por cima.
De um lado, o cinema coloca rosto nelas, ao mesmo tempo em que delineia o contorno do programa Cozinha Solidária: almoço grátis, embora haja trabalho envolvido. Um trabalho que contrasta com o predicado capitalista de troca de bem ou serviço por dinheiro. Não, o trabalho realizado não traz retorno individual, só coletivo, apesar de haver dificuldades e sacrifícios. Não é só rosto, é também a voz que o filme confere a cada uma das personagens. Em uma sociedade que silencia a mulher, a mulher negra, a mulher negra que serve, a dupla de cineastas escuta, por entre os sons de uma capital estéril e impessoal, a vida que está pulsando a 30 km do Plano Piloto.
Mas enquanto um documentário humanista e que estimula naturalmente a conscientização do espectador, Não Existe Almoço Grátis é também um trabalho hermético, um em que a existência está limitada a 80 minutos de duração, ainda que a impressão deixada é de que o futuro delas será tão promissor do que a esperança que carregaram dentro delas. Mas eu senti falta de Socorro, Jurailde e Bizza hoje em dia. Para um filme que nos convidou a conhecê-las, há um sentimento agridoce de que sua existência cessou depois da posse, depois de Socorro, exausta, decidir ir para casa descansar, e de Jurailde e Bizza marcharam no ritmo de uma promessa de mudança.
A receita do documentário pode ser básica igual os ingredientes da mesa de almoço do brasileiro: arroz, feijão, carne, galinha, salada, farofa. Além do mais, a direção falha em explorar melhor aqueles que, para nós, parecem pequenos conflitos, embora sejam os que o trio de personagens deve superar (por exemplo, o abastecimento de gás encanado no Elefante Branco). Entretanto, além do convite à empatia e à escuta atenta, o documentário é um registro de todas aquelas que desejam ser reconhecidas, deixar a marginalização não apenas da política habitacional brasileira, mas também social e, por que não, cinematográfica.
O filme estreou nos cinemas brasileiros hoje, 02/09.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



