Amyr Klink não carrega em sua história um feito qualquer: tornou-se a primeira pessoa a atravessar a remo o Oceano Atlântico Sul, num trajeto entre a Namíbia e o Brasil, em 1984, a bordo do barco IAT, projetado especificamente para a empreitada. Trata-se, portanto, de uma proeza que ultrapassa a esfera pessoal — é uma conquista coletiva, marcadora das páginas dos livros da história das navegações.
Ao dirigir 100 Dias, todavia, Carlos Saldanha opta por fazer a leitura dessa página histórica sob a ótica pessoal da jornada do herói – aquele que parte em busca de dar vazão às suas inquietações e, para tanto, precisa atravessar (neste caso, literalmente) um oceano de atribulações numa aventura que será sua maior provação, culminando em seu amadurecimento. Considerando que as etapas da travessia de Klink seguiram, de fato, exatamente essa estrutura, transformá-lo em protagonista épico não se mostra uma tarefa difícil, e o ator Filipe Bragança assume, ao lado do diretor, a missão de encenar essa história clássica nas telas do cinema.
100 Dias trabalha com duas linhas temporais distintas, que representam a preparação para a jornada e o seu percurso propriamente dito. Durante o planejamento, o Klink que se apresenta dispõe dos melhores especialistas ao seu alcance, tanto para a concepção do barco quanto para o preparo nutricional necessário – afinal, seriam (e foram) cem dias em alto-mar. Ele se mostra, contudo, teimoso – e um tanto prepotente, diga-se – a ponto de tentar descredibilizar o conhecimento de seus parceiros para impor suas próprias ideias, reflexo do pensamento de que somente ele seria capaz de compreender as demandas dessa viagem. Essa é, portanto, a primeira lição que ele aprenderá: a primazia do trabalho em equipe diante da magnitude do feito pretendido.
A viagem em si integra a etapa mais longa do aprendizado do protagonista, que precisa submeter-se às condições mais precárias e vivenciar os limites das necessidades humanas mais básicas para, simplesmente, sobreviver. Em alinhamento com a proposta de enfatizar a dimensão humana e pessoal dessa jornada, Carlos Saldanha constrói 100 Dias concentrando-se em tomadas no interior da embarcação, onde Klink permaneceu confinado ao longo dessa centena de dias.
Nesse sentido, 100 Dias parece recusar, imageticamente, a exploração do espetáculo oceânico, ainda que aproveite o entorno da embarcação para edificar algumas das adversidades vivenciadas pelo navegador. A vastidão da travessia – que seria um prato cheio para enquadramentos magnéticos, tanto pela beleza quanto pelo reflexo da pequenez de Amyr perante as forças da natureza – torna-se claustrofóbica e se apega ao exato oposto: na escala do filme, é o protagonista quem parece maior do que o próprio oceano.
Muito embora essa seja uma escolha coerente, já que cabe a Amyr enfrentar também os próprios fantasmas e temores familiares, psicológicos e íntimos (em especial a relação paterna estremecida), 100 Dias não consegue se consolidar nem como a experiência emocionante a que se propõe, nem como a aventura potente que deriva da jornada clássica do herói. Afinal, são raros os momentos em que realmente tememos por sua segurança. Isso não se deve ao fato de conhecermos o desfecho vitorioso dessa história, mas sim porque essa dupla abordagem parece ficar em cima do muro.
Os conflitos do protagonista com a figura paterna, inclusive, soam como mero atalho narrativo para conferir estofo à camada introspectiva do herói. As motivações da viagem, louváveis em termos científicos, tecnológicos e humanos, acabam sistematicamente reduzidas a uma simples afronta a esse desafeto familiar.
Mesmo as cenas mais angustiantes – como quando o protagonista perde uma unha – não são exploradas a ponto de provocar sensações que nos aproximem do sofrimento experimentado em tela. Seguimos, portanto, sem temer pelo personagem até nos momentos mais físicos da obra. Vale mencionar, inclusive, que a atmosfera de claustrofobia e a atenção dedicada ao autoconhecimento e à superação de espectros íntimos, manifestados em sonhos, pesadelos e memórias, acabam enfraquecidas pela pouca relevância que o próprio filme lhes concede.
Por fim, 100 Dias mostra-se uma cinebiografia absolutamente respeitosa à trajetória de Amyr Klink, mas que hesita em mergulhar nas profundezas do oceano que se propõe a navegar. Ao equilibrar-se na fronteira entre a jornada de sobrevivência e a introspecção dramática sem se assumir em nenhuma das frentes, o filme de Carlos Saldanha suaviza o peso do isolamento ao mesmo tempo em que reduz a proporção imensa da travessia. Trata-se de uma obra correta e acessível, que celebra o feito histórico do navegador brasileiro, mas que deixa no espectador a sensação de uma certa carência emocional e contemplativa.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).