Adaptado da graphic novel de Isabel Greenberg, 100 Noites de Desejo imagina um mundo fantástico que, em vez de propor uma ruptura radical, exacerba os mecanismos de opressão já presentes no mundo patriarcal contemporâneo. Em vez do deus todo-poderoso das três religiões monoteístas, temos Birdman (Richard E. Grant) que, depois de testemunhar a criação de sua filha (Safia Oakley-Green), intervém para que esse mundo o adore e cultue. Como resultado, nesse mundo, a submissão feminina não é só incentivada, é institucionalizada, e as mulheres que se recusam a aderir às regras dessa sociedade terminam sacrificadas. Ser infértil, ser adúltera, escrever, ler ou ter alguma forma de autonomia são pecados punidos com a pena capital.
Nessa fantasia, a realidade não é distópica e não necessariamente alegórica. O seu elemento mais fantástico talvez seja o fato de que há três luas no céu, já que todos os demais funcionam mais como instrumentos de reconhecimento da realidade criada pelos homens, para que as mulheres vivam.
A narrativa acompanha Cherry (Maika Monroe, de Corrente do Mal), a esposa de Jerome (Amir El-Masry), um aristocrata que, a despeito da pressão eclesial para gerar herdeiros, demonstra absoluto desinteresse pela relação conjugal, mesmo sabendo que o resultado disso pode ser a morte de Cherry. A infertilidade atribuída à ela é, na verdade, a recusa dele em consumar o casamento. Esta situação se agrava com a visita do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine, da estreia Mestres do Universo), com quem faz uma aposta: caso consiga, em 100 dias, levar Cherry à sua cama, Jerome receberá como recompensa o castelo de propriedade da família. A mulher é o que é nessa sociedade: objeto e, se preferir, moeda de troca transacionada entre dois amigos.
A resistência surge através de Hero (Emma Corrin), criada, protetora e confidente de Cherry. A propósito, os nomes dos personagens são reveladores mesmo quando óbvios: Hero, de herói(na); Cherry, que é utilizado na expressão inglesa pop the cherry ou tirar a virgindade; e Manfred, que é tão masculino quanto se fosse chamado de He-Man. E para impedir a consumação da aposta, pois faltam malícia e a força de vontade à Cherry, Hero passa a ocupar o seu tempo contando-lhe uma história que serve de inspiração. Esse instrumento, um paralelo inequívoco ao artifício empregado por Sherazade para permanecer viva em As Mil e Uma Noite, revela a história como um instrumento de sobrevivência e de insurgência. Em um universo onde mulheres são proibidas de ler e escrever, o ato de contar histórias adquire um papel mais amplo, extravasando inclusive para fora da narrativa.
É nessa dimensão que o filme encontra seus momentos mais inspirados. Embora possua uma duração relativamente enxuta, a diretora e roteirista Julia Jackman demonstra habilidade para construir um universo visualmente coeso, através da fotografia de Xenia Patricia, que combina a iluminação mais suave, as cores e os discretos tons de néon. Já a direção de arte de Sofia Sacomani reimagina os castelos e a atmosfera aristocrática da Idade Média com elementos de fantástico, nem que só pelo fato de a sociedade adorar um deus com bico de pássaro.
Já a montagem de Oona Flaherty e Amélie Labrèche trabalha muito bem na construção do desejo a partir de gestos cotidianos. Não só o desejo entre Cherry e Manfred, mas especialmente dela com Hero. Em certo momento, o desejo interrompido é sucedido pela corte seco à Hero enquanto limpa uma prataria com as mãos movimentando-se de forma rápida e circular, adicionando uma carga erótica ao gesto. São momentos em que Julia explora o afeto, desejo e a sensualidade como uma linguagem não explícita, afinal, às mulheres era proibido amar outras mulheres.
Boa parte do êxito repousa sobre o trabalho das atrizes. Maika Monroe constrói uma Cherry marcada por uma ingenuidade que poderia facilmente resvalar para uma caricatura, mas que encontra humanidade para despertar alguma forma de empatia (algo que também fez com bastante sucesso na ainda inédita comédia macabra Victorian Psycho, que vi no Festival de Cannes). Já Emma Corrin está no centro da narrativa, mesmo às margens da história. Hero combina inteligência e vulnerabilidade e extravasa o que poderia ser apenas a heróina simbólica que o título alude. E Emma Corrin compreende que a força da personagem está na capacidade de resistir através da acolhida e da imaginação, qualidades que costumam ser relegadas pois menos cinematográficas.
Já Julia demonstra consciência de que o patriarcado não se sustenta só pela ameaça de violência física, mas também pela naturalização de comportamentos junto às próprias mulheres. Cherry aceitar boa parte das convenções que a oprimem torna sua trajetória particularmente interessante, porque evidencia como a dominação se perpetua através dos valores difundidos. Para se libertar disto, portanto, as histórias de Hero terminam surtindo o efeito de abrir-lhe os olhos que mantinha fechados.
Entretanto, nem todas as escolhas produzem resultados satisfatórios. Há algo problemático na maneira como o roteiro lida com o marido Jerome. Embora o filme não revele explicitamente a sua orientação sexual, a caracterização do personagem sugere alguém possivelmente homossexual, portanto também preso às exigências de uma sociedade heteronormativa. Ao associar essa figura a determinadas funções e papéis antagonista sem aprofundar nas suas contradições, a narrativa corre o risco de ser seletivo, defendo um grupo oprimido, enquanto oprime outro.
Felizmente, tal limitação não compromete o encanto do filme. Como acontece com frequência nas melhores fábulas, 100 Noites de Desejo compreende que a fantasia não precisa inventar mundos radicalmente diferentes para comentar a realidade. Além do mais, ao enxergar a narrativa oral em ferramenta de resistência e costurar o desejo em uma alternativa à libertação, Julia Jackman realizou um filme leve, bem elegante e afetuoso.
100 Noites de Desejo está em exibição nos cinemas brasileiros.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

